21 de jan de 2012

Primeira carta ecumênica

Faz dois anos, troquei correspondência acerca de temas cristãos. Vêm bem a calhar nesta semana de oração pela unidade dos cristãos. Com a devida autorização da outra parte, irei pouco a pouco deixando aqui as missivas, com pequenas adaptações.

Rio de Janeiro, 22 de março de 2010

Estimada,

Desculpe meu abuso em lhe escrever. Não costumo conversar anonimamente, mas penso que nem tudo se deve conversar em público. Por isso, gostaria de falar — no silêncio desta carta — acerca dos “preceitos fundamentais para os católicos”, dos quais você disse que discorda.

Uma coisa são os preceitos, ou seja, as leis pelas quais a Igreja se rege, e outra coisa são as doutrinas, isto é, seus ensinamentos tradicionais. Fiquei me perguntando se você discordava das leis de jejum e abstinência, ou da obrigação de ir à Missa aos domingos, ou da regulação canônica do Matrimônio, por exemplo. Suspeitei que você não discordasse propriamente dos preceitos, mas sim dos ensinamentos.

Por outro lado, fiquei contente com seu desejo de fraternidade entre os cristãos separados e com sua simpatia pelo Papa. Mas já que você me pediu para corrigi-la no que fosse necessário, tomo agora a liberdade de lhe dar uns toques e fazer algumas sugestões.

Bíblia e Tradição

O Cristianismo não é uma religião do livro. É a religião da Palavra. Mas não de uma Palavra qualquer. É uma Palavra que se fez homem. É a religião de uma Pessoa, Jesus Cristo.

Mas essa Palavra Eterna manifesta-se também de outros muitos modos: na Bíblia é Palavra escrita, no Magistério da Igreja é Palavra ensinada, na Tradição é Palavra transmitida.

A Palavra está acima da Bíblia, pois a Bíblia não a esgota. Também está acima da Tradição e do Magistério. A Palavra só se manifesta plenamente em Jesus Cristo.

A Bíblia é uma forma da Tradição, pois a Bíblia também nos foi transmitida.

Mesmo os protestantes precisam aceitar alguma tradição: afinal, a lista de livros inspirados a recebemos por tradição. Lutero substituiu a Tradição da Igreja pela tradição judaica tardia com relação ao Antigo Testamento.

Os Santos

A única mediação de Cristo é tão poderosa que nos torna capazes de ser mediadores nele. É como uma mãe, boa cozinheira, que pede à filha pequena ajuda para fazer o bolo. A garota contribui, mas quem faz o bolo é a mãe. Nós somos os beneficiários, mas chamados a ser colaboradores.

Como você sabe, São Paulo fala do Corpo Místico de Cristo. Isso é o que chamamos de “Comunhão dos Santos”. Penso que neste dogma se encerra quase toda a questão da Reforma. Preferimos entender essa Comunhão como uma verdadeira compenetração entre os cristãos, que não se rompe nem com a morte. Sugiro ler os pontos finais de http://www.vatican.va/holy_father/benedict_xvi/encyclicals/documents/hf_ben-xvi_enc_20071130_spe-salvi_po.html, especialmente o ponto 48.

Transubstanciação

Muitos abandonaram o Senhor quando ele prometeu a Eucaristia (Jo 6,25-71). Mas ele não fez questão de avisar às pessoas: “Gente, vocês não me entenderam, é só um símbolo!”

Sugiro dar uma lida nas cartas de Santo Inácio de Antioquia (†107) aos Filadelfos (http://cocp.50webs.com/fixas/epistfilad.htm) e aos Esmirniotas (http://cocp.50webs.com/fixas/epistesmirn.htm).

Autoridade da Igreja

Até Lutero, as pessoas pensavam assim: “O que diz a Igreja?”, e a Bíblia servia para corroborar.

Depois dele, as pessoas pensam assim: “A Igreja diz tal coisa? Então vamos ver na Bíblia se a Igreja não está errada”.

Esse princípio metodológico é destrutivo para a comunhão, põe em dúvida a fé e descredita a Igreja, “que é a coluna e o fundamento da verdade” (1Tm 3,15).

É estranho que o Povo de Deus tenha sido o autor inspirado da Bíblia, mas a sua interpretação possa recair sob indivíduos isolados: “nenhuma profecia da Escritura é objeto de explicação pessoal” (2Pd 1,20). Sem dúvida que há iluminações pessoais, mas só ganham legitimidade na comunhão com a fé comum.

Fé e obras

Sobre isso basta dizer que luteranos, metodistas e católicos já assinaram uma declaração conjunta: http://www.vatican.va/roman_curia/pontifical_councils/chrstuni/documents/rc_pc_chrstuni_doc_31101999_cath-luth-joint-declaration_po.html, http://www.vatican.va/roman_curia/pontifical_councils/chrstuni/documents/rc_pc_chrstuni_doc_31101999_cath-luth-official-statement_po.html e http://www.vatican.va/roman_curia/pontifical_councils/chrstuni/documents/rc_pc_chrstuni_doc_31101999_cath-luth-annex_po.html.

***

Por fim: você não é herege não! Gosto da definição de heresia de Roberto Grosseteste (1173-1253), bispo de Londres: “Heresia é uma opinião escolhida pela percepção humana, criada pela razão humana, fundamentada nas Escrituras, contrária aos ensinamentos da Igreja, publicamente confessada e obstinadamente defendida”.

De qualquer modo, acho que você gosta disso. Já deve até ter lido os textos dos Padres da Igreja primitiva. Há abundante material em
http://cocp.50webs.com/.

O que importa sempre é rezar muito, ser e ter muitos amigos e estudar muito!

Um beijo e tudo de bom!
Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...