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28 de abr. de 2014

O triunfo das três feras

Freud, Marx e Nietszche são os três “mestres da suspeita”, na expressão de Paul Ricouer. Simbolizam a concupiscência da carne, a concupiscência dos olhos e soberba da vida (cf. 1Jo 2,16), e assemelham-se às três feras que acossavam Dante na Divina Comédia: a pantera sensual, o lobo rapace e o leão orgulhoso (cf. Inferno, I, 31-60).

Terão triunfado? Ou apenas souberam exprimir o que o homem caído de todas as épocas concebeu no seu coração ferido? Sem dúvida, não fazem uma descrição da realidade, mas elegem uma dimensão humana (o sexo, a economia, o poder) como razão de transformação da realidade.

As ideias desses pensadores podem conter muita “lógica”, mas são tão “dogmáticas” quanto qualquer fideísmo. Em comum, racionalistas e fideístas afirmam que o mundo não é razoável, que o ser é caótico, que o seu sentido nós é que projetamos e plasmamos. Com efeito, Kant, em sua Crítica da Razão Pura, afirma que o ser em si é fundamentalmente não racional. Portanto, qualquer tentativa de filosofar (a nível verdadeiramente metafísico) conduziria a erros e criaria ídolos.

Daí que a metafísica tenha sido banida das escolas de filosofia, abandonada em prol de questões fragmentárias, substituída por fenomenologia, hermenêutica de textos ou análise crítica da linguagem.

Karl Barth
Daí também que o protestantismo tenha renunciado à filosofia clássica. Um de seus maiores expoentes, Karl Barth, chega a afirmar que a razão pela qual estaria errado ser católico é a aceitação da tese metafísica da analogia do ser. Para ele, qualquer analogia entre o ser divino e o ser criado seria uma falsificação de Deus.

Por isso é que o protestantismo resgatou a iconoclastia, aquela heresia empoeirada do século IX que proibia o culto de imagens. A iconoclastia protestante ataca não o gesso das estátuas, mas o simulacro de Deus que indubitavelmente conduziria o homem à idolatria. Como um namorado que fosse trocar sua namorada por uma fotografia dela.

***

A fé verdadeira exige a razão, pois a racionalidade é constitutiva do ser. Ao mesmo tempo, a razão saudável precisa do suprassensível, do transcendente, pois a verdade nos abre para algo que nos precede e nos liberta do nosso “eu” pequeno e limitado, aferrado a meras certezas, garantias e utilidades.

4 de ago. de 2013

3,7 milhões contra 370 paspalhos

Diz-se que, durante a II Guerra, instituições católicas deram guarida tanto a judeus fugitivos quanto a nazistas foragidos. A visão nietzschiana o explica como mais uma manifestação dessa fraqueza de caráter dos cristãos, que se chama caridade.

Todo mundo simpatiza com quem é fraquinho. Haveria nisso algo de sadismo? Ou um toque de oportunismo? Não importa. O que é surpreendente é o ódio com que a Cruz foi tratada por anarcofeministas e assemelhados durante a JMJ.

Surpreende em parte. Afinal, diante da realidade de um cristianismo viável, forte, revolucionário, jovem, comprometido, não há ideologia que aguente.

Além disso, ficou patente que a força nietzschiana do Anticristo leva, unicamente, à autodestruição dos seus adeptos.

Certo amigo costuma distinguir entre o nietzschianismo hard dos nazistas, praticado nos campos de concentração, e o nietzschianismo difuso e adocicado, dos que somente anestesiam seu senso moral e colocam a autorrealização como supremo ideal. Contudo, se àqueles se tributa rechaço público, muita gente ingenuamente vem saindo em defesa desses últimos.

Ora, não é possível viver bem pensando só no próprio umbigo e desfazendo-se de todos os compromissos. É forçoso reconhecer que cultivar tal mentalidade apenas conduz à ruína da sociedade e à corrupção de todas as relações humanas.

10 de nov. de 2012

Três remédios contra o indiferentismo

Outro tema relevante para o atual diálogo entre crentes e descrentes é o desafio ético do indiferentismo.

O niilismo morre quando mata seu inimigo

O pessimismo de Schopenhauer é tão devedor de raízes cristãs quanto o niilismo dos espíritos fortes de Nietzsche.

Ora, quando o niilismo tornou o mundo pós-cristão, o niilismo também tornou o mundo pós-niilista. De fato, desde então o mundo tornou-se indiferente, tanto para o cristianismo quanto para o niilismo.

O indiferentismo pós-moderno é o pleonasmo da negação, o paradoxo da vertigem. Num ambiente indiferente, o inimigo não tem rosto. Como lutar contra a “secularização” ou o “preconceito”?

Dizia Nietzsche: “Um niilista é uma pessoa para quem o mundo, tal como é, não deveria existir, e para quem o mundo, tal como deveria ser, não existe” (cf. Werke. Kritische Gesamtausgabe, VII/2, 30). — Troque-se “niilista” por “cristão” que a frase continua fazendo sentido: “Um cristão é uma pessoa para quem o mundo, tal como é, não deveria existir, e para quem o mundo, tal como deveria ser, não existe”.

Troque-se na mesma frase “niilista” por “indiferente” ou por “homem pós-moderno”, que a afirmação carecerá de lógica.

Novas bases

Nesse contexto, a única solução para o cristianismo é reelaborar as bases culturais. Reciclar sua capacidade de formular e reciclar a capacidade de entenderem a verdade do homem redimido por Cristo.

Tal tarefa se divide em três frentes:

1) É uma tarefa intelectual, que exige que se explique a barafunda filosófica que cresceu como um câncer desde a Reforma protestante.

2) É uma tarefa pastoral, que visa a reduzir a fratura entre vida de fé e vida em sociedade. Filé-mignon da nova evangelização.

3) É uma tarefa moral, que procura recuperar para o homem atual os esquecidos conceitos de pecado e de imagem de Deus. Reconquistar a verdade sobre si e a verdade sobre nosso destino.

***

Lembre-se: é preciso encarar a cultura mais como campo de batalha do que como mero contexto.
Você está nessa luta?

25 de mai. de 2012

Masters of disaster

Li, mas não suportei, o seguinte elenco de vacas sagradas:

Quintana, o poeta. Almodóvar, o cineasta, pois joga na cara da sociedade tudo o q acontece na realidade e ela esconde hipocritamente. Nietzsche, o filósofo. Maquiavel, o pensador. Clarice e Nelson Rodrigues estão no time. Shakespeare é um emocionalmente afetado.

Acabei contestando:


Shakespeare não pode ser água com açúcar, pois tudo nele é escatológico. Em cada ato, em cada gesto, joga-se a vida. Além disso, muito provavelmente Quintana não é o maior poeta brasileiro.

Mas essa história de jogar na “cara da sociedade sua hipocrisia” é uma bela desculpa para a grosseria. Quem disse que a sociedade como um todo é hipócrita? Por que ninguém disse ainda que Almodovar joga na cara das pessoas suas próprias mazelas?

7 de mai. de 2012

Meu tweet mais sincero

A leitura do que se posta no Twitter daria uma pela tese de doutorado, como registro espontâneo do pensamento de uma parcela da população que, se não é relevante por seu número, destaca-se por pertencer àquilo que é considerado elite intelectual.

Não pretendo entrar no mérito das “bios” (a breve descrição que o twitteiro faz de si), em que aparecem afirmações tão indefinidas, lacônicas ou desestimulantes quanto “sou uma incógnita — vivo em perpétua mutação — alguém que ama a vida”.

Restrinjo-me tão somente a algumas frases que me surpreendem, sem fazer referência a seus autores, como mote para as presentes considerações. Naturalmente, sofrerão de forte viés pois cinjo-me às pessoas que sigo; por outro lado, não devem ser injustamente generalizadas.

Vira e mexe, deparo-me com frases do tipo: “basta ter fé na vida” — como se a vida resolvesse as coisas por sua conta. Ou então, numa troca de impressões entre pessoas cujo comportamento não é dos mais exemplares: “mantenha seu coração puro”.

Finalmente, há quem demonstre leitura mas faça alarde de vacas sagradas da indústria cultural (Almodóvar, Nietzsche, etc.), atribuindo-lhes o mérito de terem denunciado a hipocrisia da sociedade. Grande generalização, pois essas denúncias são aplicáveis aos hipócritas, não à sociedade como um todo. Além disso, com o que contribuíram esses autores para melhorar o nosso mundo?

Convenhamos que tais afirmações padecem de uma estranha enfermidade intelectual, assaz contagiosa: quem lê ou ouve essas singelas declarações tende a aceitá-las, sem perceber sua falácia. Não digo que haja má intenção em quem as fale, mas sim que falte profundidade, coerência e substância.

Solução? Leitura, leitura, leitura. De livros sim, não do Twitter.

Qual foi o seu tweet mais sincero?

19 de abr. de 2012

A ouvido fechado, palavra aberta

Transcrevo trechos de uma mensagem que enviei a uma pessoa cheia de dúvidas, mas que não as resolve porque reluta em conservar seu ceticismo como um troféu.

É que ainda acredito ser possível o diálogo com quem começa a conversa dizendo que nunca vai mudar de ideia.


*****

É evidente que, se digo algo, é porque penso que posso contribuir com algo para sua vida, assim como quando você me diz algo é que quer compartilhar comigo suas convicções. Não é questão de um converter o outro. A conversão, que é um desandar o caminho andado na contramão, necessita de um meia-volta-volver que só Deus pode conceder àqueles que se dispõem a procurá-lo.

Tenho a convicção de que as atuais acusações, feitas à religião em geral (e ao Cristianismo em particular), procedem em grande parte de uma reação crítica ao protestantismo. Por exemplo: chamar os islâmicos de fundamentalistas é uma impropriedade, pois o “fundamentalismo” foi uma seita protestante americana do início do século XX.

Na mesma linha, como os pseudointelectuais de hoje desconhecem a existência de filosofia antes de Kant, é bastante comum que confundam a autêntica moral cristã das bem-aventuranças com sua versão (reduzida, protestante e kantiana) dos imperativos categóricos: daí que Nietzsche se insurja, com acerto, contra uma "moral de escravos". Mas o filósofo, apesar do bom faro, errou sua pontaria…

Explico de outro modo. A moral cristã não pretende simplesmente moldar bons cidadãos: isso é muito pouco. Também não é um código de prescrições: o mero sentido do dever não arrasta ninguém.

O Estado — ainda vale a pena falar dele? afinal, estamos entrando na era pós-estatal —, o Estado gosta é da religião gnóstica e alienante, que não leva seus adeptos a atuarem socialmente em conformidade com seu credo. A gnose é religião privada, sem repercussão pública. Mas uma ação social contundente incomoda a ordem constituída. Convenhamos: a reforma deve ser o estado habitual das coisas, pois cada geração precisa assumir a situação herdada, o que não se faz sem contribuir com sua própria visão. Repare que não estou propondo que se renegue a tradição, mas que ela seja acolhida criticamente por cada geração.

Todo este assunto é muito complexo e não pretendo fazer aqui um tratado. Apenas quis frisar uns pontos para compartilhar com você meu pensamento. Já escrevi sobre alguns desses pontos e deixei algumas aulas em http://audio.narajr.net/. Confesso que, do jeito que trato esses temas, pode ser uma verdadeira indigestão. Mas é o que tenho para falar.

Por que sou católico? Acho que a resposta é simples. É a mesma que deu São Pedro no ponto de inflexão da pregação de Cristo. Você deve se lembrar que, depois de Jesus anunciar que instituiria a Eucaristia, “muitos discípulos o abandonaram e não mais andavam com ele” (Jo 6,66). Então ele se dirigiu aos próprios Apóstolos e lhes propôs que eles fossem embora também. Mas Pedro respondeu: “A quem iremos, Senhor? Só tu tens palavras de vida eterna” (Jo 6,68).

Faço minhas as palavras dele: A quem irei? A Maomé? A Lutero? A Alan Kardec? A Kant? A Marx? A Freud? A Nietzsche? A Marcuse? A Foucault? A Derrida?…

*****

Deixe-me agora lhe fazer umas perguntas:

A quem você procurou? A quem você pretende ir?

1 de abr. de 2012

Soluções de longo, médio e curto prazos

Vira e mexe algum amigo se queixa da péssima educação, dos preconceitos, da intolerância laicista e dos maus bofes.

São questões como: Por que sendo o Brasil um país católico, recebe tão pouca acolhida um filme como Homens e Deuses, sobre os mártires da Argélia (vencedor do Grande Prêmio do Júri no Festival de Cannes em 2010)? Por que o incrível pontificado de Bento XVI recebe tão pífia cobertura jornalística? Por que todo mundo se abstém de carne na Sexta-feira Santa mas quebra o jejum prescrito com um lauto banquete de bacalhau?

Sábado à noite, quando a cabeça já não funcionava direito, veio-me à cabeça uma resposta que tentarei transcrever abaixo. Acho que o amigo que me ouvia (conhecido de outras postagens) ficou satisfeito e espero que lhe seja igualmente útil, independentemente do credo que você professe.

Três armadilhas

É óbvio que essa cristalização na ignorância provém de um longo processo cultural.

Em primeiro lugar, foram sendo acumulados sufocantes sedimentos ideológicos sobre a filosofia cristã, que é nossa matriz cultural originária, estabelecida em solo brasileiro pelos jesuítas. Tais ideologias foram o cientificismo materialista da reforma de Pombal, o liberalismo do século XIX, o materialismo evolucionista da Escola do Recife e o positivismo.

Ainda se poderia acrescentar, em período mais recente, o câncer deletério de Teilhard de Chardin e do marxismo, que afetou a própria teologia.

Em segundo lugar, no batalhão de intelectuais brasileiros (médicos, advogados e assemelhados com nível superior) encontram-se poucas inteligências. Por isso, nossos atuais “clerks” (“clérigos”, letrados, homens de escol, elite acadêmica) não passam de eternos estudantes especializados em investigações sem resposta. Muitos dos assim chamados pensadores brasileiros são meros repetidores enfadonhos de ideias importadas.

Em último lugar, crescemos achando que aprendizado é treino, que ter dúvidas é feio e que estudar é chato. O mapa da ignorância superior brasileira é proporcional às dimensões do país. Para dizer que o Brasil tem problema de memória, é preciso afirmar que antes tenha tentado decorar alguma coisa.

Solução de longo prazo

Para séculos de secularização e engodos filosóficos, serão necessárias algumas gerações aplicadas à reformulação intelectual do país. Esse será um projeto de longo prazo.

Virtude aplicável? Longanimidade. Para longos projetos, início imediato!

Solução de médio prazo

A renovação do quadro docente não se faz da noite para o dia. Enquanto não se formam novos professores desintoxicados, o campo continuará a ser arado pelos bois que leram Marcuse, Jacques Derrida, Nietzsche, Foucault, Simone de Beauvoir, etc.

Enquanto isso, resta-nos obstaculizar democraticamente os projetos nascidos dos juristas (mormente gaúchos) deformados pelo direito criativo aprendido na faculdade.

Solução de curto prazo

Estudar. Estudar. Estudar.

Não há outra fórmula para libertar-se da paralisia intelectual. Questão de tempo, questão de dedicação, questão de prioridade.

*****

E a você? Que temas o espicaçam? O que você tem estudado?

25 de abr. de 2011

Como o homem se libertou da natureza


Existe lógica na natureza?

O pensamento clássico afirma que natureza é portadora de uma mensagem ética para o homem, que a natureza constitui uma norma moral implícita.

Tal visão de mundo, da que nasceu a ideia de lei natural, pressupõe a existência de uma harmonia entre Deus, o homem e a natureza. O mundo é visto como um todo inteligível, unificado por um logos divino.

Para o Cristianismo, porém, esse logos não é impessoal (como para o estoicismo, por exemplo). Pelo contrário, é uma Pessoa divina, que se fez homem: Jesus Cristo.

Rebeldia moderna

Essas concepções perderam preeminência cultural desde fins da Idade Média. Deixando a natureza de ser vista como norma, a moralidade divorciou-se da estrutura do ser. Daí que David Hume acuse a tentativa de passagem da metafísica para a moral de naturalistic fallacy (paralogismo naturalista).

A derrocada se deu em duas vertentes: a teórica e a prática. Do ponto de vista teórico, depois de São Tomás de Aquino ter apresentado o ser como analógico e não unívoco, Guilherme de Ockham radicalizou a negação da sua univocidade: reduziu o universo à mera justaposição e qualificou de ilusão linguística seu pretenso logos (nominalismo).

Desde a perspectiva prática, o crescimento do voluntarismo consolidou a ὕβρις (insolência, supremo vício para os gregos) como princípio de ação. Pensadores como Pico della Mirandola, Maquiavel, Hobbes, Locke e Nietzsche desenvolveram largamente a tese de Protágoras (o homem como medida de todas as coisas).


Em seguida, veremos algumas consequências dessa dinâmica.

12 de dez. de 2010

Bendita gravidez



Agradeceria que, primeiro, você assistisse ao vídeo abaixo. É claro que Maria não contaria a José acerca de sua gravidez por e-mail. De qualquer forma, isso está condizente no contexto dessa brincadeira.



Saltou-me à vista que fosse apresentada Maria informando a gravidez para José. Particularmente, penso que foi o que de fato ocorreu, embora seja mais comum dizerem o contrário. Diversos autores reconhecidos afirmam que Maria, em sua humildade e discrição, não teria informado seu noivo sobre a embaixada do anjo e que José teria ficado alarmado ao vê-la retornar da casa de Isabel com uma barriga de três meses.

Tais autores costumam dizer que José sabia que Maria tinha feito um voto de virgindade e não duvidou em momento algum da integridade de sua noiva. Contudo, decidiu abandoná-la nessa ocasião, já que teria percebido na gravidez a ação de Deus e não se sentia chamado a implicar-se no caso.

Essa explicação pode ser piedosa e tradicional, mas me soa inverossímil. Não me parecem prováveis nem o silêncio de Maria, nem seu voto, nem os motivos alegados para a perplexidade de José. Prefiro compartilhar o entendimento de D. Bernard Orchard OSB.

Antes de apresentar minha justificativa na próxima postagem, gostaria de tecer uns comentários acerca do celibato. Afinal, a virgindade de Maria e José causam não pouca surpresa para o homem moderno, em especial desde a Reforma.

Paradoxalmente, apesar da tese protestante de que o homem e o mundo estão radicalmente corrompidos, os reformadores sempre foram grandes defensores da mundanidade da existência humana frente ao celibato, o sacerdócio e o monacato, mesmo à custa de pôr entre parênteses o ensinamento de Cristo. Com efeito, como já detectara Max Weber, a moral protestante do esforço e do êxito parece contradizer a tese original de não se poder alcançar a justiça pelas obras.

O enigma do celibato

Todas as inclinações sexuais estão hoje autorizadas. O celibato, porém, é alvo de estranha intolerância pública. Tornou-se supérfluo militar por orientações amorosas, mas o combate ao celibato está na pauta de qualquer estratégia que pretenda defender a liberdade.

A continência perpétua (nego-me a chamá-la “abstinência”, que se refere propriamente à comida) é uma decisão enigmática na era do efêmero. Como proibi-la pareceria repressão, os arautos do eros afirmam que o celibato deveria ser opcional.

Contrassenso! Quer você seja contra, quer você seja a favor, o celibato é sempre opcional. Afinal, ninguém é obrigado a abraçá-lo, ou a fazer-se sacerdote nem a professar votos. Mesmo os que se candidatam a tais vocações podem ser aceitos ou não pela autoridade competente. Por outro lado, já que também ninguém está obrigado a casar-se, tanto faz como tanto fez.

É preciso ter em conta que muitas pessoas vivem em “celibato compulsório”, devido a situações familiares que não escolheram. Não é todo mundo que consegue ter vida sexual ativa. Os celibatários voluntários são minoria frente à massa de abandonados e solitários. Embora não dê na mesma ser castos ou luxuriosos, é muito mais provável que estes durmam sozinhos do que acompanhados.

Vidas com sentido

Independentemente do que pense a respeito das opções nesse campo, fato é que o celibato é um estilo de vida que permite o desenvolvimento de potencialidades insuspeitáveis. Ilustra-o bem a emancipação feminina na Inglaterra do Entre-Guerras, quando quase dois milhões de mulheres ficaram sem pretendentes (veja aqui).

Com mais razão sejam lembrados os missionários, os dedicados à caridade, os empenhados na consecução de grandes ideais humanos e sobrenaturais. Digo sobrenaturais porque tal renúncia obtém seu máximo sentido quando motivada por valores para além da mundana realidade.

É natural que a miopia para os valores transcendentes torne amplos setores sociais incapazes de compreender a radicalidade dessa opção. É paradoxal que as pessoas casem cada vez menos, mas exijam o casamento dos célibes. O sim do celibato ao amor é a suma contradição do não da permissividade ao compromisso.

*****
Lutero devolveu ao sacerdote a relação sexual com a mulher, mas a veneração de que é capaz o povo, e antes de tudo a mulher do povo, repousa em três quartos na crença de que um homem excepcional neste ponto sê-lo-á também noutros pontos. E a fé do povo em algo sobre-humano no homem tem aqui seu advogado mais sutil e capcioso.
(Nietzsche, Gaia Ciência, pág. 252)

Quando a inteligência da fé olha um tema à luz de Maria, coloca-se no centro mais íntimo da verdade cristã. Na realidade, a encarnação do Verbo não pode ser pensada prescindindo da liberdade desta jovem mulher que, com o seu assentimento, coopera de modo decisivo para a entrada do Eterno no tempo.
(Bento XVI, Verbum Domini, n.º 27).

7 de set. de 2010

Visões de Aristóteles

O pensamento aristotélico

Existem duas visões acerca de Aristóteles: A primeira busca organicidade holística em seu pensamento. Pode ser atribuída a Franz Brentano (século XIX). A segunda detecta distinções em razão dos métodos adotados por Aristóteles. Procede de Werner Jaeger (século XX), que defendeu a evolução biográfica de seu pensamento.

É preciso conciliar as perspectivas, compensar a relativização historicista e prevenir os vieses das ciências humanas. Ora, se o tempo fosse referência máxima, o pensamento aristotélico sempre estaria incompleto. Por outro lado, é natural uma evolução entre os fragmentos que remanesceram de suas obras de juventude e os tratados sistemáticos extraídos das apostilas de seus alunos.

Um remédio para a crise

Aristóteles vem bem a calhar no atual cenário de crise da razão, pois explorou diversas formas de racionalidade, a despeito da opinião que comumente se tinha dele até os anos 1960. Desde Francis Bacon e Jacopo Zabarella, reconhecia‑se em Aristóteles apenas uma lógica silogística-dedutiva. Ao seu método indutivo era normal contrapor as “mais sensatas experiências” de Galileu ou o “rigor” cartesiano. Mesmo Hegel — e também os manuais da escolástica — desprezaram a lógica aristotélica, como se fosse mera ciência do pensamento abstrato.

A crise pós‑moderna pôs em juízo o valor e os limites da razão. Buscam-se outras formas de racionalidade. Os elementos que deflagaram tal crise foram o historicismo, a moda nietzscheano-heideggeriana e a crença de que as categorias epocais condicionam a compreensão.

Embora a reflexão ético-política antiga tenha sido aceita no mundo germânico e anglo-saxão como contraponto enriquecedor à reflexão contemporânea, o mesmo não se deu no eixo França–Itália. Com efeito, o mundo latino costuma retroceder a razão clássica somente até à filosofia e à ciência modernas. Ora, essa redução da razão ao racionalismo (típico desde Descartes até Leibniz) e a repulsa cultural pela Igreja levam muitos autores latinos a rechaçar a priori a harmonia entre fé e razão.

Atualmente, porém, a contribuição de Aristóteles foi revalorizada, tanto por aristotelistas, quanto por militantes de outras filosofias. Dentre os primeiros, destaca‑se Jean Marie Le Blond, que em 1939 distinguiu lógica de método, embora sua descoberta só tenha coalhado 20 anos depois, nos Symposia Aristotelica.

O grupo dos filósofos não-aristotélicos que publicaram livros sobre o Estagirita reúne personalidades díspares: Aubenque (heideggeriano), Perelman (teórico da argumentação), Gadamer (hermeneuta), Ritter (hegeliano). Mesmo os pós‑modernos Derrida e Lyotard recorreram a Aristóteles para justificar a “polissemia do ser”.

Afinal, quem foi Aristóteles?

Nasceu em Estagira em 384 a.C., e morreu em Calcis em 322: viveu 64 anos. Dos 18 aos 38 anos, o Filósofo foi um acadêmico, no sentido primitivo da palavra: discípulo perfeito de Platão. Retórico e polemista, especialmente contra os epicuristas.

Permaneceu depois, dos 38 aos 49 anos, na escola de retórica de Atarna. Desde então, abriu o Liceu, empreendimento desvirtuado por dez gerações sucessivas de fracos escoliarcas.

Nos séculos III e IV, chegou a ser considerado um filósofo adequado aos pensadores cristãos; porém, após a edição de suas obras por Andrônico de Rodes e a apresentação empirista que dele fez Estratão de Lampsaco, ficou em segundo plano no pensamento medieval até sua reabilitação por São Tomás de Aquino.

26 de mar. de 2010

Evento, tradição, cultura, vivência

Espaço e tempo

Segundo Gabriel Marcel, o espaço e o tempo são as coordenadas vitais do homem. O tempo passa de modos diversos conforme cada psicologia o sabe captar, não se podendo afrontá‑lo como mera sucessão de instantes, mecanicamente. A vivência do tempo marca a experiência da temporalidade: se as diversas pessoas têm, inclusive em momentos variados, distintas experiências do tempo, tal sucede também nas diferentes culturas.

Pode‑se falar de uma “estrutura hilemórfica” da história, pela analogia entre evento-tradição e matéria-forma. Dependendo da aplicação desta analogia, adotam‑se as mais variadas posturas filosóficas.

Concepção circular fatalista do tempo versus concepção cristã

A tese grega dos ciclos cósmicos, elaborada a partir do espaço e dos ritmos da vegetação — topicamente afirmada desde Nietzsche — é, porém, uma tênue percepção do único ciclo (cf. Hb 4,29) a que o homem é chamado a dar cumprimento sobre a terra: o qual, segundo a verdade revelada por Cristo, “cumpre‑se a si mesmo em Deus, que veio ao seu encontro mediante o eterno Filho”. “O tempo cumpriu‑se pelo próprio fato de Deus se ter entranhado na história do homem, com a Encarnação. A eternidade entrou no tempo: poderia haver ‘cumprimento’ maior que este? Que outro cumprimento seria possível?” (João Paulo II, Carta Ap. Tertio Millennio Adveniente, n.º 9, 1994)

Concepção negativa e mecânica do tempo

Platão manterá uma visão negativa do tempo — degradação da eternidade hiperurânia —, do qual se deveria fugir pela morte, pois só pela libertação do cárcere corporal a alma seria livre do infortúnio do mundo da materia, fabricação do demiúrgo.

Aristóteles, evitando a circularidade do tempo — definido por ele como “número e medida do movimento segundo o antes e o depois” —, explicará o movimento contínuo mediante um primeiro motor imóvel, Deus. A tese foi participada por Descartes, que deixou a herança filosófica do tempo como sucessão de instantes discontínuos, reduzindo a criação a uma “fabricação inicial”, origem das afirmações deístas acerca de Deus como “Arquiteto do Universo” e da imagem, largamente utilizada na catequese infantil, de Deus como um relojoeiro.

Historicismo e ucronia

No século XIX, por influência do romantismo, tradicionalista e cultor da consciência coletiva dos povos, desenvolveu‑se muito a linguística histórica, a história da política, da economia, da religião e da arte, da filosofia e da filologia.

O historicismo, ao aprofundar na pesquisa das relações humanas condicionadas pelo processo temporal, negou a transcendência do homem à própria história, reduzida à sucessão de pathos, isto é, das estruturas psíquicas coletivas. A vivência histórica só poderia captar como os homens experimentaram interiormente os conceitos, não a verdade ou a falsidade dos seus conteúdos.

A presença do passado no presente é em forma de possibilitação. No presente histórico há algo mais que as determinações produzidas por um exercício de faculdades e algo menos que uma efetiva presença real do que já passou. Esse mais e esse menos é o âmbito das possibilidades. O passado não se perde, pois é realidade subjacente, antes se conserva, como possibilidade real, não como puntiforme atualidade real: torna‑se hábito ao passar.

A ucronia é justamente a negação dessa herança, o desprezo das possibilidades que tornam histórico o temporal, a antitude anti‑histórica com o passado. Renouvier (Ucronia: a utopia na história, 1944) tentou considerar o que poderia ocorrer se tivessem havido outras circunstâncias e possibilidades na história ocidental, mas omitiu muitas das condições que se deram efetivamente, inclusive excluindo o cristianismo. Toda a literatura política ativa está cega com propostas ucrônicas.

Visão realista

Teilhard de Chardin, ao falar de cosmogênese, defendeu a ideia de que a criação continua se realizando: não haveria solução de continuidade no sentido do cosmos, que apontaria para o “Cristo Universal”.

Bergson, pretendendo ater‑se à realidade e salvaguardar a consciência e a sua irredutibilidade à matéria, introduziu a distinção de tempo espacializado ou mecânico e duração. Aquele seria reversível, externo, quantificável, passível de simultaneidade; o tempo como duração é o tempo da consciência, capaz de unir ao presente a memória do passado e a antecipação do futuro.

Essas tentativas manifestam a busca de uma visão realista do tempo, que encare o passado como condicionante — mas não determinante — do futuro, ao deixar de herança para o presente uma série de possibilidades reais.

10 de dez. de 2009

Roaring Twenties mais radicais que os Anos 60

Sufraguetes
Saia acima do tornozelo (pela primeira vez em dois milênios)
Nietzsche
Divórcio
Trabalho feminino
Voo intercontinental
Arranha-céus
Einstein
Swing
Novo Balé
Picasso
Hollywood
Máfia

Saiba mais sobre os anos 20 aqui.

11 de nov. de 2009

Quem é a Fake-Doll?

Uma mulher antes de Eva
Do folclore para arte e da arte para o comportamento, Lilit foi o leitmotiv de certo tipo de feministas.
Uma tardia tradição judaica personificou a mulher “libertada” na súcubo Lilit, primeira esposa de Adão, rival de Eva que lhe busca a morte dos filhos. Este demônio feminino do mito assírio‑babilônico, perfumado a enxofre, é companhia merecida dos homens maus. Estranha composição de repulsa e atração, desejo e fatalismo.
Vêmo-la em forma ofídica na Capela Sistina propiciando a primeira tentação. Descobrimos referências veladas a Lilit em obras como Nárnia (a feiticeira Branca) ou mesmo reconhecêmo-la com clareza nas descrições da poesia decadente de Alphonsus de Guimaraens (Succubus):


Às vezes, alta noite, ergo em meio da cama
O meu vulto de espectro, a alma em sangue, os cabelos
Hirtos, o torvo olhar como raso de lama,
Sob o tropel de um batalhão de pesadelos.
Pelo meu corpo todo uma Fúria de chama
Enrosca-se, prendendo-o em satânicos elos:
— Vai-te Demônio encantador, Demônio ou Dama,
Loira Fidalga infiel dos infernais Castelos!
Como um danado em raiva horrenda, clamo e rujo:
Hausto por hausto aspiro um ar de enxofre: tento
Erguer a voz, e como um réptil escabujo.
— Quem quer que sejas, vai-te, ó tu que assim me assombras!
Acordo: o céu, lá fora, abre o olhar sonolento,
Cheio da compunção dos luares e das sombras.
A mulher telúrica
É bastante conhecida a constante religiosa segundo a qual a Terra é a “mãe dos viventes” (Eclo 40,1). O paralelismo bíblico entre o ventre materno e o seio da Terra encontra complemento na percepção das divindades celestes como masculinas fertilizadoras. Daí que a mulher venha a exceler um caráter mais telúrico que o homem.
Mulher é terra incógnita. Donde lhe vem a capacidade de ser companheira, apoio e segurança? Sendo frágil, tem o dom e a felicidade de dividir a vida e participar de tudo. Auxílio necessário, mesmo para a pessoa amadurecida, possui sensibilidade e compreensão para aprofundar em assuntos que lhe são desconhecidos.
Mulher é terreno bravio. Seu risco é passar do espírito materno à possessão, da asserção à agressão, do auxílio à dominação. Ao encantar, confunde-se; ao confundir, duplica-se, ao abraçar o mundo, espartilha-se. Sendo pura receptora, carece de interpretação. Mas os homens gostam de tudo analisar.
Mulher é terra, não mapa. Não se entende, nem interpreta, nem traduz. Não deseja, mas realiza o desejo alheio.
A radicalização da imagem telúrica, a falta de inteligência de alguns pensadores e o fascínio contemporâneo pela heterodoxia estão na origem de um discurso hoje bastante recorrente: a mulher como mera invenção. O artifício feminino de dissipar e atenuar, por maquillage, pode se tornar disfarce da própria negação da natureza.
O que há antes do homem
Contudo, que consistência metafísica pode haver em assumir como valor a groundlessness humana, para usar a expressão de David Loy? Para este filósofo zen, groundlessness é a intuição de uma falta de base, a constante sensação de haver algo de errado em cada um, a amarga convicção de se ter agido mal.
A solução proposta por Loy é abdicar dos limites, por ele identificados com o mal. Daí que ele afirme: “quando eu paro de tentar me tornar algo, eu descubro que sou tudo”. A ausência de qualquer natureza presentearia a humanidade com uma liberdade radical: a possibilidade de se tornar qualquer coisa.
David Loy é apenas mais um elo da corrente que nasceu com Protágoras (πάντων μέτρον ντρωπος· “o homem é a medida de todas as coisas”), passando por Pico Della Mirandola, Maquiavel, Bacon, Locke, Nietzsche, etc. Todos esses pensadores, na ânsia de emancipar o homem, foram abolindo o conceito de natureza.
A libertação consistiria em retirar a vergonha dos desejos, em criar uma mente estritamente positiva. A suspensão da vergonha de certos desejos e a supressão de princípios universais para aproveitar-se de condições particulares prometem libertar a mente dos limites da natureza. Pois, para uma liberdade inflacionada, a concretização do real é um “não” que parece limitar a identidade.
Fake-Doll: a mulher artificial
O homem e a mulher que ingressem nesse caminho impraticável e escarpado de aventuras, riscos e impressões, que parece diluir a natureza, cairá na dependência. A relação cifrada no êxtase cria uma consulta gestual ininterrupta, faz o diálogo refém, embota a mente, produz sofisma. O amor pede uma postura ativa: somos co-autores (não vítimas) de tudo o que nos acontece.
Referindo-se ao amor cortês em carta ao filho que se aproximava do matrimônio, Tolkien alertava: ¨Meu filho, a mulher não é uma deusa. Ela é uma companheira de naufrágio¨. Ora, a “deusa boneca” romântica torna-se aqui um demônio que falsamente se apresenta como inofensivo e libertador.
Máscara ao contrário: o mal começa com a mentira. Assim impõe-se a lei do mais forte, que pode definir sua própria verdade e obrigá-la aos demais.

Dona Sofia, você é a Fake-Doll?

Copiei de uma anônima: “Não me envergonho de ser boazinha. Não ligo se sou certinha demais. Mas parece que tem gente que se importa com isso e quer me fazer mudar de qualquer jeito”.

Por enquanto só gerei entrelinhas. Falar da Eva fica para depois.
Enquanto isso, conto com sua opinião a respeito do já dito!

10 de out. de 2009

A vida mental na metrópole, por Georg Simmel (II)

Em seu texto «A Metrópole e a Vida Mental», Georg Simmel (1858-1918) relaciona os problemas da vida moderna com a luta da individualidade com as forças sociais, históricas, culturais etc.

Segundo as suas palavras, o liberalismo do século XVIII, avesso às dependências políticas, religiosas, morais e econômicas, foi o degrau para a mais recente transformação da eterna luta pela sobrevivência humana que, se antes fora contra os reveses da natureza, então se dá com traços de modernidade.

A crença iluminista na bondade natural do homem que deveria ser liberto de todas as amarras sociais, quando ao mesmo tempo se lhe exigia maior especialização no trabalho, criou um impasse psicológico: sendo o homem indispensável à sociedade por ser cada vez mais especialista, tornou‑se mais dependente das atividades suplementares de todos os outros, nivelado e uniformizado pelo mecanismo sociotecnológico.
Conforme Simmel, a base psicológica do tipo metropolitano é a intensificação dos estímulos nervosos: a convergência de imagens em mudança e as impressões súbitas da vida urbana exigem mais quantidade de consciência que a vida rural. Assim, uma conscientização crescente assume a prerrogativa do psíquico, o intelecto suplanta o coração, a fim de preservar a personalidade no turbilhão metropolitano.

A cidade sempre foi a sede da economia monetária, pois dá importância aos meios de troca em decorrência da sua multiplicidade e concentração. O intelecto e o econômico se associam, qualificando como prosaico tratar diferenciadamente os homens e as coisas e opondo‑se, por sua racionalidade, à genuína individualidade. Torna‑se difícil avaliar se a «mentalidade intelectualística» promoveu a «economia do dinheiro» ou vice‑versa, afirma Simmel. Nesse sentido é que Londres foi chamada a cabeça da Inglaterra, mas não seu coração.

O calculismo da vida moderna permite o funcionamento da máquina metropolitana integrando todas as atividades e relações. Nesse contexto, caracteres de impulsos irracionais são conflitantes à vida típica da cidade. Ela é uma estrutura da mais alta impessoalidade, o que promove uma grande subjetividade blasé (tédio). O hedonismo torna uma pessoa entediada porque agita os nervos até que percam a reação e a energia apropriada às novas sensações.

A economia do dinheiro contribui para a atitude blasé ao neutralizar o poder de discriminar, pois o dinheiro é a rasoura pela que se nivela todas as diferenças qualitativas em termos quantitativos.

O indivíduo, para se preservar face à cidade, comporta‑se reservadamente com os demais, o que, para Simmel, pode ser mesmo «uma leve aversão, uma estranheza e repulsão mútuas, que redundarão em ódio e luta no momento de um contato mais próximo». Justamente a antipatia é que protegeria o cidadão da indiferença blasé e da sugestibilidade econômica, de modo que o que parece dissociar e destoar no estilo metropolitano de vida é uma forma elementar de socialização.

Tal reserva, entretanto, confere ao indivíduo uma liberdade pessoal inalcançável em quaisquer outras condições. Mesmo a antiga pólis grega teria tido um caráter de cidade pequena, pelo que a ameaça dos inimigos de fora resultou numa estrita coerência quanto aos aspectos políticos e militares, suplantando as iniciativas individuais com as necessidades coletivas. Consequentemente, as formas de vida mais extensivas e gerais estão ligadas às mais individuais. Se a liberdade do homem feudal consistia na sua permanência sob a lei da terra, a do homem metropolitano moderno consiste no seu refinamento e abertura contrastante com a do homem da cidade pequena.

A característica mais significativa da metrópole é a sua extensão funcional para além de suas fronteiras físicas, que a torna sede da mais alta divisão econômica do trabalho. Lá a pessoa precisa enfrentar a dificuldade de afirmar sua própria personalidade no meio da multidão, volvendo‑se às diferenças qualitativas para atrair a atenção do seu círculo social, tentada a adotar extravagâncias especificamente metropolitanas. Fazer‑se conhecido torna‑se o meio de salvaguardar a posição e a auto‑estima.

A razão mais profunda da existência pessoal mais individual para Simmel é a preponderância da objetividade sobre a subjetividade: o indivíduo cada vez menos pode equiparar‑se ao supercrescimento da cultura objetiva. A vida fez‑se mais fácil para a personalidade — entendida por Simmel como sede dos sentimentos — na medida em que os confortos lhe são oferecidos de todos os lados. Portanto, os indivíduos acabam apelando para o exclusivo e o particular, a fim de preservar sua essência mais pessoal num grito que o torne presente para si próprio. Daí o surgimento do ódio amargo à cidade de pensadores como Nietzsche e a sua grande difusão.

A posição histórica das duas formas de individualismo (independên cia individual e elaboração da própria individualidade) está no século XVIII com seu ideal liberal e no século XIX com seu romantismo e a divisão econômica do trabalho, respectivamente. No dizer de Simmel, «os indivíduos liberados de vínculos históricos agora desejavam distinguir‑se um do outro (...). É função da metrópole fornecer a arena para este combate e a reconciliação dos combatentes».

Consequente com seu relativismo histórico, Simmel conclui chamando à «compreensão» de tais conjunturas, não a seu juízo, posto que a brevidade da existência humana e a esfera dos juízos são transcendidas pela a sucessão dos fenômenos da vida.

6 de out. de 2009

Quatro opções

Richard Bastien escreve para http://www.mercatornet.com/. Gostei dos seus artigos, que podem ser vistos em http://bit.ly/2bQxn2.

Especialmente interessante é seu artigo Inevitable choices, no qual diz que há quatro linhas de pensamento mutuamente excludentes que devem ser escolhidas por qualquer intelectual. As quatro visões de mundo são representadas por Maomé, Descartes, Nietzsche e Ratzinger.

O fideísmo ou sola fide tem no Islã sua forma preeminente. Também ocorre entre judeus e cristãos quando caem no voluntarismo, biblicismo ou na idolatria da democracia, propostos como formas alternativas à inteligência para aceder à verdade.

O racionalismo ou sola ratio vem perdendo força, mas tem seus badalados profetas, como Christopher Hitchens e Richard Dawkins. Prossegue sendo propagado por cientistas e professores universitários.

O niilismo ou nec ratio nec fide é um relativismo moral e cultural. Impera no mundo das ciências sociais, comunicação, artes e humanidades. E o ceticismo e a descrença que o iluminismo liberal direcionou contra a religião tradicional volta-se agora contra os próprios fundamentos do liberalismo.

Fides et ratio
 é a visão católica. A fé cristã fez esta clara escolha: contra os deuses das religiões pagãs, o Deus dos filósofos. Em outras palavras: contra o mito e o costume. Em prol da verdade do ser.
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