3 de set de 2010

Maniqueísmo em pleno século XXI

Esta é a parte
1 | 2 | 3
Como eu dissera numa postagem anterior, certas formas populares de opinar sobre a Bíblia parecem-me uma manifestação de puro maniqueísmo. Na próxima postagem veremos como demonstração um pequeno elenco de lugares-comuns.

Por agora, detenhamo-nos na história dessa seita curiosa.

Origem do maniqueísmo

O maniqueísmo surgiu no século III, na Pérsia. Seu mentor, Manes, criou uma suma sincretista, uma amálgama heteróclita das doutrinas mais díspares: heresias cristãs, gnosticismo de forte cunho helênico, crença indiana na transmigração das almas e dualismo zoroastriano.

Para completar, diz-se que o pai de Manes fora alexaíta, isto é, pertencente à degenerada seita fundada por um tal Aleixo entre os judeu-cristãos do tempo de Trajano, o qual misturava aos dogmas algumas observâncias judaicas e certas práticas de magia.

Manes consolidou seus ensinamentos numa bíblia pessoal em que verteu sua esmerada caligrafia, seu pendor poético e sua arte em miniaturizar. Seus discípulos traduziram os textos para o grego, o latim, o chinês, o turco e o árabe.

A doutrina maniqueia

Sua doutrina tentava explicar a coexistência do bem e do mal como dois princípios opostos desde toda a eternidade. Jesus Cristo teria sido um mensageiro da luz. Contudo, rechaçava todo o Antigo Testamento, assim como grande parte do Novo.

Manes também escolheu doze apóstolos e 72 bispos, assim como estabeleceu uma hierarquia com presbíteros e diáconos. Administravam o Batismo, a Eucaristia e um sacramento especial para a hora da morte.

A moral maniqueia consistia em selar a mão para não derramar sangue, em selar a boca para não mentir nem comer coisas impuras, e em selar o seio para não gerar a matéria, corrupta obra da carne. Só os "puros" seriam capazes disso; os homens comuns, em contrapartida, se beneficiavam de extrema tolerância moral.

E o maniqueísmo sobrevive…

Em toda parte o maniqueísmo foi perseguido: em Roma, a partir de Diocleciano; a Índia e a China livraram-se dele; na Mongólia, desde a conquista islâmica no século IX.

Apesar da oposição de Santo Agostinho e de São Leão Magno, o maniqueísmo permaneceu inoculado entre os cristãos, vindo a ressurgir como paulicianismo na Armênia (século VII) e catarismo na França (século XIII).

A alma moderna apresenta traços pronunciados da velha doença, pois cede com facilidade à tentação dualista.

Influxo do maniqueísmo na visão popular da Bíblia

Retornando à Bíblia, é evidente que o maniqueísmo aceitou integralmente a interpretação que dela fazia a heresia marcionita.

Entretanto, acho difícil nos dias de hoje alguém conscientemente se dizer discípulo das ideias do gnóstico Marcião, rechaçando em bloco o Antigo Testamento e todos os escritos não-paulinos.

A maior parte das atuais distorções na leitura do texto sagrado parecem proceder mais do dualismo maniqueu do que do marcionismo. Veremos com detalhe na próxima postagem.
Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...