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20 de ago. de 2012

Livros destrutivos

Engordar, idolatrar, fornicar
A gula, a ignorância religiosa e os desejos mais primitivos.
A bizarra aventura de uma mulher recalcada que, apesar de bem-sucedida e realizada, resolveu largar tudo e viajar para o fim do mundo, só para encontrar o que poderia conseguir na esquina: gastronomia, gurus e sexo.
Escrito com ironia, humor e esperteza, o best seller é um relato sobre a importância de colocar o próprio contentamento acima das responsabilidades familiares e profissionais e ao mesmo tempo declarar-se vítima da sociedade. É um livro para qualquer pessoa sem referências, ou que pensa que qualquer merda que fizer sempre será o caminho melhor, só por ser diferente.
Aclamado pelo The New York Times como um dos 100 livros mais rentáveis de 2006 e apontado pela Entertainment Weekly uma das mais lidas obras de não-ficção do ano, Engordar, idolatrar, fornicar originou o roteiro do filme homônimo.

Na margem do rio Piedra eu sentei e…
Quem se deixa levar pela paixão é vitorioso, mesmo que traia a Deus e o mundo. A verdadeira paixão leva ao suicídio moral. Este livro trata da importância desse suicídio. Os personagens fictícios simbolizam os muitos conflitos que nos acompanham na busca da Outra Parte (não me pergunte Parte do quê). Cedo ou tarde, temos de vencer nossos medos, já que o caminho espiritual se faz através da experiência diária da luxúria. — o Autor
A obra segue a linha esotérica cuja relação com o Caminho de Santiago de Compostela ainda não foi esclarecida. É um belo panfleto panteísta e feminista, no qual o protagonista masculino é tão mal descrito que se lhe atribuem três profissões diferentes ao longo da narrativa.
O relato flui como um rio de simplicidade: certo sujeito bem intencionado, que por acaso tem o dom de curas, resolve pedir à Virgem Maria que lhe retire o dom. Seu objetivo é ficar com a garota com quem ele dormiu, embora não se saiba o que tem a ver a cama com o dom medicinal. Letras grandes, gravuras sugestivas, transa bem contada. Digna obra de um Imortal da Academia!

31 de out. de 2011

All Hallow’s Eve

Embora não seja maniqueu, acho que vale uma referência ao lado negro da força.

Em nossa cultura dark — cujo espectro vai desde festas góticas em cemitérios à literatura Harry Potter — nada nos é mais convidativo em fins de outubro do que vestir a carapuça da bruxa madrastaenquanto se ouve Evanescence, frequenta-se a lascívia de Lilit ou se assiste ao Exorcismo de Emily Rose.

Na mesma proporção que as balas de Cosme e Damião desaparecem do asfalto das cidades, as abóboras selvagens enchem os salões de festas. O mimetismo da cultura norte-americana não chega a ser transplante, mas apenas um implante, pois a peruca não cai bem na cabeça que a veste. Nada contra nem a favor. Eu gostava das festinhas do curso de inglês. Afinal, é só um carnaval fora de época.

Vou comemorar a Véspera de Todos os Santos. Mas não no dia 31, já que no Brasil Todos os Santos são transferidos para o domingo seguinte (fazer o quê: pedir ao Congresso para transferir o feriado do dia 2 para o dia 1º de novembro?). Vou comemorar a Véspera de Todos os Santos (All Hallow’s Eve, Halloween) fantasiado de zumbi. De fato, o pouco sono proporciona olheiras tão cinzentas e cavadas que assustam.

E o corvo de Santo Expedito grita CRAS! CRAS!

apólogo novamente me surpreende com o pássaro que sabe latim. Cras!, isto é, amanhã!, é o convite que faz a ave de mau agouro para perdemos a esperança no futuro com seu elixir homeopático. Quer melhor homeopatia que roubar a esperança fazendo olhar para frente?

Hoje e agora! — Do contrário, não existirá amanhã. O mal existe, e é príncipe do século presente: por isso, não adiante fechar os olhos e pensar que o futuro será lindo automaticamente.

E lembre-se: até Azazel tinha seu bode expiatório (cf. Lv 16,8-10).

5 de out. de 2011

Sexo dos anjos

Detalhe inferior da tilma de Juan Diego

Os mistérios de Guadalupe

Assisti a um documentário mexicano muito interessante sobre Guadalupe, 1531. Tem a forma de depoimento, e bons atores fazem as vezes dos entrevistados, emprestando sua voz àqueles homens que vivenciaram tão estrondoso milagre no século XVI.

Um dado que me admirou foi acerca do anjo que apareceu estampado na tilma de Juan Diego: é um varão idoso, com asas de águia, que segura com a mão direita o manto celeste da Virgem e, com a esquerda, seu róseo vestido. A razão aduzida no documentário foi a pedagogia divina.

São Juan Diego
A águia era considerada pelos aztecas ave divina, que levava o sangue dos sacrifícios humanos ao deus Sol; além disso, conta a lenda que uma águia lhes indicara onde deveria ser fundada a cidade do México. Por outro lado, a águia é o símbolo de João Evangelista, que justamente profetizou a aparição de “uma mulher revestida de Sol, com a Lua a seus pés” (Ap 12,1). “Águia que fala” é também o significado do nome indígena de Juan Diego, Cuauhtlatoatzin.

Por sua vez, o homem velho representava a sabedoria indígena. Assim, o anjo indica que a sabedoria de Deus conciliou o céu e a Terra, dando fim à guerra cósmica que tanto afligia a cultura azteca.

Íncubos e súcubos

Um íncubo apoderando-se da presa
Isso me fez considerar que os anjos costumam aparecer na Escritura de forma masculina. Mesmo na estranha interpretação literalista do relato dos Gigantes, que os entende como fruto do consórcio carnal entre anjos e homens (Gn 6,1-4), os eventuais seres celestes envolvidos eram íncubos, não súcubos. Ou seja: as mulheres eram suas vítimas.

O demônio feminino Lilit
Mas, justiça seja feita, há uma única passagem em que aparece citada uma “anja”: Lilit (Is 34,14). Seria originalmente um demônio feminino do mito assírio‑babilônico. A tradição rabínica tardia apresentou-a como a primeira mulher de Adão, anterior a Eva, madrasta dos filhos de Adão, a quem tenta matar em seus ciúmes.

Essa beldade com “perfume de enxofre” (Jó 18,15) deve ser a grande paqueradora dos homens maus.

Misandria e o masculino como norma

Quando o feminismo inflaciona, a masculinidade corre o risco de ir para o saco. Existe um sadio feminismo, mas às vezes tenho a impressão de que vivemos em tempos de misandria. Se a escalada da intolerância continuar, dizer que o normal é ser homem poderá virar crime.

Espetadas à parte, tornemos a questão do sexo dos anjos. Acredito que a representação preponderantemente masculina dos anjos tenha alguma relação com a norma bíblica de só atribuir títulos masculinos a Deus. O próprio Cristo é um homem. Embora Deus diga que, “como a mãe que acaricia os filhos, assim vou dar-vos meu carinho” (Is 66,13), por outro lado nunca é chamado “Mãe”, apenas “Pai”.

Isso não é machismo, como tentam defender certas abordagens ideológicas. Em primeiro lugar, as partes do corpo humano sempre serviram para caracterizar os sentimentos. Assim, os úberes, o seio, as entranhas, o regaço femininos representam a misericórdia. Por isso essas partes podem ser usadas para descrever analogicamente as atitudes de Deus para com os seres humanos.

Quanto à representação varonil de Deus, é uma forma de evitar o risco de sua assimilação às divindades telúricas. Vale citar a explicação de Bento XVI (Jesus de Nazaré, págs. 130-1):

“Naturalmente, Deus não é nem homem nem mulher (…). As divindades maternas (…) mostram uma imagem da relação entre Deus e o mundo que é inteiramente oposta à imagem bíblica de Deus. Elas incluem sempre, e mesmo inevitavelmente, concepções panteístas, nas quais desaparece a distinção entre o Criador e a criatura. O ser das coisas e dos homens aparece deste ponto de partida necessariamente como uma emanação do seio materno do ser, o qual se temporaliza na pluralidade dos entes.

“Em contraste com esta concepção, a imagem do pai era e é adequada para exprimir a alteridade entre Criador e criatura, a soberania do ato criador. Somente por meio da exclusão das divindades maternas podia o Antigo Testamento levar à maturidade a sua imagem de Deus, a pura transcendência de Deus.”

2 de jun. de 2011

A mulher, paradoxo e esperança


Nenhum premiado as acusou ainda de imorais,
como ninguém tachou de má a boceta de Pandora,
por lhe ter ficado a esperança no fundo;
em alguma parte há de ela ficar.
(…)
Quando a loteria e Pandora me aborrecem,
ergo os olhos para eles,
e esqueço os bilhetes brancos e a boceta fatídica.
(Machado de Assis, Dom Casmurro, capítulo 7)

A sedução do fogo

Ao lado da figura de Lilit (mulher como mera “invenção”), também é útil recordar a descrição que Hesíodo faz de Pandora, a fim de tentar realizar uma mínima demarcação a alma feminina.

O poeta grego estabelece o tecido labiríntico da existência humana sob o signo da ambiguidade. Mais do que outra máscara da mulher, Pandora é, em si mesma, o “belo mal” (καλὸν κακόν· Teogonia, 585), uma fantasia criada pelos deuses para ser presenteada aos homens (παν-δωρα: todos os dons). As deusas a instruem e adornam: Atena com as lides domésticas, Afrodite com o desejo devorador.

Prometeu roubara o fogo dos deuses e o entregara aos homens. Às tramas e rapinas de Prometeu, Zeus respondeu com um presente de grego: a mulher. Substituta do fogo natural, a mulher é compreendida por Hesíodo como a cultura em lugar da natureza. É o preço do fogo.

A mulher é um paradoxo porquanto imitação do já existente. Ambígua, porque ao mesmo tempo frustra e presenteia. Deleuze diz que a mulher é um simulacro no sentido de que põe em questão as noções de cópia e de modelo.

A sedução da palavra

Por sua aparição é que os homens se tornam varões. E pelo artifício sedutor da fala articulada (αὐδέν), dom de Hefesto à mulher, fica substituída a linguagem expressiva (φονέν):

πατὴρ ἀνδρῶν τε θεῶν τε·
Ἥφαιστον δ' ἐκέλευσε περικλυτὸν ὅττι τάχιστα
γαῖαν ὕδει φύρειν, ἐν δ' ἀνθρώπου θέμεν αὐδὴν
καὶ σθένος, ἀθανάτῃς δὲ θεῇς εἰς ὦπα ἐίσκειν
παρθενικῆς καλὸν εἶδος ἐπήρατον·

…o pai dos homens e dos deuses
ordenou então ao ínclito Hefesto muito velozmente
terra à água misturar e aí pôr humana voz
[αὐδέν] e
força, e assemelhar de rosto às deusas imortais
esta bela e deleitável forma de virgem…
(Os Trabalhos e os Dias, 59-63).

A sedução do futuro

A esperança é desnecessária aos deuses imortais, assim como aos animais, que se ignoram mortais. Para os homens, contudo, constitui alento nos trabalhos. Ora, restou na caixa de Pandora apenas a esperança (ἐλπίς) que, porém, também é ambígua, pois os homens podem errar no que esperam.


O homem, na sucessão dos dias, tem muitas esperanças — menores ou maiores — distintas nos diversos períodos da sua vida. Às vezes pode parecer que uma destas esperanças o satisfaça totalmente, sem ter necessidade de outras. Na juventude, pode ser a esperança do grande e fagueiro amor; a esperança de uma certa posição na profissão, deste ou daquele sucesso determinante para o resto da vida. Mas quando estas esperanças se realizam, resulta com clareza que na realidade, isso não era a totalidade. Torna-se evidente que o homem necessita de uma esperança que vá mais além. Vê-se que só algo de infinito lhe pode bastar, algo que será sempre mais do que aquilo que ele alguma vez possa alcançar. Neste sentido, a época moderna desenvolveu a esperança da instauração de um mundo perfeito que, graças aos conhecimentos da ciência e a uma política cientificamente fundada, parecia tornar-se realizável. Assim, a esperança bíblica do reino de Deus foi substituída pela esperança do reino do homem, pela esperança de um mundo melhor que seria o verdadeiro «reino de Deus». Esta parecia finalmente a esperança grande e realista de que o homem necessita. Estava em condições de mobilizar — por um certo tempo — todas as energias do homem; o grande objetivo parecia merecedor de todo o esforço. Mas, com o passar do tempo fica claro que esta esperança escapa sempre para mais longe. Primeiro deram-se conta de que esta era talvez uma esperança para os homens de amanhã, mas não uma esperança para mim. E, embora o elemento « para todos » faça parte da grande esperança — com efeito, não posso ser feliz contra e sem os demais — o certo é que uma esperança que não me diga respeito a mim pessoalmente não é sequer uma verdadeira esperança. E tornou-se evidente que esta era uma esperança contra a liberdade, porque a situação das realidades humanas depende em cada geração novamente da livre decisão dos homens que dela fazem parte. Se esta liberdade, por causa das condições e das estruturas, lhes fosse tirada, o mundo, em última análise, não seria bom, porque um mundo sem liberdade não é de forma alguma um mundo bom. Deste modo, apesar de ser necessário um contínuo esforço pelo melhoramento do mundo, o mundo melhor de amanhã não pode ser o conteúdo próprio e suficiente da nossa esperança. E, sempre a este respeito, pergunta-se: Quando é «melhor» o mundo? O que é que o torna bom? Com qual critério se pode avaliar o seu ser bom? E por quais caminhos se pode alcançar esta «bondade»?

(Bento XVI, Spe salvi, n.º 30)

10 de out. de 2010

Curtos contos da Bruxa Madrasta


Mogli, o menino lobo, aprendeu a uivar. Olhou para a Lua e ntoou:

— Bééééééééé!

*****

Rapunzel deitou seu cabelo pela janela, para que seu amado pudesse subir por ele. Este, porém, era tão pesado que arrancou-lhe o couro cabeludo e caiu de 15 metros de altura, espatifando-se contra as pontas da grade do castelo.

*****

No meio dos patinhos recém-nascidos apareceu um bicho desengonçado. Era tão feio que a pata o rechaçou.

Buscou abrigo sucessivamente numa cozinha, numa pocilga, num estábulo, em tocas, etc., mas todos os anteriores habitantes desses lugares exclamavam:

— Que bicho feio!

Por fim, encontrou-se com belíssimos cisnes que deslizavam num lindo lago espelhado. Quando o viram se aproximar, berraram em uníssono:

— Que bicho feio!

*****

Joãozinho estava paupérrimo. Como não tivesse mais o que comer, pensou em vender a própria vaca. Aparentemente, foi ludibriado por um homem que lhe propôs trocar a leiteira por cinco feijões mágicos.

Como a fome era negra, pegou nos feijões e fez um caldo, traçando-os naquela mesma noite.

Talvez porque seja pesado comer feijão à noite, teve muita dificuldade em conciliar o sono. Mas enfim adormeceu.

No meio da noite, Joãozinho acordou sem ar: saía-lhe pela boca um enorme troco de feijão, tão grande que ia até o céu.

*****

Dizem que Ariel, a Pequena Sereia, morreu quando virou espuma. Mas a verdade é que ela contaminou o mar e matou intoxicados um monte de banhistas.

*****

Alice estava sentada junto a uma árvore. Colheu um cogumelo e comeu-o. Começou a ver coisas e a delirar. Seu surto psicótico iniciou por ver um coelho falante que usava relógio.

22 de set. de 2010

Os três porcões

Era uma vez, três: Fifer Pig, Fiddler Pig e Edmund Pig. Em português, Cícero, Heitor e Homero. Eles eram uns porcalhões. O primeiro não tomava banho, o outro não lavava as orelhas e o último vivia com o dedo na tomada. Como sua tomada era conforme as Normas Técnicas Brasileiras, Homero também recebia o apelido de Porco Prático. 

Cícero era colérico: construiu para si uma casa de palha, bem mequetrefe. Tomava suas refeições em mesa forrada com toalha de plástico. Para a bebida, usava copo de requeijão.

Heitor era luxurioso: edificou uma casa de madeira, cheia de lambris, toda bonitona. Ele se achava o parafuso e dava em cima de todas as porcas.

Prático era avarento: levantou uma casa de tijolos, em estilo inglês, que era, na verdade, um bunker. Ali guardava suas alfarrobas sob sete chaves.

Um dia, pintou na área o Lobo Mau. Ele estava resfriado, espirrando fora do lenço. Vendo a casa de palha do Cícero, resolveu arriscar:

— Vou soprar para derrubar sua casa e comer você!

Mas Cícero cantava:

— Quem tem medo do Lobo Mau, Lobo Mau, Lobo Mau?

Enchendo o peito, mediante um grande assopro o Lobo Mau deitou por terra a construção!

Cícero, contudo, teve tempo de fugir para a casa de madeira do Heitor. O Lobo, animado com o sucesso anterior, resolveu também soprar sobre essa.

— Vou soprar para derrubar sua casa e comer vocês!

Mas Cícero e Heitor cantavam:

— Quem tem medo do Lobo Mau, Lobo Mau, Lobo Mau?

Enchendo o peito, mediante um grande assopro o Lobo Mau deitou por terra a construção!

Cícero e Heitor, contudo, tiveram tempo de fugir para a casa de tijolos do Porco Prático. O Lobo, animado com os sucessos anteriores, resolveu também soprar sobre essa.

— Vou soprar para derrubar sua casa e comer vocês!

Mas Cícero, Heitor e Prático cantavam:

— Quem tem medo do Lobo Mau, Lobo Mau, Lobo Mau?

Enchendo o peito, mediante um grande assopro o Lobo Mau deitou por terra a construção e os matou a todos soterrados!

*****

Por isso o leão vem da selva atacá-los, o lobo da estepe acaba com eles, de tocaia, a pantera vigia as cidades:
quem quer que delas saia, é estraçalhado; pois multiplicaram as transgressões, reforçaram as rebeldias.
Jr 5,6

Eis da subida quase ao mesmo instante
Assoma ágil e rápida pantera
Tendo a pele por malhas cambiante.

(…)
De um leão de repente surge o aspecto,
Que ao meu peito o pavor de novo lança.
(…)
Eis surge loba, que de magra espanta;
De ambições todas parecia cheia;
Foi causa a muitos de miséria tanta!
Dante Alighieri, Divina Comédia, Inferno, I, 31-33, 44, 45, 49-51

13 de set. de 2010

Gaudério Tareco vira abóbora


Quando Gaudério começou a trabalhar, teve de lidar com um problema para ele novo até então: seu chefe gostava de lhe passar tarefas extensas e importantes no fim do expediente e, especialmente nas sextas-feiras.

— Chefe, não dá, porque depois de certo horário eu viro abóbora.

É óbvio que ele não se considerava a Cinderela, mas mesmo uma abóbora tem a sua dignidade.

Ah, aqueles tempos juvenis! Em que Gaudério podia deliciar-se com os contos de fadas… Se não os lera diretamente da pena de Charles Perrot ou dos livros de Andersen, pelo menos os ouvira nos antigos disquinhos de vinil cuja narração e sonoplastia excitavam-lhe a imaginação.

Princesas e dragões, bruxas e piratas, fadas e valorosos companheiros. — Existem de verdade? Ou só há gordas e chefes, sogras e assaltantes, pedaços de mal caminho e invejosos?

Gaudério riu-se ao lembrar dos “Contos da Bruxa Madrasta” que ele mesmo escrevera nos tempos da adolescência. Talvez tivesse estado influenciado pela sanha demolidora dos que diziam Tiradentes não ser herói, ou Cabral não ser descobridor, ou Dom Pedro ter feito nossa Independência por causa de uma diarreia.

Os “Contos” eram prefaciados por uma explicação “científica”, inspirada nos dados aprendidos do seu professor de História do Brasil: as princesas eram banguelas porque naquele tempo não havia dentifrício.

Como tive a oportunidade de ler tal caderno de “Contos”, farei questão de transcrever alguns aqui. Por enquanto, porém, retornemos às gentes de carne e osso.

Gaudério conseguiu desvencilhar-se do chefe para voltar para casa antes de virar abóbora. No caminho do metrô, viu uma cena curiosa: um rapaz simpático, magro, de mediana estatura, andava de mãos dadas com uma mulher. Todos olhavam para ele. Das calçadas, das janelas dos ônibus, dos bares. Olhavam para ele, e não para o mulherão que ele puxava pela mão. A mulata alta, de cabelo alisado, acastanhado e esvoaçante, reclamava de algo que ele, todo faceiro, parecia desconsiderar enquanto a arrastava com um simples puxão de mão. Nos olhos de todos uma pergunta se patenteava: — O que esse cara de fuínha tem para ela gostar dele?

Gaudério entrou no metrô. Começou a escutar o diálogo entre duas empregadas atrás de si, que metiam o malho nas respectivas patroas:

— Fritei umas batatas. Costumo deixar a frigideira esfriando no forno antes de limpá-la. Só que na sexta-feira esqueci a frigideira lá. A dona resolveu esquentar uma pizza no sábado e deu com a frigideira! Hoje a velha me chamou e disse: “Você costumava ser mais dedicada, mais atenta. O que aconteceu com você? Quero que lave tudinho!”

— Pois a minha patroa tem mania de limpeza. Quando morrer, a terra vai comer o nariz dela, porque sente cheiro de gordura em toda parte. Não é que veio me perguntar se eu usei pano engordurado para limpar o quarto dela? Vive falando de higiene. Será que pensam que a gente é suja só porque é pobre?

Faltava pouco para o trem fechar as portas e partir. Nova cena curiosa. Surgem quatro adolescentes. As duas gurias não eram de se jogar fora, mas os dois rapazes que as acompanhavam eram espécimes raros. Para começar, a indumentária carecia tanto de elegância quanto de virilidade. Ao cabelo faltavam tanto alinho quanto masculinidade. Por fim, o porte não era ereto nem decidido. Quando o metrô apitou, os quatro saíram correndo como se tivessem esquecido de saltar na estação. A situação era definitivamente bizarra, pois ali era o ponto final. O que dizer de tudo isso? Que as princesinhas se faziam de rainhas e os mocinhos bancavam dançarinas de cancã. Triste época em que se tem orgulho de renunciar ao próprio gênero e vergonha de portar-se conforme a idade.

Mas Gaudério estava cansado da labuta e desconsiderou essa turminha que mais parecia um grupo de hobbits saídos dos livros de Tolkien.

O metrô partiu. E ele virou abóbora.

11 de nov. de 2009

Quem é a Fake-Doll?

Uma mulher antes de Eva
Do folclore para arte e da arte para o comportamento, Lilit foi o leitmotiv de certo tipo de feministas.
Uma tardia tradição judaica personificou a mulher “libertada” na súcubo Lilit, primeira esposa de Adão, rival de Eva que lhe busca a morte dos filhos. Este demônio feminino do mito assírio‑babilônico, perfumado a enxofre, é companhia merecida dos homens maus. Estranha composição de repulsa e atração, desejo e fatalismo.
Vêmo-la em forma ofídica na Capela Sistina propiciando a primeira tentação. Descobrimos referências veladas a Lilit em obras como Nárnia (a feiticeira Branca) ou mesmo reconhecêmo-la com clareza nas descrições da poesia decadente de Alphonsus de Guimaraens (Succubus):


Às vezes, alta noite, ergo em meio da cama
O meu vulto de espectro, a alma em sangue, os cabelos
Hirtos, o torvo olhar como raso de lama,
Sob o tropel de um batalhão de pesadelos.
Pelo meu corpo todo uma Fúria de chama
Enrosca-se, prendendo-o em satânicos elos:
— Vai-te Demônio encantador, Demônio ou Dama,
Loira Fidalga infiel dos infernais Castelos!
Como um danado em raiva horrenda, clamo e rujo:
Hausto por hausto aspiro um ar de enxofre: tento
Erguer a voz, e como um réptil escabujo.
— Quem quer que sejas, vai-te, ó tu que assim me assombras!
Acordo: o céu, lá fora, abre o olhar sonolento,
Cheio da compunção dos luares e das sombras.
A mulher telúrica
É bastante conhecida a constante religiosa segundo a qual a Terra é a “mãe dos viventes” (Eclo 40,1). O paralelismo bíblico entre o ventre materno e o seio da Terra encontra complemento na percepção das divindades celestes como masculinas fertilizadoras. Daí que a mulher venha a exceler um caráter mais telúrico que o homem.
Mulher é terra incógnita. Donde lhe vem a capacidade de ser companheira, apoio e segurança? Sendo frágil, tem o dom e a felicidade de dividir a vida e participar de tudo. Auxílio necessário, mesmo para a pessoa amadurecida, possui sensibilidade e compreensão para aprofundar em assuntos que lhe são desconhecidos.
Mulher é terreno bravio. Seu risco é passar do espírito materno à possessão, da asserção à agressão, do auxílio à dominação. Ao encantar, confunde-se; ao confundir, duplica-se, ao abraçar o mundo, espartilha-se. Sendo pura receptora, carece de interpretação. Mas os homens gostam de tudo analisar.
Mulher é terra, não mapa. Não se entende, nem interpreta, nem traduz. Não deseja, mas realiza o desejo alheio.
A radicalização da imagem telúrica, a falta de inteligência de alguns pensadores e o fascínio contemporâneo pela heterodoxia estão na origem de um discurso hoje bastante recorrente: a mulher como mera invenção. O artifício feminino de dissipar e atenuar, por maquillage, pode se tornar disfarce da própria negação da natureza.
O que há antes do homem
Contudo, que consistência metafísica pode haver em assumir como valor a groundlessness humana, para usar a expressão de David Loy? Para este filósofo zen, groundlessness é a intuição de uma falta de base, a constante sensação de haver algo de errado em cada um, a amarga convicção de se ter agido mal.
A solução proposta por Loy é abdicar dos limites, por ele identificados com o mal. Daí que ele afirme: “quando eu paro de tentar me tornar algo, eu descubro que sou tudo”. A ausência de qualquer natureza presentearia a humanidade com uma liberdade radical: a possibilidade de se tornar qualquer coisa.
David Loy é apenas mais um elo da corrente que nasceu com Protágoras (πάντων μέτρον ντρωπος· “o homem é a medida de todas as coisas”), passando por Pico Della Mirandola, Maquiavel, Bacon, Locke, Nietzsche, etc. Todos esses pensadores, na ânsia de emancipar o homem, foram abolindo o conceito de natureza.
A libertação consistiria em retirar a vergonha dos desejos, em criar uma mente estritamente positiva. A suspensão da vergonha de certos desejos e a supressão de princípios universais para aproveitar-se de condições particulares prometem libertar a mente dos limites da natureza. Pois, para uma liberdade inflacionada, a concretização do real é um “não” que parece limitar a identidade.
Fake-Doll: a mulher artificial
O homem e a mulher que ingressem nesse caminho impraticável e escarpado de aventuras, riscos e impressões, que parece diluir a natureza, cairá na dependência. A relação cifrada no êxtase cria uma consulta gestual ininterrupta, faz o diálogo refém, embota a mente, produz sofisma. O amor pede uma postura ativa: somos co-autores (não vítimas) de tudo o que nos acontece.
Referindo-se ao amor cortês em carta ao filho que se aproximava do matrimônio, Tolkien alertava: ¨Meu filho, a mulher não é uma deusa. Ela é uma companheira de naufrágio¨. Ora, a “deusa boneca” romântica torna-se aqui um demônio que falsamente se apresenta como inofensivo e libertador.
Máscara ao contrário: o mal começa com a mentira. Assim impõe-se a lei do mais forte, que pode definir sua própria verdade e obrigá-la aos demais.

Dona Sofia, você é a Fake-Doll?

Copiei de uma anônima: “Não me envergonho de ser boazinha. Não ligo se sou certinha demais. Mas parece que tem gente que se importa com isso e quer me fazer mudar de qualquer jeito”.

Por enquanto só gerei entrelinhas. Falar da Eva fica para depois.
Enquanto isso, conto com sua opinião a respeito do já dito!
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