14 de abr de 2010

Selos, taças e trombetas para Bento XVI


Ontem foi festa de São Martinho. O Imperador Constantino II (que era católico) aprisionou este Papa e o desterrou, vindo a morrer exilado, em 655. Prender um Papa não é novidade: a última foi Napoleão encarcerando Pio VII.

Quanto a levar Bento XVI a um julgamento em corte internacional, bem… Ainda que a mídia não viva da verdade, mas de especulações, não me admira que alguns elementos sem inteligência o queiram fazer.

A “paixão do Papa Bento”, como a qualificou Sandro Magister, do L'espresso, tem consistido em receber acusações naquilo mesmo em que se destaca pela clarividência, determinação e eficácia. Inspiro-me num artigo desse jornalista italiano para o que descrevo abaixo.

Os sete selos (rótulos), trombetas (alardes midiáticos) e taças (a realidade) desse “apocalipse pessoal de Bento XVI” foram:

1) 12/9/2006, Discurso em Ratisbona

SeloInimigo do Islã e da harmonia entre as civilizações
Trombeta: A imprensa fez da citação de uma frase do Imperador Manuel II Paleólogo um motivo para os muçulmanos se sentirem ofendidos. (Sinceramente, eles nem sabiam que o Papa estava dando uma conferência numa universidade europeia.)
TaçaNesse magnífico discurso, Bento XVI explica que a raiz da violência é uma concepção deficiente de Deus. De fato, após o estardalhaço midiático, ocorreram agressões e assassinatos em várias partes do mundo, perpetrados por fundamentalistas. Por outro lado, o diálogo entre a Igreja e o Islã simultaneamente melhorou bastante: 138 sábios muçulmanos endereçaram uma carta de apoio ao Papa, que visitou a Mesquita Azul de Istambul.

2) Janeiro de 2008, Bento XVI é impedido por professores e alunos de visitar a principal universidade romana, La Sapienza

SeloInimigo da razão moderna e da ciência
Trombeta: Apesar de ter sido exímio professor universitário e possuir grande abertura de horizontes, teimam em apresentá-lo como um panzer intolerante.
Taça: Já que não têm argumentos contra ele, tentam amordaçá-lo. Curiosamente, Tariq Ramandan, teólogo e acadêmico muçulmano, neto de Hassan al Banna, fundador da Fraternidade Islâmica do Egito, tem carta-branca para palestrar em várias instituições da Europa. No mesmo mês em que o Papa era rechaçado em Roma, Tariq era recebido pomposamente na Université libre de Bruxelles, um baluarte da franco-massonaria. Vale a pena ler o discurso que teria sido feito na universidade.

3) Discurso para a Cúria Romana de 22/12/2005 e Motu-proprio de 7/7/2007

SeloInimigo das novidades trazidas pelo Concílio Vaticano II
Trombeta: O discurso, que explica as duas interpretações em voga acerca do Concílio (da ruptura e da continuidade) e a instauração da forma extraordinária do rito romano, foram divulgados pela mídia como retrocessos.
Taça: Basta conhecer a biografia e a vasta bibliografia de Ratzinger para posicioná-lo como um dos grandes reformadores, tanto no Concílio quanto da liturgia.

4) 18/3/2009, o Papa diz a jornalistas que o verdadeiro combate a AIDS na África passa pela humanização da sexualidade e o atendimento aos doentes

SeloInimigo da humanidade
Trombeta: Como se Bento XVI tivesse dito uma grande novidade, houve um grande clamor internacional por causa disso, inclusive com repercussões políticas.
Taça: É hilário pensar que um único homem residente em Roma teria controle sobre comportamentos sexuais promíscuos de africanos, muitos deles pagãos. Recomendo a leitura da entrevista, para ver que nenhum estadista apresenta propostas humanitárias como as de Bento XVI.

5) 24/1/2009, suspensão da excomunhão de Richard Williamson

SeloInimigo do ecumenismo
Trombeta: O polêmico senhor tinha declarado não acreditar no Holocausto, o que viera a público três dias antes da suspensão da excomunhão (pena imposta obviamente por outro delito). Uma coisa foi relacionada com a outra, causando grande confusão.
Taça: O rótulo é extremamente contraditório. Esforçar-se por acabar com cismas não é ecumenismo? Ratzinger conseguiu que ortodoxos, anglicanos, chineses, lefebvrianos estivessem mais próximos de Roma do que nunca na história! Até o Patriarcado de Moscou está cedendo!

6) 2/4/2010, Raniero Cantalamessa cita uma carta de apoio de um amigo judeu

SeloInimigo dos judeus
Trombeta: Qualquer referência a judeus automaticamente é interpretada como agressão.
Taça: Essa é campeã. O Papa não disse nada, mas se tornou o alvo por conta da alusão feita por um terceiro. Os dois episódios anteriores também são alegados, visto que Richard Williamson é qualificado de antissemita e que a oração pelos judeus na forma extraordinária do rito romano é mais explícita que a da forma ordinária, mesmo tendo sido mitigada pelo Papa. Pelo contrário, a verdade é que o diálogo de Bento XVI com os judeus é muito fecundo, trazendo muitas das suas luzes no primeiro volume do seu livro Jesus de Nazaré.

7) 15/3/2010, Christopher Hitchens, do WSJ, acusa o Papa de haver acobertado um crime de pedofilia em 1979

SeloInimigo da justiça
Trombeta: Atos administrativos internos da Igreja, em torno a casos não condenados pela justiça comum, são interpretados como conivência.
Taça: Nunca ninguém fez tanto contra a pedofilia como Bento XVI: instaurou a tolerância zero quando os casos passaram a ser levados a Roma, a partir de 2001, mudando uma disciplina jurídica secular. Depois, uma vez eleito Pontífice, fez do tema uma prioridade, chegando a punir dois fundadores de projeção internacional. Foi o primeiro Papa a encontrar-se com vítimas de abuso, falou abertamente da crise em sua visita aos EUA e escreveu uma carta pastoral sem precedentes sobre o tema para a Irlanda.

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Estou farto de escrever sobre isso, mas o sinto como um dever de justiça. Para mais informações pertinentes, sugiro seguir a comunidade que montei no Facebook.
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