6 de jun de 2010

Jesus Cristo, de Superstar a bolha de sabão

Muitas vezes, fico com a impressão de que Jesus Cristo não existe no imaginário coletivo senão como um sonho de infância, uma impressão artística, um efêmero mito pop, um protótipo de teurgista. Seu nome tabu tem estado mais para intejeição do que para jaculatória. Mais famoso que os Beatles (grande coisa!), só é citado no Twitter por crentes cujos tweets espirituais me fazem sentir vergonha alheia.

Suas palavras originaram ditados populares e moldaram ideologias díspares. Caem bem como conselhos de amante no livro Olhai os lírios do campo de Érico Veríssimo, mas soam a discurso moralista quando referidas pela boca de gente clerical.

Como era Jesus Cristo? O que a história nos conta? Por incrível que pareça, ainda encontro pessoas que pensam como Renan, a ponto de negar valor historiográfico aos Evangelhos. Por outro lado, também é possível achar crédulos ingênuos como Dan Brown, que se guiam por leituras obtusas de documentos gnósticos do século IV.

Será que o que não sentimos ou não sabemos não existe? Perguntando de outro jeito: por que desconhecemos Jesus Cristo e nos passa despercebida sua personalidade?

Sempre estimei a explicação de T. S. Eliot para a dificuldade que é sentida pelo leitor moderno com algumas passagens simbólicas da Divina Comédia: o homem medieval prezava o símbolo na mesma medida que o homem atual preza o sonho. Daí nosso desconforto. Acho que tal distinção pode ser útil se a aplicarmos a Jesus Cristo.

Com efeito, Jesus adotava uma pedagogia peculiar, detectável nos Evangelhos canônicos, que não se vê comumente por aí. Ele fazia tudo de forma misteriosa.

Explico-me: Ele juntava o símbolo com o sonho. Um símbolo pode não me dizer nada, mas é uma mensagem dEle para mim. O sonho pode ser confuso, procede dos meus anseios, mas Ele os antevê e entende. Quando se juntam, ocorre uma espécie de mágica: um diálogo do qual eu participo sem saber que tinha sido chamado.

Por outro lado, a pedagogia do mistério torna-se ainda mais instigante na medida que é possível descobrir novos significados a cada releitura. É provável que mesmo os apóstolos tenham levado uns anos para fazer várias inferências. Por exemplo: será que eles captaram imediatamente a razão de Pedro ter recebido o primado em Cesareia de Filipe?

A cena é famosa: Jesus os conduz ao oásis no extremo norte de Israel e ali anuncia que Pedro seria o chefe da futura Igreja, sobre quem o inferno não prevaleceria. Ora, Cesareia era uma cidade pagã, dedicada a Pã, deus dos pastores, e atraía muita gente que contemplava admirada a grande rocha de onde pendia uma bela cascata para dentro de um buraco, chamado então Porta do Inferno. O que queria dizer tudo isso? — Pedro, a Rocha, Pastor, não só de Israel, mas de todos os povos, forte contra as portas do inferno.

Outro exemplo: o diálogo junto ao poço da Sicar. Jesus joga na cara da samaritana que ela que tivera cinco maridos, depois de uma conversa impertinente em que a saidinha fora bem atrevida com Ele. Para quê? Para lhe fazer um sermão moralista? Ao que tudo indica, foi bem ao contrário, pois os poços eram, tradicionalmente, lugar de namoro. Foi aí que Rebeca tinha sido conhecida, Jacó tinha dado um beijo em Raquel e Moisés tinha conhecido sua esposa. Cristo disse exatamente à samaritana: “tiveste cinco baals (maridos) e quem está aqui contigo não é teu marido”, significando que a Samaria tivera cinco deuses mas ainda não tinha a Ele próprio como Deus. (Baal quer dizer “senhor” e assim eram chamados tanto a divindade masculina quanto o marido.)

Os exemplos podem ser multiplicados ao infinito. O estudo acurado de tantas referências cruzadas ocultas nos textos indica que Jesus Cristo “não pregava prego sem estopa” e que tamanha elaboração supera a mera capacidade de criação literária de judeus tão pouco afeiçoados à língua grega.

Ora, mistério (em grego) traduz-se por sacramento (em latim). O termo viu uma rica evolução:
1. “Segredo”, no entendimento comum.
2. “Instrução iniciática”, nos círculos helênicos.
3. “Revelação do desígnio divino”, na primitiva comunidade cristã.
4. “Sinal eficaz da graça”, na teologia cristã posterior.
5. “Sinal da fé”, no reducionismo protestante.

A negação das mediações no protestantismo levou até mesmo à perda do sentido sacramental que Cristo conferiu a toda sua vida. Desta forma, Jesus parece apenas um desses professores que gostam de dar aula ao ar livre e cuja matéria não precisa ser anotada pelos alunos, pois ele não costuma pegar pesado na prova.

Pelo contrário, vejo na leitura sacramental da vida de Cristo uma forma de resgatar sua verdadeira e esquecida imagem. Pois Jesus é mais do que um sonho e mais do que um ícone. Está mais vivo do que nunca e tem muito a nos dizer.
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