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12 de out. de 2013

Rosa Aparecida

Só tu és a rosa, 
que com várias cores 
floresces, rainha 
no reino das flores. 

Pois só tu, Maria, 
és multiplicada 
nos mil e um nomes 
por nós invocada. 

Dos nossos momentos 
assumes as cores: 
Senhora da Glória 
Senhora das Dores. 

Em Lourdes, Salete, 
na Cova da Iria, 
vieste às crianças, 
ó Virgem Maria! 

Que os homens ouvissem 
teu filho, pediste, 
e ao cabo de um tempo 
de novo partiste. 

A nós, brasileiros, 
vieste em imagem 
ficando conosco 
não só de passagem. 

Das águas de um rio 
quiseste brotar, 
e lá pobres homens 
te foram pescar. 

Só peixes buscavam 
e, nada apanhando, 
de novo lançaram 
as redes, rezando. 

E eis que entre as malhas 
pesada aparece 
estátua de barro, 
que o tempo enegrece! 

“Que linda (eles clamam): 
só falta a cabeça! 
Lancemos as redes, 
talvez apareça…”

Milagre, milagre!, 
pois surge em seguida, 
e juntam-na ao corpo 
da Aparecida. 

Capela farão 
naquele lugar 
no qual a Senhora 
nos quis visitar. 

Com um manto a vestiram 
de ouro e de azul, 
que abriga os romeiros 
do Norte e do Sul. 

O cântico cumpre-se: 
“Sou negra e formosa!” 
Em cores escuras, 
de novo eis a rosa… 

Dom Marcos Barbosa, Poemas para crianças e alguns adultos.

2 de out. de 2013

Quem foram os profetas

Profetas não escritores

Depois de Moisés, Aarão e Maria, o Pentateuco refere-se a Balaão, o qual, embora adivinho estrangeiro contratado para amaldiçoar Israel, profetizou quatro oráculos a seu favor. Uma inscrição em Tell Deir Alla, na Transjordânia (1986), dá pé a supor que existia um “livro de Balaão, filho de Beor, o homem vidente dos deuses”; além disso, consta ter havido um famoso rei vidente arameu muito antigo.

Posteriormente, Samuel surge à frente de um dos grupos — aparecidos no seu tempo — dos fervorosos “filhos dos profetas” (1Sm 19,20). Eram comunidades religiosas que viviam de esmola (2Rs 1,8; 4,42; 5,22) e se vestiam com mantos de pelo e cíngulo de couro. Arrebatados pelo Espírito Santo, entravam em transe extático, provocado frequentemente pela música (2Rs 3,15) e bebidas fermentadas. Expressavam‑se mais pelas danças e cantos do que pela palavra, lançando gritos e invocações, e às vezes se faziam incisões (1Rs 18,28), tiravam as vestes e acabavam amiúde em estado de prostração (1Sm 19,24), pelo que chegavam a ser tachados de loucos (cf. 2Rs 9,11; Jr 29,26; Os 9,7).

Natã é o mais famoso profeta áulico, cortesão de Davi. Esse tipo de profeta foi comum no reino do Norte, e teve grande influência nos assuntos políticos e sociais.

Elias e Eliseu foram profetas carismáticos, desvinculados tanto da corte quanto do Templo. Elias é considerado o “pai dos profetas”, pois foi o mais valente defensor do javismo, quando o sincretismo dos omríadas devastava a fé de Israel. Eliseu o sucede após a assunção do seu mestre, destacando-se sua taumaturgia e sua intervenção nos assuntos públicos.

Profetas escritores

Do século VIII aC em diante, os principais profetas deixaram escritos recebidos no cânon bíblico. É razoável admitir que os oráculos de cada profeta tenham sido compilados ou completados por discípulos que escreveram integralmente (cf. Is 8,16). Contudo, parece muito mais enriquecedor aprofundar no alcance teológico refletido na ordem dos livros dentro do cânon e na ordem das diversas seções dentro de cada livro do que se imbricar na questão das ipsissima verba dos profetas.

Os hagiógrafos têm mais interesse em transmitir as palavras proféticas que em expor a biografia de quem as pronunciou. Por isso, há duas formas de intitular os livros proféticos. A mais antiga, quando os profetas ainda não tinham a auréola de mestres, diz: “Palavra do Senhor dirigida a…” (Os 1,1; Sf, 1,1; Jl, 1,1; Jr 1,1 LXX). A mais recente simplesmente aduz o magistério autêntico dos profetas reconhecidos (cf. Am 1,1; Jr 1,1 TM).

25 de jun. de 2013

O tio de São João Batista

A notícia de que São José entrou nas Orações Eucarísticas II, III e IV foi um motivo de grande alegria. E acabou confirmando a tendência dos últimos séculos de colocar o Santo Carpinteiro acima de todos os outros Santos.

A dúvida sempre ficou por conta de seu sobrinho, sobre o qual Cristo afirmou: “entre os nascidos de mulher, não houve maior que João Batista” (Mt 11,11a).

A iconografia, à direita e a esquerda de Jesus, traz às vezes Maria e João. E José, onde ficaria? Penso que  os iconógrafos comeram mosca. Afinal, Maria é a Rainha Mãe e, como tal, deve estar junto de Cristo.

A Rainha Mãe era a mulher mais importante na corte real judaica e exercia a função de conselheira. Os reis tinham muitas mulheres, mas uma só mãe, à qual deviam ouvir e venerar, pois dividia o trono com ela (1Rs 2,13-21; 2Rs 24,12; 2Cr 22,3).

Assim, à direita de Jesus e Maria ficaria José e, à esquerda, João Batista, pois “o menor no Reino dos Céus é maior do que ele” (Mt 11,11b). Ou seja: José e João seriam os máximos representantes de cada um dos Testamentos.

Alguém poderia questionar se José — do mesmo modo que João — não deveria ser classificado como personagem veteritestamentário. Contudo, João Paulo II ensinou que “no limiar do Novo Testamento, como já sucedera no princípio do Antigo, há um casal” (Redemptoris custos, nº 7), pois “José é o primeiro depositário do mistério divino, juntamente com Maria. Simultaneamente com Maria — e também em relação com Maria — ele participa nesta fase culminante da auto-revelação de Deus em Cristo; e nela participa desde o primeiro momento. Tendo diante dos olhos os textos de ambos os Evangelistas, São Mateus e São Lucas, pode também dizer-se que José foi o primeiro a participar na mesma fé da Mãe de Deus” (ib., nº 5).

***

Que nada disso diminua o culto a São João Batista! Por sinal, boa Festa Junina a todos!

1 de mai. de 2013

São José Empresário

Neste dia de São José Operário (e por que não “Empresário”? afinal, ele era o dono da oficina!), vale a pena relembrar alguns aspectos da teologia do trabalho.

São Josemaria, que fez do trabalho o eixo da sua proposta de santidade no meio do mundo, ensinava que o trabalho é, para nós, meio específico de santidade. O que quero dizer‑vos é que temos de converter o trabalho em oração e ter alma contemplativa (Carta 15‑X‑1948, n. 22).

Ora, se o trabalho é oração, convém captar e viver seu caráter dialógico, em que Deus nos fala e nós, por nossa vez, falamos a ele.

No trabalho, Deus nos interpela e nós lhe respondemos. Deus nos fala através do trabalho porque o Senhor está, por imensidade, em todas as criaturas, à nossa espera, ao nosso alcance, ao nosso dispor.

O trabalho é uma palavra dirigida a nós pelo Pai

“Filho, vai trabalhar na minha vinha” (cf. Mt 21,28‑31). Ao trabalho vai o filho, não o mercenário; portanto, ao trabalhar, exercitamos nossa filiação divina, assemelhamo‑nos ao Filho de Deus. 

Como é nossa resposta ao chamado de Deus? Há três opções:
  • Rebelde, grosseira e primária — “não quero!”
  • Preguiçosa, falsa e desatenta — “sim, pai! Mas não foi”
  • Generosa, pronta e sacrificada como a de Cristo — “eis que venho para fazer a tua vontade” (Hb 10,9)

Itinerário da intimidade com Deus

Deveis manter — ao longo do vosso dia — um diálogo constante com o Senhor, que se alimente das próprias incidências do vosso trabalho profissional. Ide com o pensamento ao Sacrário e oferecei ao Senhor o trabalho que tenhais entre mãos; recorrei à nossa Mãe do Céu e ao nosso Pai e Senhor São José, para que vos ajudem a superar as pequenas contrariedades que possam apresentar‑se; recomendai os vossos companheiros e colegas aos seus Anjos da Guarda; reavivai a intenção apostólica, aproveitando as pausas no trabalho; pedi luz ao Espírito Santo, para resolver de maneira adequada os problemas que tenhais pela frente (São Josemaria, Carta 15‑X‑1948, n. 22).

27 de dez. de 2011

Arcanos revelados

Hoje é dia de São João Evangelista. Seu curriculum vitæ é de dar inveja a qualquer um:
  • discípulo de São João Batista
  • primeiro discípulo de Cristo
  • um dos Doze Apóstolos, sendo dos Três mais íntimos
  • discípulo predileto de Cristo, recostou sua cabeça no peito do Senhor
  • testemunha da Transfiguração
  • testemunha da paixão e morte de Cristo, mereceu ser contado no número dos mártires
  • recebeu Maria como Mãe e a levou para sua casa 
  • testemunha da Ressurreição, creu só de ver as faixas no sepulcro
  • testemunha da Ascensão
  • escreveu o Evangelho do Verbo revelado em seus sinais
  • escreveu na sua Primeira Carta a máxima definição da divindade: Deus é Amor.
  • confessor da fé, quando já nonagenário foi lançado por Domiciano a uma caldeira de azeite fervente junto à Porta Latina e saiu incólume
  • exilado na ilha de Patmos, caiu em êxtase, consignando suas visões no Apocalipse com as quais cerrou-se a Revelação pública
Como ele nos relatou magistralmente os mistérios do Verbo, e especialmente a Eucaristia, foi chamado com justiça o Teólogo.

Penso que sua festa no terceiro dia da Oitava do Natal vem muito a calhar, pois as faixas depostas no sepulcro vazio — que o conduziram à fé — evocam as faixas com que o Menino fora revestido após deixar o útero de Maria.

Para uns, essas faixas são vendas; para outros, luz. O Natal é um arcano, isto é, um mistério. E como tal, nem todos conseguem discernir seu conteúdo.

Não é o caso de discorrer mais uma vez sobre o lugar comum de que o consumismo e o Papai Noel desviaram a atenção do verdadeiro significado do Natal. Ou para criticar a duplicidade daqueles que, logo depois de chorar diante de um presépio, fazem propaganda de boutique de prazeres e técnicas eróticas. Que isso ocorra é evidente, e sempre foi assim.

Que, pelo menos, as faixas do Menino nos convidem à reflexão e à oração, a fim de que aquilo que sabemos a seu respeito — que é o Verbo de Deus feito carne — efetivamente se torne um dado transformador de nossas vidas.

Feliz Natal!

19 de dez. de 2010

Matrimônio virginal

Em vez de apresentar a prometida hipótese desenvolvida por D. Bernard Orchard OSB, achei melhor publicá-la na íntegra aqui.

Não obstante, gostaria de finalizar a exposição que venho fazendo sobre a virgindade de Maria, tecendo mais algumas considerações que me parecem pertinentes.

Dificuldades textuais

Os Evangelhos são ambíguos ao tratar dessa temática, ou pelo menos dão margem a dúvidas. Por exemplo, por ocasião da Anunciação Maria e José ora parecem noivos (Lc 1,27), ora casados (Mt 1,19s).

Outra fonte de questionamento são os citados “irmãos de Jesus”, como Tiago e José (Mt 13,55). Este problema é mais simples, pois além de a expressão ser um hebraísmo, a própria Bíblia atesta que esses parentes são filhos de “outra Maria” (Mt 28,1), discípula de Cristo.

Dentre todas essas passagens dificultosas, a que talvez tenha dado margem às especulações mais significativas foi a da pergunta de Maria ao Anjo Gabriel  (Lc 1,34):

— “Como se fará isto [a concepção de Cristo], se não conheço homem?”

Com base nessa frase, desenvolveu-se a interpretação tradicional segundo a qual Maria teria feito um voto de virgindade anterior à Anunciação.

Existem, contudo, outros entendimentos. Com efeito, parece que não havia no Israel da época um contexto sócio-cultural para que se fizessem votos de tal espécie:

a) Desde Caetano (†1534), alguns autores entendem o “não conheço homem” no sentido de “não conheço homem agora neste momento em que estarei concebendo”.

b) Outros intérpretes justificam a pergunta de Maria como mero recurso literário de Lucas para introduzir a explicação dada pelo Anjo.

O parto virginal na Tradição

A virgindade de Maria manifesta a gratuidade da Redenção e a filiação divina de Jesus. Sua virgindade é um sinal de aceitação dos planos divinos e de que os tempos chegaram à sua plenitude.

Por outro lado, o senso da fé explicita que, em atenção a tal disponibilidade de Maria, Deus correspondeu com um parto milagroso que lhe conservou a virgindade, pelo que Maria gerou sem dor quem concebera sem prazer.

Com efeito:

a) Se o Filho de Deus não corrompe o Pai ao ser gerado eternamente, também não corrompeu a Mãe ao ser gerado no tempo.

b) Se o Filho de Deus veio curar, não poderia ferir a Mãe.

c) Se o Filho de Deus manda honrar os pais, também santificou a Mãe.

Razões para um matrimônio virginal

“A compreensão que Cristo tem de si mesmo exige que viva célibe no mundo: os filhos no Antigo Testamento são uma bênção, porque significam a vida, o fruto e o caminho até a promessa. Mas Cristo é já ele mesmo a promessa, a vida e o futuro. Ele é o ponto final porque é a abertura àquela vida que está mais além da biologia e da morte. Por isso, ele mesmo define a existência escatológica como uma existência virginal. Agora tem a virgindade um sentido (que antes de Cristo não tinha): a realização direta da fé na vida eterna já presente” (Joseph Ratzinger, Zur Theologie der Ehe, Tübinger Theologische Quartalschrift, 149 [1969] 53-74 [PDF]).

Por isso, a Virgem Maria também foi virgem depois do parto, e viveu um matrimônio virginal com José:

a) Se Jesus é o Unigênito do Pai, devia ser também o Unigênito da Mãe.

b) Outros filhos nascidos de Maria ofenderiam o Espírito Santo que a fecundara.

c) Consumar o matrimônio depois da geração de Jesus teria sido indigno da santidade vivida por Maria e José.

A santidade típica dos “nazarenos”

Estudos recentes acerca das origens do Cristianismo apontam para a possibilidade de ter existido um movimento religioso na região da Galileia, de inspiração batismal, movido pela iminência do Reino de Deus e ligado à instituição do nazireato, antigo costume de Israel pelo qual as pessoas se consagravam a Deus (cf. Nm 6,1-21).

A cidade de Nazaré, nunca antes citada na Bíblia, pôde ter sido o berço ou o centro de difusão dessa tendência que serviu de matriz para o Cristianismo. De fato, o epíteto “nazareno” parece referir-se mais ao estilo de vida do que ao toponímico (cf. At 24,5).

Da mesma época são os famosos essênios (Flávio Josefo, Vida, II, 10-12), assim como os mandeusebionitas e alexaítas. Entretanto, as alusões aos antigos grupos “paracristãos” são tão abundantes quanto vagas. Perderam-se no vórtice da história, embora de quando em quando surjam seitas que pretendem recuperar a suposta pureza primitiva (batistas, judeus messiânicos, etc.).

Virgindade que ilumina o matrimônio

A eminência do Reino de Deus comporta uma urgência que tudo relativiza, inclusive o matrimônio. Mesmo assim, o matrimônio encontra seu sentido mais profundo no Cristianismo, pois se o celibato antecipa o futuro escatológico, o matrimônio cristão torna realidade o ideal passado no paraíso.

Sem dúvida, viver um matrimônio cristão — monogâmico e indissolúvel — hoje pode parecer difícil, mas realiza o casal de forma mais profunda, na medida que faz o homem e a mulher transcenderem o efêmero. O Cristianismo, vivido tanto no matrimônio quanto no celibato, transporta-nos da temporalidade.

Pode-se dizer que indissolubilidade do Matrimônio é o último aspecto do ideal da exclusividade amorosa. A monogamia vem se impondo e tende a ser aceita em todas as culturas. A fidelidade é prezada apesar de tristes experiências e até justamente por elas. A indissolubilidade, porém, parece menos evidente.

Embora a franca maioria das pessoas entenda a exclusividade amorosa como conveniente, muitos receiam projetá‑la ao longo do tempo. A cultura contemporânea imediatista vê dificuldades em compromissos de longo prazo, e enxerga a entrega irreversível como algo obscuro.

É preciso reconhecer a grandeza do ser humano: ainda que preso à vicissitude temporal, o homem não se rege pelo tempo, pois o transcende enquanto pessoa. Assumir um compromisso amoroso ad tempus, circunstanciado, é indigno de si, desleal para o outro, nocivo para a sociedade.

16 de dez. de 2010

Fecunda virgindade

Balaão aponta para a estrela
(afresco mariano do século II,
o mais antigo conservado)
Na postagem anterior, comentei que considero improvável que Maria tenha feito um voto de virgindade prévio à Anunciação do Anjo, conforme comumente se aceita.

Partilho antes a hipótese de que Maria tomou a decisão de permanecer célibe ulteriormente à Anunciação, desenvolvida por D. Bernard Orchard OSB.

Antes de explicá-la, porém, gostaria de fundamentar mais algumas ideias prévias, a fim de não deixar dúvidas acerca da verdade da fé católica, que professo com alegria.

Fontes da doutrina

Já que a virgindade de Maria é patente nos Evangelhos, os apologetas defenderam com firmeza esse privilégio mariano desde a mais remota antiguidade. Eis os principais testemunhos:

a) Inácio de Antioquia (†110):

Ao príncipe deste mundo ficou escondida
a virgindade de Maria,
seu parto,
e igualmente a morte do Senhor.
Três mistérios retumbantes,
que foram realizados no silêncio de Deus
.

(Epístola aos Efésios, XIX, 1)

b) Justino (†160): Apologia, I, 33.

c) Irineu de Lião (†202): Epideixis 54 e Adversus hæreses, III, 19, 3.

d) Odes de Salomão (XIX, 6-10).

Desenvolvimento da doutrina

O registro mais antigo da expressão “sempre Virgem” (αειπαρθένος) procede do símbolo de Santo Epifânio de Salamina (374). Desde 553, quando foi utilizado pelo II Concílio de Constantinopla, o termo tornou-se normativo (DS 422).

Mas a ideia da virgindade perpétua de Maria já era comumente ensinada, englobando três momentos (antes, durante e depois do parto), como se lê em Zenão de Verona (†380):

Cæterum illa fuit virgo post connubium,
virgo post conceptum,
virgo post Filium.

(Sermo I, 5, 3)

Maria virgo incorrupta concepit,
post conceptum virgo peperit,
post partum virgo permansit.
(Sermo II, 8, 2)

Ataques à doutrina

A partir do século XVI, surgiu uma tendência à “desmitificação”, oriunda do rompimento protestante com a Tradição e, posteriormente, do diapasão racionalista. O papa Paulo IV interveio então (1555), reafirmando a fé tradicional através da Bula Cum quorumdam (DS 1880).

O problema, contudo, persistiu na cultura moderna, especialmente resistente a essa verdade, embora a virgindade de Maria tenha sido alvo de ataques ao longo de toda a história.

Deficiência de abordagem

Ora, a Revelação divina, da qual a Igreja se considera depositária, recebe dupla custódia:

a) custódia dogmática, realizada pelos bispos, para transmitir a doutrina aos fiéis com autoridade;

b) custódia da literalidade do conteúdo revelado, realizada pelos estudiosos, para evitar a ruptura entre o discurso e a vida.

O problema é que o protestantismo, ao negar a custódia dogmática, transferiu toda a responsabilidade para o “estudioso da Bíblia”, tornando praticamente impossível a determinação do que foi revelado de fato.

Com efeito, a Bíblia não é um manual de teologia, e pode prestar-se às mais variadas e mirabolantes interpretações que passem pela cabeça do último teórico de plantão.

12 de dez. de 2010

Bendita gravidez



Agradeceria que, primeiro, você assistisse ao vídeo abaixo. É claro que Maria não contaria a José acerca de sua gravidez por e-mail. De qualquer forma, isso está condizente no contexto dessa brincadeira.



Saltou-me à vista que fosse apresentada Maria informando a gravidez para José. Particularmente, penso que foi o que de fato ocorreu, embora seja mais comum dizerem o contrário. Diversos autores reconhecidos afirmam que Maria, em sua humildade e discrição, não teria informado seu noivo sobre a embaixada do anjo e que José teria ficado alarmado ao vê-la retornar da casa de Isabel com uma barriga de três meses.

Tais autores costumam dizer que José sabia que Maria tinha feito um voto de virgindade e não duvidou em momento algum da integridade de sua noiva. Contudo, decidiu abandoná-la nessa ocasião, já que teria percebido na gravidez a ação de Deus e não se sentia chamado a implicar-se no caso.

Essa explicação pode ser piedosa e tradicional, mas me soa inverossímil. Não me parecem prováveis nem o silêncio de Maria, nem seu voto, nem os motivos alegados para a perplexidade de José. Prefiro compartilhar o entendimento de D. Bernard Orchard OSB.

Antes de apresentar minha justificativa na próxima postagem, gostaria de tecer uns comentários acerca do celibato. Afinal, a virgindade de Maria e José causam não pouca surpresa para o homem moderno, em especial desde a Reforma.

Paradoxalmente, apesar da tese protestante de que o homem e o mundo estão radicalmente corrompidos, os reformadores sempre foram grandes defensores da mundanidade da existência humana frente ao celibato, o sacerdócio e o monacato, mesmo à custa de pôr entre parênteses o ensinamento de Cristo. Com efeito, como já detectara Max Weber, a moral protestante do esforço e do êxito parece contradizer a tese original de não se poder alcançar a justiça pelas obras.

O enigma do celibato

Todas as inclinações sexuais estão hoje autorizadas. O celibato, porém, é alvo de estranha intolerância pública. Tornou-se supérfluo militar por orientações amorosas, mas o combate ao celibato está na pauta de qualquer estratégia que pretenda defender a liberdade.

A continência perpétua (nego-me a chamá-la “abstinência”, que se refere propriamente à comida) é uma decisão enigmática na era do efêmero. Como proibi-la pareceria repressão, os arautos do eros afirmam que o celibato deveria ser opcional.

Contrassenso! Quer você seja contra, quer você seja a favor, o celibato é sempre opcional. Afinal, ninguém é obrigado a abraçá-lo, ou a fazer-se sacerdote nem a professar votos. Mesmo os que se candidatam a tais vocações podem ser aceitos ou não pela autoridade competente. Por outro lado, já que também ninguém está obrigado a casar-se, tanto faz como tanto fez.

É preciso ter em conta que muitas pessoas vivem em “celibato compulsório”, devido a situações familiares que não escolheram. Não é todo mundo que consegue ter vida sexual ativa. Os celibatários voluntários são minoria frente à massa de abandonados e solitários. Embora não dê na mesma ser castos ou luxuriosos, é muito mais provável que estes durmam sozinhos do que acompanhados.

Vidas com sentido

Independentemente do que pense a respeito das opções nesse campo, fato é que o celibato é um estilo de vida que permite o desenvolvimento de potencialidades insuspeitáveis. Ilustra-o bem a emancipação feminina na Inglaterra do Entre-Guerras, quando quase dois milhões de mulheres ficaram sem pretendentes (veja aqui).

Com mais razão sejam lembrados os missionários, os dedicados à caridade, os empenhados na consecução de grandes ideais humanos e sobrenaturais. Digo sobrenaturais porque tal renúncia obtém seu máximo sentido quando motivada por valores para além da mundana realidade.

É natural que a miopia para os valores transcendentes torne amplos setores sociais incapazes de compreender a radicalidade dessa opção. É paradoxal que as pessoas casem cada vez menos, mas exijam o casamento dos célibes. O sim do celibato ao amor é a suma contradição do não da permissividade ao compromisso.

*****
Lutero devolveu ao sacerdote a relação sexual com a mulher, mas a veneração de que é capaz o povo, e antes de tudo a mulher do povo, repousa em três quartos na crença de que um homem excepcional neste ponto sê-lo-á também noutros pontos. E a fé do povo em algo sobre-humano no homem tem aqui seu advogado mais sutil e capcioso.
(Nietzsche, Gaia Ciência, pág. 252)

Quando a inteligência da fé olha um tema à luz de Maria, coloca-se no centro mais íntimo da verdade cristã. Na realidade, a encarnação do Verbo não pode ser pensada prescindindo da liberdade desta jovem mulher que, com o seu assentimento, coopera de modo decisivo para a entrada do Eterno no tempo.
(Bento XVI, Verbum Domini, n.º 27).

11 de out. de 2009

A Commedia: purgatório e paraíso


O purgatório
Passando por Lúcifer, os poetas seguem por um caminho subterrâneo que os leva até o outro lado da Terra. O purgatório está separado do mundo habitado por um imenso oceano, numa ilha cujo acesso é dificultado por um mar agitado e tempestades que afundam qualquer embarcação que tente se aproximar, como o navio de Ulisses. A topografia póstuma reflete a astronomia ptolemaica: a Terra, no centro do Universo, esférica, reúne num único hemisfério os três continentes então conhecidos e, nas antípodas de Jerusalém, está a ilha da montanha do purgatório. A elevação é tão alta que ultrapassa a esfera do ar e penetra na esfera do fogo, alcançando o céu.
Entre os mundos descritos na Commedia, a concepção do purgatório como uma montanha é, até onde se sabe, uma criação original de Dante. Os outros livros, do Inferno e do Paradiso, falam de reinos comumente associados ao mundo subterrâneo ou à morada dos deuses e escolhidos. Na representação dantesca, o purgatório serve como uma escada para o céu, ligando a superfície terrestre às portas do paraíso. Chegar lá, porém, não é tão fácil quanto chegar no inferno, cujas portas estão sempre abertas.
Uma vez na ilha, é preciso ter fôlego de alpinista para escalar os rochedos que levam à entrada do purgatório. No sopé fica o ante-purgatório, dividido em duas cornijas. Na primeira, esperam os que foram excomungados (canto III); na segunda, aguardam a oportunidade de sofrer as penas purgativas aqueles que tardiamente se arrependeram dos seus pecados, ou por negligência (canto IV), ou por atrasar a penitência para a hora da morte (canto V), ou por outros interesses (canto VI).
Os poetas chegam à Porta do Purgatório (canto IX), que é estreita e fechada com duas chaves. Um anjo armado com uma espada guarda a entrada. Iniciam sua ascensão passando por sete círculos ou terraços, um mais alto que o outro. As almas sofrem períodos de tempo em um ou mais terraços de acordo com os pecados capitais que tenha cometido em vida, apresentados como formas corrompidas do Amor. As penas são terríveis, mas as almas cumprem-nas sem reclamar, na esperança de entrar no paraíso.
Em contraste com o inferno, no purgatório não há seres mitológicos. Em vez dos demônios, encontram anjos protegendo a montanha. A principal atração são personalidades conhecidas de Dante, grandes estadistas, membros do clero e artistas que narram suas histórias, profetizam o futuro e pedem orações para encurtar seu tempo de penitência.
A entrada de cada círculo do purgatório é guardada por um anjo, que purifica a alma que sobe ao próximo nível e profere uma benção tirada do sermão da montanha. Em cada círculo ocorrem representações do pecado e de sua virtude oposta de diversas maneiras diferentes, que Dante contempla intrigado. Hinos, salmos e orações são cantados pelas almas em cada cornija.
Nas três cornijas do baixo‑purgatório é purificado o amor pervertido: pelo orgulho (canto X), pela inveja (canto XIII) e pela ira e o rancor (canto XVI).
A passagem do tempo durante a viagem é rigorosamente medida a partir da posição do Sol, da Lua e das estrelas. Dante adentrara a floresta escura na Quinta‑feira Santa, chegando à ilha quando os primeiros raios de Sol iluminavam o domingo de Páscoa, terminando essa etapa de sua viagem três dias depois.
A leitura do Purgatorio é uma metáfora da obra. No médio‑purgatório purifica‑se o amor falho, isto é, o pecado da preguiça (canto XVIII). Aqui, no exato ponto central da obra — numa característica união medieval de forma e substância — Virgílio aparece fazendo uma importante digressão em que explica o fulcro do universo como um todo e em cada uma de suas partes: o amor.
91 Relembra que o Criador como a criatura
não se compreendem sem o dom do amor,
ou natural, ou de vontade pura.

94 O natural é infenso a erro ou torpor,
mas o outro se defrauda em seu efeito,
ou por excesso, ou falta de vigor.

97 Dês que ao primeiro bem tenda direito,
e se volva ao segundo moderado,
causa não pode ser de algum defeito.

100 Mas quando ao mal procede, incontrolado,
ou menos do que deve o zelo acende,
contra o Criador opera o ser criado.

103 E, pois, um tal amor, ao que se entende,
é que nos leva a toda perfeição,
como também à ação que a Deus ofende.

Ainda que Dante lance mão da mais moderna ciência de seu tempo, não confunde os acidentes materiais com as escolhas morais e sabe que todos os amores são ordenados ao Amor Subsistente, “que move o sol, como as estrelas” (Paradiso, XXXIII, 145); o Amor encaixa‑se perfeitamente num mundo físico hierarquizado.
Ao ler o Purgatorio, somos impelidos a subir a montanha porque a recompensa (o paraíso e Beatriz) encontra-se no seu cume. Não há grandes momentos dramáticos isolados na obra, como ocorre no Inferno, mas o movimento da história é impulsionado pela necessidade de se chegar ao topo da montanha. O autor não oferece uma recompensa imediata para cada encontro, mas pede que tenhamos paciência e que esperemos para ver o que ele nos oferecerá no final. à medida em que subimos, o personagem de Dante cresce, e supera o seu mestre Virgílio. Os acontecimentos dos cinco cantos finais, de fato, surpreendem, e superam qualquer “grande” momento encontrado no Inferno.
No alto‑purgatório é purificado o amor excessivo: da avareza e do esbanjamento (canto XIX), da gula (canto XXII) e da luxúria (canto XXV). Dentre os avarentos, o poeta Estácio junta‑se aos peregrinos em sua ascensão (canto XXI), explicando sua conversão ao Cristianismo e discorrendo sobre a infusão da alma no corpo. No terraço dos lascivos, apresentam‑se‑lhes os poetas Guido Guinizelli e Arnaut Daniel (canto XXVI). Este último lhe fala em provençal:

139 E sua voz se fez, então, ouvir:
“Tan m’abellis vostre cortes deman
qu’ieu no me puesc ni voill a vos cobrire.

142 Ieu sui Arnault, que plor e vau cantan:
consiros vei la passada folor
e vei jausen lo jorn qu’esper, denan.

145 Ara us prec, per aquella valor
que vos condus al som de l’escalina
sovenha vos a temps de ma dolor!


“Tanto me penhoraste, me saudando,
que não posso, nem quero, me encobrir.

Sou Arnaldo, que choro e vou cantando:
Medito no passado e torpe ardor,
a salvação futura prelibando.

E ora te exorto, pelo grão valor
que te conduz ao cimo da escalada,
que te recordes lá de minha dor!”


No último patamar, Dante se despede de Virgílio e segue acompanhado por um anjo que o leva através de um muro fogo que separa o purgatório do paraíso terrestre ou Jardim do Éden, no topo da montanha (canto XXVII).
Finalmente, às margens do Letes, Dante reencontra Beatriz. O canto XXX do Purgatorio só se entende à luz de Vita nuova, mas percebe‑se o recrudescimento de sua velha paixão na nova emoção de ter de renunciar a Beatriz no além‑túmulo. São os cantos de maior intensidade pessoal. Beatriz é essencial ao conjunto, mas é só aqui que ela aparece também mais claramente. Depois de purificar‑se nas águas do rio Letes, Dante prossegue sua viagem, rumo às estrelas.
Purgatorio, XXXII
1 Eu tinha tanto o olhar nela embebido,
saciando, absorto, a decenária sede,
que me alheei de todo outro sentido.

4 — como se a cada lado uma parede
houvesse ali: de seu sorriso o encanto
outra vez me prendia à antiga rede!

O paraíso
Purgatorio é mais difícil por ser transicional; o Paradiso é mais difícil enquanto conjunto. Aquele pode parecer seco; este, incompreensível ou excitante. Com exceção de Cacciaguida — perdoável exibição de orgulho pessoal —, não há outros episódios no Paradiso. É preciso ajustar a visão para acompanhar a engenhosa variação de caracteres — com as melhores credenciais — que são inusitadamente trabalhados como material poético. E pensamos que nossas canções mais doces são as que falam de tristes pensamentos…
A dificuldade do Paradiso procede de Dante, não do leitor, pois ele procura educar o sentimento deste através de raciocínios que façam alcançar os estados sentimentais. Por exemplo, a longa oração de Beatriz acerca da vontade (canto IV). Deve‑se procurar sentir o que está dito, em vez de considerá‑lo palavrório decorativo.
Do mesmo modo, antes de considerar as imagens, pequenas e grandes (a águia no canto XVIII), como recursos retóricos antiquados, é preciso entender sua estrita utilidade para tornar visível o que é espiritual. Compreender essas imagens prepara para o último canto. “Em parte alguma, na poesia, experiência tão incomum foi expressa de modo tão concreto, pelo emprego magistral daquelas imagens de luz, que vêm a ser a forma de alguns tipos de experiência mística”.
A viagem inicia‑se no paraíso terrestre, quando Beatriz olha fixamente para o sol e Dante a acompanha até que ambos começam a elevar-se. Passam pelos vários céus e encontram personagens como São Tomás de Aquino e o imperador Justiniano. O paraíso de Dante divide‑se em duas partes: uma material e outra espiritual, ou empíreo. A parte material segue o modelo cosmológico de Ptolomeu e consiste de nove círculos ou esferas formados pelos sete planetas (Lua, Mercúrio, Vênus, Sol, Marte, Júpiter e Saturno), pelo céu de estrelas fixas e pelo Primum Mobile (que transmite o influxo de seu movimento a todas as esferas inferiores). Cada uma dessas esferas é regida por um dos nove coros angélicos.
O céu da Lua compete aos justificados que quebraram seus votos; o de Mercúrio, aos que faltaram retidão em vida, o de Vênus, aos que foram lascivos; o do Sol, aos teólogos. No céu de Marte (canto XVII), próprio dos mártires, Dante encontra seu trisavô Cacciaguida, morto numa cruzada, o qual lhe explica as profecias ouvidas no inferno e no purgatório quanto ao seu exílio e atribulações que deste lhe adviriam. Por fim, na esfera de Júpiter encontra os reis e na de Saturno as almas contemplativas.
Chegando ao céu de estrelas fixas, Dante é interrogado pelos santos sobre suas posições filosóficas e religiosas. Depois do interrogatório, recebe permissão para prosseguir. No Primum Mobile, Dante passa a compreender o mundo espiritual, onde encontra os nove coros angélicos, concêntricos, que giram em volta de Deus. Lá, ao receber a visão da Rosa Mística composta pela Comunhão de todos os Santos, separa‑se de Beatriz e tem a oportunidade de sentir o amor divino que emana diretamente de Deus, graças à intercessão de São Bernardo e Maria Santíssima.

13 de ago. de 2009

Gênese do amor cortês


A poesia erótica de Guilherme IX, o mulherengo Duque da Aquitânia, contradizia diretamente os ideais místicos de Robert d'Arbrissel (1050-1117), o qual tinha levado muitas mulheres aristocráticas ao convento.

Além desta, a Idade Média também ofereceu ao amor cortês as seguintes fontes:

1) Deturpação da devoção à Virgem Maria nos círculos albigenses, que tendiam à adulação.

2) Platonismo medieval, carregado de sensualidade.

3) Influência moral dos cátaros, embora alguns trovadores os combatessem.

4) Poesia elegíaca latina clássica, especialmente o erotismo de Ovídio.

5) Poesia árabe, embora um tanto diversa.

Responda-me, curto, direto, e no ponto:
Você percebe que muito do que a gente projeta na figura da mulher não corresponde à sua natureza, mas aos condicionantes sociais?
Se você percebe isso, o que tem feito para não cair no engodo?
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