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18 de jan. de 2014

Rio de alegria

Rio de fé

Quando me ofereceram a oportunidade de participar das filmagens de “Rio de Fé, um encontro com Papa Francisco” — o documentário dirigido por Carlos Diegues sobre a Jornada Mundial da Juventude Rio2013 — senti um misto de lisonja, entusiasmo e expectativa. Afinal, não é todo dia que se tem a chance de representar o sentimento de milhões de pessoas.

Por um lado, eu já vinha trabalhando como voluntário nos preparativos do evento e ansiava por ver o Papa Francisco de perto pela primeira vez. A perspectiva de fazer parte do registro era, sem dúvida, cativante.

Por outro lado, havia o interesse por conhecer Carlos Diegues, o renomado cineasta brasileiro que produz, desde 1959, uma obra a cada três anos em média, várias das quais premiadas internacionalmente.

Depois de inúmeros filmes marcados de humor, crítica social, e análise política e econômica, Cacá tinha decidido realizar um documentário sobre a fé. Motivo: ao saber da eleição do Papa Francisco, sentiu-se comovido, pois fizera todos os seus estudos em instituições de ensino jesuítas.

O briefing da filmagem explicava que a Cidade Maravilhosa tem vocação à alegria e à paz, tanto por suas belezas naturais, quanto por seu povo receptivo que, mesmo diante das adversidades, é capaz de “inventar a felicidade”. Assim, não haveria melhor cenário que o Rio de Janeiro para a JMJ, pois as Jornadas são uma ode à alegria. “Com efeito — citava Bento XVI —, a alegria é um elemento central da experiência cristã. Também durante cada Jornada Mundial da Juventude fazemos a experiência de uma alegria intensa, a alegria da comunhão, a alegria de ser cristãos, a alegria da fé. É uma das características destes encontros. E vemos a grande força atrativa que ela tem: num mundo com muita frequência marcado por tristeza e preocupações, é um testemunho importante da beleza e da fiabilidade da fé cristã” (Mensagem para a XXVII Jornada Mundial da Juventude 2012).

Concluía o cineasta: “O principal objetivo de nosso filme é esse grande abraço místico e humano, peregrino e missionário, cristão e universal, que é a JMJ. E que, pela cidade onde ocorrerá, poderia chamar-se Jornada Maravilhosa”.

Cultura do encontro

Penso que não se deva tomar a citação de Bento XVI fortuitamente, pois muito se tem falado do contraste entre Francisco e seu antecessor durante o primeiro ano do novo pontificado. O que se contrastou, porém, não condiz com a realidade. Pude reparar isso ao participar do filme, ao conversar com pessoas das mais variadas linhas, ao ler os jornais, e ao participar à mesa do debate de lançamento do documentário, ocorrido na PUC-Rio (a íntegra do debate pode ser encontrada aqui).


O evento de lançamento reuniu integrantes de diferentes religiões e movimentos e tratou da necessidade de tolerância religiosa na cidade do Rio de Janeiro, pois a convivência pacífica durante a Jornada Mundial não costuma ser habitual do dia a dia de muitas localidades cariocas.


Ao longo da discussão, em que houve uma animada participação do público, duas tensões se notabilizaram.

A primeira foi uma atitude crítica, velada e subjacente, dirigida contra a Igreja Católica e suas instituições, acusadas de serem demasiadamente verticalizadas, invasivas e anquilosadas. Curiosamente, ao mesmo tempo se denunciou a falta de empenho da hierarquia eclesiástica em mobilizar os leigos para participarem da marcha pela liberdade religiosa que ocorre periodicamente em Copacabana. Traduzo noutros termos: “a liberdade para mim, e a obediência para os outros”.

A segunda tensão constatada foi a ingênua convicção de que o novo Papa é um revolucionário pelo simples fato de ser simpático (quesito em que, consequentemente, os Papas anteriores teriam deixado a desejar). Um dos presentes, que representava determinado grupo de homossexuais católicos, fez-me uma indagação justamente sobre esse ponto, pois ele tinha a impressão de que o novo pontificado auspiciava tal transformação da Igreja que permitiria a reabilitação de Leonardo Boff, posto de escanteio pelos papas anteriores.

Uma pequena digressão: sem dúvida, o Papa Francisco aposta na “cultura do encontro”. O documentário em questão demonstra isso e procura evidenciá-lo a partir de diferentes histórias de peregrinos, voluntários, cidadãos comuns, representantes de outras religiões, etc. E como diz o provérbio chinês, que para abrir uma loja o primeiro passo é sorrir, o atual Romano Pontífice oferece o seu em abundância.

Saber rir das revoluções

Mas chegara o momento de eu responder à pergunta do militante homossexual, defensor de Leonardo Boff e feliz com a saída de Bento XVI. O moderador do debate me solicitou brevidade, pois a minha resposta fecharia as discussões daquela noite.

O espaço deste artigo me permite ser mais explícito nas considerações que ora pude tecer.

Primeiramente, as pessoas se lembram de nós não pelo que dissemos, mas pelo que lhes fizemos sentir. O Papa Francisco tem-nos feito sentir aquilo que os Papas anteriores já diziam. Não há um contraponto, não há um contraste. Só nova embalagem.

A questão é: por que as embalagens anteriores foram rechaçadas pela opinião pública?

O próprio Papa Francisco já percebeu que lhe foi atribuída a aura de revolucionário. Por exemplo, em sua recente Exortação Evangelii gaudium, alude ao aborto voluntário dizendo que “não se deve esperar que a Igreja altere a sua posição sobre esta questão. A propósito, quero ser completamente honesto. Este não é um assunto sujeito a supostas reformas ou «modernizações». Não é opção progressista pretender resolver os problemas, eliminando uma vida humana” (n.º 214).

Muito mais revolucionário — e visionário — foi Bento XVI ao renunciar (o que não ocorria há 700 anos). Pensando em “novidades”, não foi uma revolução a restauração do rito anglicano no Ocidente (depois de 500 anos), com a possibilidade de se admitirem sacerdotes casados? Se não bastasse, Joseph Ratzinger, antes de ser Papa, estivera por trás da composição do Catecismo da Igreja Católica (o primeiro catecismo oficial da história) e da Declaração Conjunta da Igreja católica com luteranos e metodistas sobre o tema da justificação (que fora justamente a causa da reforma protestante). A lista poderia se estender indefinidamente, mas não é o caso.

Basta frisar que essas conquistas significaram mudanças reais na vida da Igreja das últimas décadas, e são muito mais profundas do que efêmeras emoções midiáticas. Do mesmo modo, seria possível enumerar outras tantas realizações de João XXIII (convocação do Concílio), Paulo VI (reforma litúrgica), João Paulo II (por exemplo, o novo Código de Direito), etc., que repercutem até hoje no dia a dia de milhões de cristãos.

Leonardo Boff e a cultura do “reencontro”

Em segundo lugar, em minha resposta durante o debate era necessário aludir a Leonardo Boff.

O documentário de Cacá Diegues levanta controvérsias “salutares” justamente porque o filme foi considerado oficial. Às críticas das alas mais conservadoras, minha sugestão é fazer limonada com o limão alheio.

Por que o afamado Boff aparece no filme? Aparece porque é afamado. Os católicos assumirão essa culpa? Afinal, alguém deve ser o culpado de que a intelligentsia brasileira, quando pensa na Igreja, logo se lembra de um dissidente que vive a expensas de ser um outsider.

Se o documentário é um produto oficial da JMJ, ele tem necessariamente uma chave hermenêutica ortodoxa. Portanto, se o Boff ali aparece, é que está se convertendo e se reaproximando com humildade do seio da Igreja outrora rechaçada por ele. De fato, ele fala coisas sensatas no filme, embora seja discutível o tipo de relação que ele estabelece entre paz social e paz entre as religiões.
Eu rezo sinceramente por essa intenção: que Leonardo Boff se converta. Seria uma alegria que, além de dizer que não é mais um marxista (coisa que ele tem feito ultimamente), resolvesse confessar-se e voltar a ser católico de missa dominical, fiel à doutrina do Catecismo. Essa seria um verdadeiro “efeito Francisco”!

Quem é, afinal, o papa do amor?

Por fim, a terceira parte da minha resposta no debate foi sobre o amor.

O teólogo sueco Anders Nygren (1890-1978) tornou-se eminente professor da Universidade de Lund, e depois bispo luterano dessa cidade. Também foi presidente da Federação Luterana Mundial. Filósofo da religião, exegeta habilidoso, historiador versátil, teólogo genial e pastor sensível, Nygren se valeu da filosofia kantiana em sua teologia. Ativo defensor do ecumenismo e ferrenho opositor do nazismo, fez-se internacionalmente reconhecido por seu livro Agape and Eros. Essa excelente obra, entretanto, não representa o cerne de seu pensamento. No livro, Nygren explica que, segundo Platão, eros é o amor sedento do Belo transcendente, o que eleva o humano para o divino, o único capaz de saciar a ansiedade da alma aprisionada na matéria; mas, porquanto busca o êxtase da união, seria amor egocêntrico, cobiça. Com o correr dos séculos, o significado de eros teria sido abaixado até assumir notas meramente sexuais.

Tal distinção entre eros e agape, com a reserva deste último para o verdadeiro amor cristão, tornou-se lugar comum em nossa cultura. Há quem não consiga compatibilizar o erotismo com o amor oblativo, coisa bem palpável na música Amor e Sexo, de Arnaldo Jabor e Rita Lee.

Bento XVI criticou essa distinção em sua primeira Encíclica, Deus caritas est, na qual ensinou que tanto eros quanto agape são aspectos do mesmo amor divino. Naquela época, sua ousadia lhe valeu o epíteto de “Papa do Amor”. A continuação do seu fecundíssimo magistério não desmereceu o título. Ratzinger foi um grande teórico do amor. O cristianismo é a religião do Logos, da “lógica” de Deus, mas justamente a lógica de Deus é a lógica do amor.

Bento XVI e Francisco escreveram a primeira Encíclica a quatro mãos da história da Igreja. Não à toa, no magnífico texto há uma seção em que o amor é apresentado como uma forma de conhecimento. O amor tem um Logos. Isso é muito importante. Nos debates sobre a afetividade, é preciso resgatar a racionalidade do amor. Deus é amor, mas o amor não é Deus.

Uma torrente de alegria

Gostaria de concluir fazendo referência a um convite Papa Francisco, para que, a partir dessa experiência de um “Rio de Fé” que foi a JMJ, entremos num “Rio de Alegria”:

Porque não havemos de entrar, também nós, nesta torrente de alegria? (…) Há cristãos que parecem ter escolhido viver uma Quaresma sem Páscoa. Reconheço, porém, que a alegria não se vive da mesma maneira em todas as etapas e circunstâncias da vida, por vezes muito duras. Adapta-se e transforma-se, mas sempre permanece pelo menos como um feixe de luz que nasce da certeza pessoal de, não obstante o contrário, sermos infinitamente amados. (…) A tentação apresenta-se, frequentemente, sob forma de desculpas e queixas, como se tivesse de haver inúmeras condições para ser possível a alegria. Posso dizer que as alegrias mais belas e espontâneas, que vi ao longo da minha vida, são as alegrias de pessoas muito pobres que têm pouco a que se agarrar. Recordo também a alegria genuína daqueles que, mesmo no meio de grandes compromissos profissionais, souberam conservar um coração crente, generoso e simples. (…) Não me cansarei de repetir estas palavras de Bento XVI que nos levam ao centro do Evangelho: «Ao início do ser cristão, não há uma decisão ética ou uma grande ideia, mas o encontro com um acontecimento, com uma Pessoa que dá à vida um novo horizonte e, desta forma, o rumo decisivo».
(Evangelii gaudium, nn. 5-7)

23 de nov. de 2013

Retrofit do casamento


Pouco antes de iniciar o Ano da Fé, que termina amanhã, Bento XVI afirmou: “Há uma clara correspondência entre a crise da fé e a crise do matrimônio. E, como a Igreja afirma e testemunha há muito tempo, o matrimônio é chamado a ser não apenas objeto, mas o sujeito da nova evangelização.” (Homilia, 7/10/2012)

Os próximos dois anos prometem colocar a família e o matrimônio no foco da atenção da Igreja e do mundo. Com efeito, a ONU comemorará os 20º aniversário do Ano Internacional da Família e a Santa Sé patrocinará dois Sínodos sobre o tema. Além disso, em 2015 ocorrerá na Filadélfia o VIII Encontro Mundial das Famílias.

Em vista da ocasião, preparei três apresentações com o objetivo de incentivar uma atitude positiva e pró-ativa com relação ao tema.

A primeira consiste em explicar os objetivos da ONU para a família, os quais, graças aos esforços da International Federation for Family Development, são excelentes. As metas propostas comprovam que a família pode ser um meeting point para as pessoas das mais variadas tendências ideológicas.


A segunda apresentação visa à comunicação estratégica dos argumentos pró-família, vislumbrando as oportunidades de persuasão oferecidas pela ciência cognitiva e pela teoria narrativa, a fim de contornar o revisionismo matrimonial.


Por fim, a outra apresentação sugere iniciativas variadas no campo da família, abrindo para um brainstorming.


Recomendo que você visite e assine o feed de http://thefamilywatch.org/. E também agradeceria receber suas sugestões!

15 de jul. de 2013

A obra-prima de Ratzinger

Fica evidente, especialmente para quem conhece a obra de Joseph Ratzinger, que a recém-publicada encíclica Lumen fidei, assinada pelo Papa Francisco, mais do que escrita a quatro mãos, é fruto quase exclusivo do pensamento maduro do Papa Emérito.

Talvez seja ousado ou prematuro afirmá-lo, mas a Carta Lumen fidei é, para mim, o testamento de um dos mais luminosos Papas da história bimilenar da Igreja. Combinando beleza literária, intuição bíblica, penetração patrística, versatilidade cultural e profundidade teológica, Lumen fidei (LF) é uma obra-prima.

Bento XVI nos legou mais um magnífico presente neste Ano da Fé. Ensina-nos, entre tantas coisas, quatro pontos significativos: que a fé é palavra luminosa, que a fé reside num coração que ama, que a fé se recebe por “contato”, e que a fé constrói as relações humanas.

Luz e palavra

A fé trabalha entre duas coordenadas: a escuta e a visão. Por um lado, exige assentimento a uma mensagem — palavra —, por outro, essa mensagem toma posse do homem, fazendo-o enxergar tudo sob nova ótica — luz.

Quando tantas pessoas encaram a fé como abstração teórica ou fanatismo intolerante, a Encíclica convida a entendê-la como crença no amor e, portanto, convite ao diálogo e a uma compreensão mais ampla da realidade.

Conhecimento amoroso

“O próprio amor é um conhecimento, traz consigo uma lógica nova”. Coisa inconcebível “aos olhos do homem moderno”, a quem “o amor surge, hoje, como uma experiência ligada, não à verdade, mas ao mundo inconstante dos sentimentos” (LF 27).

Pelo contrário, a sociedade científica reduz a verdade à mera utilidade técnica. Portanto, “poderá a fé cristã prestar um serviço ao bem comum relativamente à maneira correta de entender a verdade?” (LF 26) Sem dúvida, “a luz do amor, própria da fé, pode iluminar as perguntas do nosso tempo acerca da verdade: (...) o olhar da ciência tira benefício da fé: esta convida o cientista a permanecer aberto à realidade, (...) a fé desperta o sentido crítico, (...) a fé alarga os horizontes da razão” (LF 34).

O primado do amor, a lógica do amor, é algo típico do pensamento de Bento XVI, o que já ficara patente em sua primeira Encíclica, Deus caritas est. Não hesito afirmar que, por esse pensamento, ele merece o título de Doctor amoris.

Contato com a fé

“É impossível crer sozinhos” (LF 29): afirmação tão rotunda quanto surpreendente para tantos homens alienados em sua própria subjetividade.

Contudo, sem a transmissão e a recepção da memória eclesial, sem o contato “físico” com a herança de Cristo nos sacramentos e na oração da Igreja, é vedada ao crente a porta da fé.

Fundamento social

“A fé não afasta do mundo, nem é alheia ao esforço concreto dos nossos contemporâneos. Sem um amor fiável, nada poderia manter verdadeiramente unidos os homens: a unidade entre eles seria concebível apenas enquanto fundada sobre a utilidade, a conjugação de interesses, o medo” (LF 51).

Nesse sentido, a família e a comunidade política necessitam do referencial da fé que as precede e sustenta. “Porventura vamos ser nós a envergonhar-nos de chamar a Deus «o nosso Deus»? Seremos por acaso nós a recusar-nos a confessá-lo como tal na nossa vida pública (...)?”(LF 55)

***

Esses ensinamentos nos apontam quatro tópicos de exame:

1) Conheço suficientemente a doutrina católica? O que tenho feito para nela me aprofundar? Ou engano-me com preconceitos que facilmente poderia superar com um mínimo de estudo?

2) Associo à doutrina teórica a prática de exercícios de piedade, de oração e de caridade? Ou a minha interioridade é fechada ao diálogo com Deus e ao serviço do próximo?

3) Reconheço na Igreja a “Mãe que nos ensina a falar a linguagem da fé” e pela qual podemos “beber no «verdadeiro» Jesus” (LF 38)? Ou a confundo com pessoas concretas e estruturas passageiras, imaginando que a Igreja mais atrapalha do que facilita o acesso a Deus?

4) Manifesto publicamente minha fé, não ostentando símbolos ou afetando piedade, mas com as virtudes, o desprendimento dos bens materiais e o amor ao próximo? Defendo delicadamente a verdade cristã diante das falsidades que atribuem a ela?

21 de abr. de 2013

Papa não se compara

Falsas diferenças

Um amigo acabou de retornar de Roma e se disse empolgado com o Papa Francisco, o qual passeara pela Praça de São Pedro para delírio dos fiéis. Após elogiar Bento XVI, afirmou que a Igreja atual de fato precisava de um papa mais “pop”, menos intelectual, e que circulasse entre o povo.

Achei graça, pois Bento XVI fazia tal qual e os fiéis iam ao delírio do mesmo jeito. Eu mesmo estive em Roma há uns anos e o presenciei: quebramos várias cadeiras da Aula Paolo VI amontoando-nos uns sobre os outros, e as pessoas que conseguiram tocá-lo quase lhe furtaram o anel das mãos.

Concretamente, esse meu amigo é um católico de conversão recente. Para ele, como para a maioria das pessoas, a figura veiculada de Bento XVI é mais viva que sua figura verdadeira.

Não é aqui o lugar para analisar as possíveis razões desse fato: boicote interno, péssima comunicação institucional, preconceito latino-americano com os europeus, antipropaganda da Teologia da Libertação, má vontade e incompetência da imprensa brasileira, etc.

Aparentes diferenças

Alguns setores mais conservadores fizeram soar o alarme quando o Papa Francisco, em nome da pobreza, abriu mão de alguns símbolos litúrgicos que Bento XVI costumava apreciar.

Outros tantos, em resposta bem intencionada, fizeram finca-pé na legitimidade de o novo Papa conduzir as cerimônias como lhe aprouver.

Outros, ainda, apelaram para a ação oculta do Espírito Santo por trás de toda essa história…

Contudo, acredito que a maioria das pessoas não percebeu nada de diferente, antes ficou muito contente com a boa acolhida que o novo Papa recebeu por parte da opinião pública.

Penso que, de fato, esse assunto não tem tanta relevância. Mas o fogo que foi disparado, tanto cruzado quanto amigo, oferece uma boa oportunidade para clarificar as ideias.

Verdadeiras diferenças

O Papa Francisco é um religioso (isto é: fez voto de pobreza) e, como tal, ele procura viver o desprendimento de forma ostentosa. Bento XVI, além de ser do clero secular, é um professor de teologia, por isso se valia de tudo que tivesse valor pedagógico para passar seu recado (até a cor do calçado!).

Segundo T. S. Eliot, o homem moderno prefere o onírico ao alegórico. Portanto, sofre de uma enorme ignorância diante do simbólico, mas se empolga com o histriônico. Daí que a pedagogia de Bento XVI nem sempre tenha sido assimilada…

Por outro lado, o Papa Francisco é um místico cuja sensibilidade o faz preferencialmente descortinar Cristo no pobre e no desvalido. Por sua vez, para Bento XVI, como ele mesmo afirmou, é na relação com a liturgia que se decide o destino da fé e da Igreja.

Com relação a esse último aspecto, vale a pena recordar que o bem-aventurado João Paulo II propunha ainda outro caminho, pois para ele o homem é que “é a primeira e fundamental via da Igreja” (Redemptor hominis, 13).

Essas diferenças são úteis para abarcarmos as diferentes facetas da vida cristã.

19 de fev. de 2013

O debacle ideológico diante de uma renúncia

Nós seres humanos vivemos em tensão: entre aquilo que é perene, definitivo, estruturante; e aquilo que é dinâmico, mutável, cambiante. Se quiser, pode chamar esse dualismo de masculino – feminino, ying – yang, Cristo – Espírito Santo, etc.

Nesse sentido, para falar da Igreja, é preciso ter presente que ela é um projeto divino realizado na vida dos homens, tanto santos quanto pecadores. E que, para secundar a ação do Espírito Santo nas vicissitudes da história, quem exerce a autoridade procura proteger os carismas com uma estrutura jurídica que os potencialize.

Fazendo uma comparação, é como no amor entre um homem e uma mulher: para selar e salvaguardar os sentimentos, vem a graça do matrimônio coroar a mútua união dessas vidas.

Portanto, não faz sentido opor instituição à vida, ou o aspecto espiritual ao carnal. Isso seria como dizer que Jesus não vale, mas só o Espírito Santo, pois o Espírito traz dinamismo para o mundo, enquanto Jesus apenas fundou uma Igreja necessariamente pervertida pelos homens.

É evidente que as estruturas podem ser melhoradas para melhor realizarem em cada época os ideais que elas devem expressar. Mas isso não justifica impugná-las por princípio.

Não há como exigir da mídia fé sobrenatural para interpretar os fatos da Igreja. No entanto, quando leio nos jornais a opinião de pseudoteólogos egocêntricos ou tarados — hereges contumazes como Boff ou Küng, que se valem da renúncia de Bento XVI para falarem de si mesmos e expelir a bílis do seu fracasso religioso —, pergunto-me se seria demasiado exigir da imprensa uma pouquinho de boa-fé. Ou os jornalistas são tão incompetentes que o fato de eles teimarem anos a fio em contar com a colaboração das mesmas cartas marcadas simplesmente indica o seu completo despreparo intelectual e cultural?

O explicado acima traz à luz apenas uma parte do problema. Afinal, opor estrutura jurídica e dinamismo profético é o simples resultado de aplicar à Igreja Católica premissas protestantes. Ainda faltaria falar de premissas modernistas (dogma e revelação como mitos), e de premissas marxistas (uso do poder para oprimir pessoas carismáticas).

Liberte sua fé das amarras dessas ideologias. Do contrário, seus olhos só enxergarão o que você quiser ver.

16 de fev. de 2013

Quo vadis, Papa?

Estava correndo contra o relógio a 140 km/h quando chegou o torpedo com que me comunicavam a renúncia de Bento XVI. Por sorte a surpresa não me causou um acidente, pois uns cones na pista tinham me feito reduzir a velocidade. 

Em duas semanas, dois chefes de Estado renunciaram: Beatrix da Holanda e Bento XVI da Santa Sé. A primeira pode se dar a esse luxo sem grandes polêmicas, mas o segundo… Quais seriam seus motivos? 

Sempre espere o inesperado. Nunca despreze os conceitos que costumam fazer visita a ritmo de cometa. Renuncie a julgar com ligeireza eventos surpreendentemente singulares. Mas não foi isso que vi na imprensa. Sem dúvida, há pressa em noticiar, em explicar, em comentar, em interpretar. Contudo, quanta pena senti diante da superficialidade de Luís Felipe Pondé, ou da amargura despeitada de Genézio (Leonardo) Boff, ou das teorias conspiratórias de tantos outros críticos acerbos. 

Mais uma vez, o Papa se apresentou como “sinal de contradição”, revelando o segredo de tantos corações que descarregam na Igreja o fel da própria consciência. Após um luminoso pontificado, repleto de conquistas sem precedentes, ainda há quem teime em considerá-lo um fracasso. Ou até quem acuse Bento XVI de ter traído Santo Agostinho e passado para o partido de Pelágio: com efeito, a graça não é mais importante que a mera força humana? 

Quando li a notícia, logo me veio à cabeça a famosa frase apócrifa dos Atos de Pedro, inspirada em Jo 16,5, e imortalizada pela obra de Henryk Sienkiewicz: Quo vadis, Papa? — Papa, aonde vais?

O texto do martírio de São Pedro conta como o velho pescador, informado da cruel perseguição, partiu solitário de Roma a fim de servir o Senhor, mas permanecendo vivo. Ao sair, encontra o próprio Cristo no caminho, a quem pergunta: “Senhor, aonde vais?” (Quo vadis, Domine?) 

E o Mestre lhe responde: “Vou a Roma para ser crucificado”. Ao que Pedro perguntou: “Serás crucificado novamente?” Mas Jesus lhe respondeu: “Não, Pedro, agora mesmo já estou sendo crucificado”. Então Pedro caiu em si e, vendo que o Senhor subia ao céu, retornou a Roma feliz de saber que seu destino seria o mesmo que o do seu Mestre.

Uma rápida analogia levaria a julgar a renúncia ao sólio pontifício com o mesmo rigor adotado por Dante Alighieri diante da abdicação de Celestino V, o santo papa medieval que o poeta afirma encontrar logo à entrada do Inferno (III, 58-60): 


Alguns já distinguira: eis, de repente,
Olhando, a sombra conheci daquele
Que a grã renúncia fez ignobilmente. 


Ao que parece, São Celestino — conhecido por Dante em 1294 — renunciou perante o Consistório após cinco meses de pontificado por causa de uma astuta campanha do cardeal Gaetani, destinado a sucedê‑lo com o nome de Bonifácio VIII. Desterrado e mantido praticamente prisioneiro em condições desumanas, Celestino veio a morrer dois anos depois. 

Mas o juízo dantesco foi paradoxalmente superado pelo juízo eclesiástico, que elevou à glória dos altares o pobre pontífice acorrentado pelas malhas da intriga. 

A única presunção cabível no caso de Bento XVI, um pastor consciente da gravidade do seu ato, um homem santo, dado à oração e à reflexão, é que ele sofreu muito para chegar a tal decisão e que viu mais benefícios do que prejuízos na mesma. Numa atitude franca e humilde, explicou suas razões aludindo à saúde física e espiritual que estão aquém das necessidades da Igreja neste concreto momento histórico. Portanto, mais do que indagar acerca das debilidades de Bento XVI, é preciso investigar a vulnerabilidade especial que sofre a Igreja de hoje, a ponto de o Papa optar por uma solução tão inusitada. 

Já se disse com muito boa intuição que, com essa renúncia, Bento XVI coroou o ciclo de abnegações que norteou a sua vida de entrega a Deus. Sem dúvida, à pergunta quo vadis, Papa?, ele poderia nos responder como o próprio Senhor: “vou a Roma para ser crucificado” ou — por que não? — “agora mesmo já estou sendo crucificado”. 

***
Transcrevo a passagem original do apócrifo:

Ὡς δὲ ἐξῄει τὴν πύλην, εἶδεν τὸν κύριον εἰσερχόμενον εἰς τὴν Ῥώμην.
Καὶ ἰδὼν αὐτὸν εἶπεν· Κύριε, ποῦ ὧδε;
Καὶ ὁ κύριος αὐτῷ εἶπεν· Εἰσέρχομαι εἰς τὴν Ῥώμην σταυρωθῆναι.
Καὶ ὁ Πέτρος εἶπεν αὐτῷ· Κύριε, πάλιν σταυροῦσαι;
Εἶπεν αὐτῷ· Ναί, Πέτρε, πάλιν σταυροῦμαι.
Καὶ ἐλθὼν εἰς ἑαυτὸν ὁ Πέτρος καὶ θεασάμενος τὸν κύριον εἰς οὐρανὸν ἀνελθόντα,
ὑπέστρεψεν εἰς τὴν Ῥώμην ἀγαλλιώμενος καὶ δοξάζων τὸν κύριον,
ὅτι αὐτὸς εἶπεν· Σταυροῦμαι· ὃ εἰς τὸν Πέτρον ἤμελλεν γίνεσθαι.
(Atos de Pedro, XXXV, 9-16) 

3 de nov. de 2012

Xadrez da Morte

Ninguém escapa

Ingmar Bergman se consagrou no cenário cinematográfico internacional em 1957 com o filme “Sétimo Selo”. O drama serve de parábola dos tempos do pós-guerra, ainda atormentados pela memória das recentes atrocidades bélicas e pelo medo das possíveis consequências da Guerra Fria. 

Antonius Block, um cruzado que sobrevivera a perigosas batalhas pela fé, tenta furtar-se à Morte que o espreitava sob a máscara da peste quando regressava à sua terra. Para isso, inutilmente joga xadrez com essa exímia estrategista, numa tentativa desesperada de adiar o desenlace. 

A certa altura, ao distrair-se da partida, a Morte lhe pergunta: 

— Você perdeu o interesse? 

— Perder o interesse? Pelo contrário! 

— Você parece preocupado. Está escondendo alguma coisa? 

— Nada lhe escapa! 

— Nada me escapa. Ninguém me escapa.

Rito de passagem

O filme costuma ser lido pelos historiadores como uma alegoria do ciclo devorador do tempo. Com efeito, no final apenas sobrevive uma família de artistas, que representaria o Renascimento sucedendo à Idade Média decadente. A Morte seria o tempo, pelo qual a história se desdobra: pois o tempo é o rito de passagem que revelaria a identidade de quem o vivencia.

Embora essa leitura seja válida, não há motivo suficiente para desviar a atenção de que a Morte alcança a cada homem em particular, a você e a mim. É um pedágio ao qual ninguém escapa. A morte, sem dúvida, é o primeiro passo desse obrigatório rito de passagem do tempo para a eternidade. Tanto mais assustadora quanto menos se conhecem os passos ulteriores.

Nesse ponto, porém, encontramos pessoas que olham para a morte de forma otimista: “Aos ‘outros’, a morte os paralisa e assusta. A nós, a morte — a Vida — dá‑nos coragem e impulso. Para eles, é o fim; para nós, o princípio” (São Josemaria, Caminho, 738).

Com efeito, a fé cristã é clara quanto à ressurreição final de todos os mortos, com a respectiva retribuição da vida ou da condenação eternas. Contudo, o que diz a fé acerca do que sucede nesse período intermediário, entre a morte e a ressurreição?

Justiça misericordiosa

O sentir da Igreja ao longo da história foi unânime em afirmar a necessidade de uma reparação por parte dos defuntos que, merecendo a salvação por terem tido uma derradeira abertura interior para a verdade, sepultaram-na sob repetidos compromissos com o mal. Nesse sentido, fala-se, no Ocidente, de um sofrimento purificador e expiatório das almas no além; no Oriente, de diversos graus de sofrimento na condição intermédia. 

A percepção da graduação da purificação ultratumular tradicionalmente admite pelo menos dois níveis de “purgatório”. Assim o atesta a Summa theologiæ: “Do lugar do purgatório nada se encontra expressamente dito na Escritura, nem se podem aduzir razões eficazes que o determinem. Contudo provavelmente, segundo o mais concorde com o ensino dos santos Padres e a revelação feita a muitos, o purgatório ocupa um duplo lugar” (Apêndice, solução ao art. 2). 

É muito provável que o primeiro nível seja o do purgatório tradicional, proclamado dogmaticamente por Bento XII em 1336, mediante a Constituição Benedictus Deus, na qual o Pontífice fala do que ocorre às almas segundo “a comum ordenação divina” (DS 1000). 

O nível inferior do purgatório corresponderia àquele das “almas penadas” ou “almas perdidas”, cuja existência é atestada pelas orações litúrgicas, pelos exorcistas e por algumas revelações privadas.

Não buscar consolo, mas ajudar

Contudo, mais importante do que essas especulações, é que podemos contribuir para o refrigério dessas almas. Talvez isso pareça inusitado ao homem de hoje, tão desligado dos seus, vitimado de individualismo e mais desejoso de encontrar nos cultos fúnebres consolo para as suas saudades do que formas de contribuir para a salvação dos que se foram. Nesse sentido, são alentadoras as palavras de Bento XVI: 

“Aqui levantar-se-ia uma nova questão: se o «purgatório» consiste simplesmente em ser purificados pelo fogo no encontro com o Senhor, Juiz e Salvador, como pode então intervir uma terceira pessoa ainda que particularmente ligada à outra? Ao fazermos esta pergunta, deveremos dar-nos conta de que nenhum homem é uma mônada fechada em si mesma. As nossas vidas estão em profunda comunhão entre si; através de numerosas interações, estão concatenadas uma com a outra. Ninguém vive só. Ninguém peca sozinho. Ninguém se salva sozinho. Continuamente entra na minha existência a vida dos outros: naquilo que penso, digo, faço e realizo. E, vice-versa, a minha vida entra na dos outros: tanto para o mal como para o bem. Deste modo, a minha intercessão pelo outro não é de forma alguma uma coisa que lhe é estranha, uma coisa exterior, nem mesmo após a morte. Na trama do ser, o meu agradecimento a ele, a minha oração por ele pode significar uma pequena etapa da sua purificação. E, para isso, não é preciso converter o tempo terreno no tempo de Deus: na comunhão das almas fica superado o simples tempo terreno. Nunca é tarde demais para tocar o coração do outro, nem é jamais inútil. Assim se esclarece melhor um elemento importante do conceito cristão de esperança. A nossa esperança é sempre essencialmente também esperança para os outros; só assim é verdadeiramente esperança também para mim. Como cristãos, não basta perguntarmo-nos: como posso salvar-me a mim mesmo? Deveremos antes perguntar-nos: o que posso fazer a fim de que os outros sejam salvos e nasça também para eles a estrela da esperança? Então terei feito também o máximo pela minha salvação pessoal.” 
(Bento XVI, Encíclica Spe salvi 48). 

Sadio realismo

As comemorações com que se inicia o mês de novembro — Todos os Santos e Finados — são muito oportunas para tornar a essas ideias e pensar na única coisa de que temos certeza na vida: de que morreremos. Pois todos desejamos viver bem, mas nem todos procuram preparar-se para bem morrer. 

Ou, como dizia a Morte no filme de Ingmar Bergman:

— A maioria das pessoas nunca reflete, nem sobre a morte, nem sobre a futilidade da vida.

15 de set. de 2012

A Sibila do Reno

Hildegarda com sua pupila Richardis, no filme Vision

Novos Doutores

Em outubro próximo, iniciará o Ano da Fé. Por essa ocasião, Bento XVI proclamará doutores a São João de Ávila, “Mestre de Santos e a figura de maior destaque num século de gigantes”, e Santa Hildegarda de Bingen, “a Sibila do Reno e Profetiza dos Teutões”.

Os requisitos para que se proclame um Santo como Doutor da Igreja são: eminens doctrina, insignis vitæ sanctitas, Ecclesiæ declaratio (doutrina eminente, santidade insigne e declaração eclesiástica). Em termos práticos, a declaração como Doutor torna obrigatório para a Igreja universal o ofício e a Missa do Santo em questão, cujos ensinamentos são apresentados como uma referência.

Portanto, a decisão de inscrevê-lo nessa lista tão exígua (35 no total) é — eminentemente — pastoral. Essa intenção fica ainda mais patente com a escolha de Hildegarda, que nem mesmo tinha sido solenemente canonizada, embora seu culto fosse estendido na Alemanha. Com efeito, a Sibila do Reno cai nas graças de todo mundo, desde adeptos da New Age às feministas mais ideologizadas.

Nada melhor do que resgatar a mística medieval para o conhecimento dos nativos virtuais do nosso século.

Mulher polímata

Hildegard Von Bingen (1098-1179) é uma personagem muito peculiar: a mestra do mosteiro beneditino de Rupertsberg foi mística, fundadora, teóloga, pregadora, naturalista, médica, escritora, poetisa, dramaturga e compositora. Criou inclusive uma lingua ignota, com alfabeto igualmente desconhecido, com a qual descrevia suas fantásticas visões.

Além de algumas referências esparsas, Bento XVI já lhe dedicou duas audiências, e o Bem-aventurado João Paulo II escreveu uma breve carta sobre ela, que foi uma das mulheres mais importantes da Idade Média e cujas obras podem ser lidas em latim (e em espanhol).

Dentre as suas obras enumeram-se também peças musicais, compostas por revelação divina. É possível encontrar na Internet uma boa seleção:


A Profetisa nas telas

Em 2010, foi lançado o filme Vision: from the live of Hildegard Von Bingen. A diretora, Margarethe Von Trotta, realizou um belo trabalho, doutrinal e moralmente ortodoxo, o qual vem maculado, contudo, por personagens caricaturescos e estereótipos sobre o feminismo, o naturalismo, a época medieval e as práticas penitenciais. A fotografia e o figurino são excelentes; há inclusive alguns pequenos trechos das músicas de Hildegarda. O resultado final é um tanto heterogêneo: o filme pode parecer pesado a alguns, mas vale a pena.

Em compensação, a TV alemã ZDF produzira em 2008 uma série de documentários sobre as 20 maiores personalidades da história germânica, dedicando à Sibila do Reno um dos episódios. Estão disponíveis para download, mas sem legenda.

O verdadeiro feminismo cristão

A figura de Hildegarda é muito apropriada hoje para contestar a difundida falácia feminista de que a mulher teria sido humilhada e maltratada no decurso dos séculos cristãos. É fora de dúvida que, nas antigas civilizações (exceto em parte entre os judeus e os epicuristas), a mulher foi sujeita ao despotismo do varão, era moeda de troca, era vitimada por divórcios arbitrários, submetia-se à prostituição sagrada, etc.

Pelo contrário, no seio do Cristianismo, a mulher encontrou uma defesa de seus direitos, obteve a proteção do matrimônio indissolúvel, recebeu um status até então inimaginável, e foi proposta como o mais sublime dos modelos na figura de Maria.

Hildegarda não é figura isolada. Helena e Teodora II, Teodolina, Clotilde e Radegunda, Catarina de Sena e Teresa de Ávila, entre tantas outras, exerceram mais influência do que qualquer mulher dos tempos modernos. Essa visão distorcida do desprezo cristão pela mulher provém da tendência atual a denegrir a Igreja histórica.

Curiosamente, os mesmos que atribuem à Igreja as “antigas faltas da Cristandade” também lhe atribuem as crises atuais, oriundas justamente do abandono que fizeram da mesma Igreja. Em suma: se para muitos não houve filosofia antes de Kant, para tantos outros não houve história antes da Revolução Francesa…

18 de jun. de 2012

Cinco segredos da JMJ

Como necessário complemento aos sete passos para uma bem-sucedida JMJ no Rio de Janeiro, apresento os cinco pontos auge da JMJ de Madri, analisados por Bento XVI em seu balanço de fim de ano (que vale a pena ler na íntegra).

Nova experiência de catolicidade

A JMJ é a nova evangelização ao vivo. Permite apalpar a catolicidade, isto é, a universalidade da Igreja: gente de todos os continentes que, sendo tão diferente pela língua, cultura, nação, compartilha os mesmos sentimentos e ideais. É uma verdadeira aula de pluralismo.

Nova forma de ser homem

Em Madri houve cerca de 20.000 jovens voluntários, indicando a perene vitalidade da caridade, que se reveste formas novas conforme os tempos. Através do altruísmo, da solidariedade e do serviço, muitos redescobrem o amor de Deus e do próximo, que é o verdadeiro motivo da ação humana.

Revalorização da adoração

A presença real de Jesus Cristo no Santíssimo Sacramento da Eucaristia é o ponto focal da JMJ. Dali se alimenta a Igreja e aí encontra forças cada fiel. É a atitude que se tem diante da Eucaristia que define se uma pessoa está ou não comprometida com Cristo.

Redescoberta da Penitência

Não seria autêntico um encontro com Cristo que descuidasse a penitência. Jesus Cristo é exigente e a proposta de vida cristã tem como meta nada menos que a santidade. Por isso, o esforço penitencial de purificação, que todo batizado envida ao longo de sua vida, necessita da graça de Deus para chegar à perfeição. A confissão sacramental dos pecados pessoais ao sacerdote é o único meio ordinário, instituído pelo próprio Cristo, para responder ao esforço humano com o perdão gratuito de Deus. Quem frequenta esse sacramento, recebendo a absolvição de sacerdotes experimentados, enche-se de alegria, de segurança, de confiança em sua luta por ser uma pessoa melhor.

Refortalecimento da alegria

Segundo São Tomás de Aquino, a alegria é “certo ato e efeito da caridade”, já que “a mesma caridade inclina a amar, a desejar o bem amado e a gozar nele” (S. Th., IIa-IIæ, q. 28, a. 5, c). Se pela caridade os cristãos são reconhecidos, em toda parte onde estiverem seu traço característico será, portanto, o sorriso da alegria.

23 de abr. de 2012

Sete passos para uma bem-sucedida JMJ Rio2013

Michael Cook escreveu acerca da JMJ ocorrida em Madri em 2011, aliás muito bem sucedida, a despeito da aura negativa com que a mídia teima em avaliar os eventos pontifícios.

Com base em suas ideias, pensei em sete providências para que a JMJ carioca de 2013 também dê seu fruto.

1) Que a nova geração assuma sua posição na Igreja

Eventos como World Youth Summit das Nações Unidas, ou mesmo shows do porte do Rock in Rio, embora reúnam milhares de jovens (e tantos não tão jovens), não se comparam às Jornadas Mundiais da Juventude, que costumam atrair milhões de peregrinos de centenas de países, os quais suportam o sacrifício de pagar uma longa viagem e de acomodar-se desconfortavelmente. A razão está no compromisso, na identificação com a Igreja Católica.

Portanto, o sucesso da JMJ passa pela interiorização desse compromisso. Sem dúvida, a desproporção da assistência indica que a próxima geração herdará os valores da Jornada e não dos shows patrocinados, mas isso não isenta da necessidade de assimilá-los e de traduzi-los em propósitos práticos, pessoais.

2) Aprender de Bento XVI, que dita a agenda moral do Ocidente

Desde antes de sua eleição, o Papa Bento alertava para a “ditadura do relativismo”. Seu ensinamento desmonta as atitudes politicamente corretas e a neutralidade moral e tem conseguido chegar aos ouvidos de autoridades aparentemente não tão dispostas a ouvi-lo, como as britânicas ou as germânicas, por exemplo.

Mas se o Papa tem feito gente alheia à Igreja pensar, poderíamos dizer o mesmo dos católicos (e dos católicos brasileiros)? Muitas vezes se tem a impressão, e especialmente no Brasil, que a maioria das pessoas ainda ignora as propostas lançadas por Bento XVI. Portanto, mãos à obra: é a hora de inteirar-se, ler, pôr a mão na cabeça e refletir um pouco.

3) Recorrer ao think tank de um homem só… que é de graça!

O crítico cinematográfico Neal Gabler, do New York Times, lamentou o fim do pensamento profundo e anunciou o advento da pós-ideia. Se isso é assim nas grandes metrópoles do Ocidente, não o é no Vaticano. E mesmo que setores intelligentsia não leiam a obra de Ratzinger sobre moral, filosofia, estética, economia e responsabilidade social, muitos jovens já leram.

Tamanha quantidade de ideias construtivas — acessíveis e gratuitas — promete deixar rastro e construir o futuro de uma geração carente de referenciais. E quanto a você, já leu também?

4) Encontrar a única saída para a CRISE (econômica, política, etc.)

Bento XVI anteviu esses e outros descaminhos e apontou respostas antes que as pessoas começassem a perguntar. A dimensão ética da economia não deve ser minorada nem substituída pela mera regulação.

A gratuidade é uma manifestação concreta da justiça e da caridade cristãs, que traz um remédio providencial para tais momentos de dificuldade. Impõe-se, mais do que nunca, redescobrir as múltiplas facetas da generosidade e do amor.

5) Renunciar ao consumismo e ao sexo desumanizador

Uma liberdade de mal com a verdade transforma-se em utilitarismo. O coração dos que reduzem sua liberdade à mera escolha atola-se no consumismo avaro e no hedonismo erótico. A desilusão é consequência óbvia.

A redescoberta de Deus inspira os sonhos de juventude, levanta o olhar para desafios que valem a pena, alargam o coração para os grandes ideais. Só contemplando a Deus pela oração e ouvindo sua Palavra é possível olhar para o homem e compreendê-lo.

6) Reafirmar que a verdade é mais forte que a utilidade

O discurso para os professores foi o mais memorável de Bento XVI na JMJ da Espanha. Propôs-lhes ensinar a verdade com o exemplo e com a palavra, mais do que mero know-how.

A questão aqui é como encaramos a vida universitária, problema que não afeta apenas o corpo docente, mas também o discente.

7) A JMJ ainda é o segredo bem guardado para o mundo

A cobertura jornalística das JMJs é paupérrima. Se um exíguo grupo de homossexuais fizesse barulho ou reunisse uma boa quantidade de gente disposta a presenciar extravagâncias, receberia holofotes. Não é de estranhar tão pouca atenção da opinião pública para um evento que reúne mais de um milhão de jovens? A JMJ das Filipinas, por exemplo, foi o ato mais massivo da história da humanidade, com quatro milhões de pessoas.

Dizem que o Papa alertou o prefeito do Rio de Janeiro que a JMJ trará um impacto para a cidade muito maior que a Copa ou as Olimpíadas, além de ser muito mais difícil de organizar. Provavelmente, as implicações políticas do encontro até facilitem sua prévia difusão midiática por via institucional.

De qualquer modo, é prioritário explicar para todo mundo o que é a JMJ. Vai na linha do conselho de São Rafael a Tobit: “É bom manter escondido o segredo do rei, mas é honroso revelar e celebrar as obras de Deus” (Tb 12,7a). Com isso, também se prepara a cidade para que não apenas tenha os braços abertos, mas saiba fechá-los num abraço caloroso ao Papa e aos peregrinos.

Contudo, talvez não seja tão peculiar essa miopia jornalística. Afinal, do mesmo modo que a mídia não anteviu a Primavera Árabe, nem a desintegração da União Soviética, etc., é incapaz de captar a história oculta dessas Jornadas.

Essa “história oculta” é capilar em todo o mundo através do fermento de cada jovem transformado pelo encontro com Jesus Cristo através da figura do Pontífice. Ele mesmo declarou aos jornalistas:

A sementeira de Deus é sempre silenciosa, não aparece imediatamente nas estatísticas. E com a semente que o Senhor lança na terra durante as JMJs, acontece como com a semente da qual Ele fala no Evangelho: algumas caem ao logo da estrada e perdem-se; outras caem sobre os pedregulhos e perdem-se; algumas caem entre os espinhos e perdem-se; mas algumas caem na terra boa e produzem muito fruto. Exatamente assim acontece com a sementeira da JMJ: muito se perde — e isto é humano. Com outras palavras do Senhor: o grão de mostarda é pequeno, mas cresce e torna-se uma árvore frondosa. E ainda, certamente, muito se perde, não podemos dizer imediatamente: a partir de amanhã recomeça um grande crescimento da Igreja. Deus não age assim. Mas cresce em silêncio e muito. Sei que das outras JMJs nasceram muitas amizades, e para toda a vida; muitas experiências novas de que Deus existe. E sobre este crescimento silencioso nós depositamos a confiança e estamos certos, embora as estatísticas não se pronunciem muito, de que a semente do Senhor realmente cresce e, para muitas pessoas, será o início de uma amizade com Deus e os outros, de uma universalidade do pensamento, de uma responsabilidade comum que deveras nos mostra que estes dias dão fruto.

*****

Não poderia terminar essas linhas sem fazer referência à análise que o próprio Papa fez da JMJ de Madri. Mas quanto aos cinco segredos que ele constatou em seu balanço, dediquemos uma postagem futura.

5 de out. de 2011

Sexo dos anjos

Detalhe inferior da tilma de Juan Diego

Os mistérios de Guadalupe

Assisti a um documentário mexicano muito interessante sobre Guadalupe, 1531. Tem a forma de depoimento, e bons atores fazem as vezes dos entrevistados, emprestando sua voz àqueles homens que vivenciaram tão estrondoso milagre no século XVI.

Um dado que me admirou foi acerca do anjo que apareceu estampado na tilma de Juan Diego: é um varão idoso, com asas de águia, que segura com a mão direita o manto celeste da Virgem e, com a esquerda, seu róseo vestido. A razão aduzida no documentário foi a pedagogia divina.

São Juan Diego
A águia era considerada pelos aztecas ave divina, que levava o sangue dos sacrifícios humanos ao deus Sol; além disso, conta a lenda que uma águia lhes indicara onde deveria ser fundada a cidade do México. Por outro lado, a águia é o símbolo de João Evangelista, que justamente profetizou a aparição de “uma mulher revestida de Sol, com a Lua a seus pés” (Ap 12,1). “Águia que fala” é também o significado do nome indígena de Juan Diego, Cuauhtlatoatzin.

Por sua vez, o homem velho representava a sabedoria indígena. Assim, o anjo indica que a sabedoria de Deus conciliou o céu e a Terra, dando fim à guerra cósmica que tanto afligia a cultura azteca.

Íncubos e súcubos

Um íncubo apoderando-se da presa
Isso me fez considerar que os anjos costumam aparecer na Escritura de forma masculina. Mesmo na estranha interpretação literalista do relato dos Gigantes, que os entende como fruto do consórcio carnal entre anjos e homens (Gn 6,1-4), os eventuais seres celestes envolvidos eram íncubos, não súcubos. Ou seja: as mulheres eram suas vítimas.

O demônio feminino Lilit
Mas, justiça seja feita, há uma única passagem em que aparece citada uma “anja”: Lilit (Is 34,14). Seria originalmente um demônio feminino do mito assírio‑babilônico. A tradição rabínica tardia apresentou-a como a primeira mulher de Adão, anterior a Eva, madrasta dos filhos de Adão, a quem tenta matar em seus ciúmes.

Essa beldade com “perfume de enxofre” (Jó 18,15) deve ser a grande paqueradora dos homens maus.

Misandria e o masculino como norma

Quando o feminismo inflaciona, a masculinidade corre o risco de ir para o saco. Existe um sadio feminismo, mas às vezes tenho a impressão de que vivemos em tempos de misandria. Se a escalada da intolerância continuar, dizer que o normal é ser homem poderá virar crime.

Espetadas à parte, tornemos a questão do sexo dos anjos. Acredito que a representação preponderantemente masculina dos anjos tenha alguma relação com a norma bíblica de só atribuir títulos masculinos a Deus. O próprio Cristo é um homem. Embora Deus diga que, “como a mãe que acaricia os filhos, assim vou dar-vos meu carinho” (Is 66,13), por outro lado nunca é chamado “Mãe”, apenas “Pai”.

Isso não é machismo, como tentam defender certas abordagens ideológicas. Em primeiro lugar, as partes do corpo humano sempre serviram para caracterizar os sentimentos. Assim, os úberes, o seio, as entranhas, o regaço femininos representam a misericórdia. Por isso essas partes podem ser usadas para descrever analogicamente as atitudes de Deus para com os seres humanos.

Quanto à representação varonil de Deus, é uma forma de evitar o risco de sua assimilação às divindades telúricas. Vale citar a explicação de Bento XVI (Jesus de Nazaré, págs. 130-1):

“Naturalmente, Deus não é nem homem nem mulher (…). As divindades maternas (…) mostram uma imagem da relação entre Deus e o mundo que é inteiramente oposta à imagem bíblica de Deus. Elas incluem sempre, e mesmo inevitavelmente, concepções panteístas, nas quais desaparece a distinção entre o Criador e a criatura. O ser das coisas e dos homens aparece deste ponto de partida necessariamente como uma emanação do seio materno do ser, o qual se temporaliza na pluralidade dos entes.

“Em contraste com esta concepção, a imagem do pai era e é adequada para exprimir a alteridade entre Criador e criatura, a soberania do ato criador. Somente por meio da exclusão das divindades maternas podia o Antigo Testamento levar à maturidade a sua imagem de Deus, a pura transcendência de Deus.”

18 de set. de 2011

Jihad da palavra

Batismo do jornalista Magdi Allam
No quinto ano do discurso de Ratisbona.


“Se o 11 de setembro representou o cume da «jihad do terror», com o mais sanguinolento atentado ao coração da superpotência mundial, o 12 de setembro de 2006 constitui o nível mais alto da «jihad da palavra», através do mais insidioso ataque verbal ao líder espiritual que hoje, mais do que ninguém, encarna os valores e os ideais do Ocidente. A «jihad da palavra» tem o seu fundamento na convicção de que todos nós (incluindo aqueles que, neste momento, irresponsavelmente dão apoio aos fundamentalistas islâmicos) — ou seja, o inimigo — seremos derrotados quando nos autocensurarmos voluntariamente, quando formos dominados pelo medo de dizer o que pensamos e de sermos aquilo que somos, quando o medo àquilo que poderá acontecer nos dilacerar interiormente e paralisar totalmente”.

Com tais palavras, Magdi Cristiano Allam, vice-diretor do jornal italiano Corriere della Sera, comentava o período histórico em que vivemos no livro da sua conversão do Islã ao catolicismo. Constatamos, com efeito, um embate entre o terrorismo islâmico por um lado e o niilismo ocidental por outro. E no centro do ringue, Bento XVI.

A mordaça que se tem procurado aplicar ao Pontífice, aparentemente eficaz em alguns momentos, é uma derrota do princípio de liberdade de expressão, eixo da civilização ocidental. O “politicamente correto” está dando passo agora ao “islamicamente correto”.

O que têm em comum o niilismo relativista ocidental e o fundamentalismo islâmico? A negação da racionalidade. Aí se estriba a conjunção de forças tão contrárias em um único objetivo: calar a Palavra.

10 anos do terror. 5 anos da mordaça. Mas tanto faz. A Palavra nunca está acorrentada. Fala mesmo em silêncio. E quem faz teologia também sabe fazer teodiceia; é até um exercício interessante.

21 de ago. de 2011

JMJ Rio 2013!


As Jornadas da Juventude reuniram a cada edição número recorde de participantes. Nunca houve tanta concentração de jovens de tantos países. A JMJ das Filipinas reuniu 4 milhões de jovens em 1995. Nenhum popstar conseguiu atrair tanta gente na história como os papas.

JMJ Madri 2011
Em outros tempos, o próprio cardeal Ratzinger já se perguntara que impacto duradouro suporia para a vida dos jovens a participação em tal evento, promovido pelo bem-aventurado João Paulo II desde 1986. A questão se impõe a qualquer crítico da pós-modernidade. De fato, pode haver coisa mais surpreendente do que milhões de jovens do século XXI, de todas as partes do mundo, se reunirem para estar junto da controvertida figura do Pontífice Romano? Estariam os jovens seguindo um mero movimento de massa, alienados quanto às “minorias oprimidas pela multissecular estrutura eclesiástica”?

O papa no confessionário atendendo a um fiel
Sem dúvida, pode haver alguns que veem no evento uma oportunidade de azarar meninas de outras nacionalidades ou mesmo da própria esquina, como se fosse um “megaencontro-jovem” no mau sentido. Apesar de inevitável, isso não nega que haja fé mesmo nesses participantes eventualmente “interesseiros”. Existe fé. As pessoas creem! Há apreço e reverência pelo Homem de Branco que, de alguma forma, realiza a figura de Cristo. O que não se entende é a crítica azeda contra a manifestação pública da fé. Acusa-se a Igreja de invasão e hipocrisia. Ora, o próprio Bento XVI reconhece a necessidade de um constante aprimoramento de todo aquele que se diz cristão: “Nós devemos ser santos para não gerar uma contradição entre o sinal que somos e a realidade que queremos significar” (Homilia, 20/8/2011). Naturalmente, em toda essa barafunda a culpa não é só da mídia, pois a comunicação interna da Igreja tem sido ruim. Mas seria bom que se fizesse um mínimo esforço de compreensão de um fenômeno nada desprezível. Afinal, os jornais dão mais espaço a seis veados pingados que fazem passeada do que a milhões de jovens, como se uma minoria de intolerantes tivesse mais importância do que uma maioria de gente da curva normal.

Por outro lado, sejamos sinceros: as JMJs são um desafio apostólico para a Igreja. Faz falta ajudar essa juventude pós-moderna a trocar a rebelião do “paz e amor” pela rebelião da fé e da caridade. Porém Madri mostrou — com seus 200 confessionários ao ar livre — que o saldo de reconciliação mediante a Confissão foi excelente. Não há outro caminho para a maturidade senão o arrependimento das próprias culpas.

Peço perdão, pois escrevi a esmo, como num desabafo de ideias soltas.

Até 2013. O Rio receberá milhões de braços abertos. 

10 de ago. de 2011

Psicoterapia mística

Retomo o fio da meada quanto aos descaminhos espirituais, apresentando primeiramente algumas considerações sobre a redução do Evangelho a uma ideologia, orientando-o mais a padrões do que à vida.

Mais do que ideia

O filósofo Rüdiger Safranski criticou a tentativa de se transformar o cristianismo num sério “projeto de religião”, uma «mescla de ética social, pensamento institucional de poder, psicoterapia, técnica de meditação, serviço de museu, gestão de cultura e trabalho social”.

Com efeito, a proposta cristã não é um partido, uma distração, uma ideologia, um time. Sendo a máxima expressão do mistério, implica um verdadeiro realismo, uma verdadeira decisão. Diante de uma cultura positivista e relativista, que ousadia propor uma Palavra não-simbólica, mas vinculante!

Realismo da Palavra

“A Palavra de Deus impele-nos a mudar o nosso conceito de realismo: realista é quem reconhece o fundamento de tudo no Verbo de Deus” (Verbum Domini, n.º 10). Portanto, o cristianismo exige uma “mudança concreta de paradigma” (ib., n.º 28), não é mero “doutrinalismo”. O realismo cristão avalia os fatores da realidade, levando em conta os valores a serem respeitados.

“Humanamente falando, a palavra, a nossa palavra humana, é quase nada na realidade, um sopro. Assim que é pronunciada, desaparece. Parece que é nada. Mas já a palavra humana tem uma força incrível. São as palavras que depois criam a história, são as palavras que dão forma aos pensamentos, os pensamentos dos quais deriva a palavra. É a palavra que forja a história, a realidade.
Além disso a Palavra de Deus é o fundamento de tudo, é a verdadeira realidade. E para sermos realistas, temos mesmo que contar com esta realidade. Temos que mudar a nossa ideia de que a matéria, as coisas sólidas que se podem tocar seriam a realidade mais sólida, mais segura.”
(Bento XVI, Meditação, 6/10/2008).

17 de jun. de 2011

Cânon da crítica

Existe um “cânon clássico de questões” que se costuma levantar à Igreja Católica. Uma forma divertida de dar resposta a tais questionamentos foi realizada por estudantes universitários espanhóis, com motivo da próxima Jornada Mundial da Juventude 2011, que terá lugar em Madri.
Seleciono algumas respostas:
  • Ordenação de mulheres

  • Contracepção
  • Celibato

  • Pedofilia
  • Preservativo

  • Homossexualismo


Abstenho-me de comentar. Mas passo a palavra a quem criou a expressão “cânon clássico de questões”, em 1984.

Há um argumento contrário muito simples (…): essas questões estão resolvidas na cristandade protestante (…) [mas mesmo assim] não resolveu o problema de ser cristão no mundo de hoje. (…) Julgo que se devia tornar claro para nós que, em última análise, não é por causa dessas questões que a Igreja sofre.

Estou convencido de que, numa virada espiritual que um dia há de vir, as questões perderão a sua  premência tão rapidamente quanto chegaram a adquiri-la. Porque, afinal, não são as verdadeiras questões do Homem.

Na maior parte das pessoas encontra-se, atualmente, uma ideologia média que visa a alcançar um determinado nível de vida. Que visa a que uma pessoa se possa realizar no que deseja, no que quer; e Deus, nesse contexto, é, afinal, uma incógnita que, na realidade, não conta. Essa concepção também acarreta que a moral resulte mais do acaso, ou então do cálculo destinado a assegurar a felicidade. (…) A ideologia média, em que vivemos presentemente e que se nos impõe todos os dias, seduz-nos para certezas que, no fundo, isolam o homem do essencial. Por um lado, ele não consegue mais compreender o essencial, por outro, percebe que lhe falta qualquer coisa. Porque as grandes doenças coletivas que atualmente existem baseiam-se na noção de que falta alguma coisa à vida humana e de que se sente essa falta. Nesse sentido, deveríamos ter a coragem de também combater o que é considerado “normal” para uma pessoa do fim do século XX.
(Joseph Ratzinger, O Sal da Terra, págs. 145, 169 e 29-30)
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