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16 de dez. de 2013

A escolha mais sábia

Hermannus Contractus da Suábia (18/7/1013-24/9/1054) foi um monge beneditino coxo, apelidado justamente de Contractus por ter as pernas contraídas.

Por muito tempo, implorou com insistência à Mãe de Deus que o libertasse da sua enfermidade, até que um dia a própria Virgem Maria lhe apareceu dizendo:

— Meu filho querido, em razão de tuas preces, eu obtive para ti um desses dois favores: ou tu continuas a ser enfermo, mas bem versado em muitas ciências, tanto humanas quanto divinas; ou tu serás curado, mas permanecerás adornado com a inteligência que tiveste até agora. Escolhe um dos dois, pois ambos os favores não poderás ter.

Hermannus sabiamente optou pelo primeiro e, desde então, começou a fazer progressos intelectuais sem paralelo. Tornou-se compositor, músico, matemático, astrônomo, historiador e teólogo, além de versado em grego e árabe. Também construiu instrumentos musicais e astronômicos. Suas obras podem ser lidas em http://flaez.ch/hermannus/.

Pode-se dizer que sua maior sabedoria foi fazer tal escolha.

Em consequência de tão singular favor, Hermannus nutriu enorme devoção por Maria Santíssima, a quem compôs belíssimos hinos e melodias, até hoje executados, como o tonus solemnis da Salve Regina. De sua lavra, destaca-se o maravilhoso Alma Redemptoris Mater, que é a antífona maior do Advento e do Natal.


Hermannus teve seu culto como bem-aventurado confirmado em 1863.

Relíquias de Hermannus Contractus

5 de out. de 2013

Quem foi Jeremias

Jeremias, oriundo de família sacerdotal, consagrado por Deus desde antes de nascer para uma missão precisa de eficácia comprovada (Jr 1,1.5.9), é o tipo mais perfeito de Cristo.

Biografia

Tendo recebido a vocação em 627 aC, passou a denunciar a apostasia do seu povo (Jr 2–6). Diante da morte prematura de Joacaz, que quisera continuar a reforma religiosa de seu pai, dedicou-lhe sentida elegia (Jr 22,10-12).

Durante o reinado de Jeconias (609-598 aC), títere do Egito, Jeremias legou-nos as confissões (Jr 11,18-23; 12,1-6; 15,10-21; 17,12-18; 18,18-23; 20,7-18) de seu desalento e solidão, em que encarnou o sofrimento de Judá. Desse período é a declaração de seu celibato (Jr 16,1-9). Como pronunciara um duro discurso contra o Templo aquando da coroação de Joaquim (Jr 7; 26), foi decidida sua morte, depois evitada; de qualquer jeito, nunca mais pôde entrar no Santuário.

Tendo alertado o perigo do império neobabilônico (Jr 25) em 605 aC, acabou assistindo à primeira deportação oito anos depois. Nesse período já o vemos acompanhado por Baruc, seu fiel secretário (Jr 36; 45).

Como a nação se dividisse entre recorrer ao novo faraó egípcio ou aceitar Sedecias como rei enquanto Jeconias vivia no exílio, Jeremias advoga por submeter-se à Babilônia (Jr 24). Aos exilados, envia uma carta desenganando acerca das promessas de retorno iminente dos falsos profetas (Jr 29).

A paixão de Jeremias

Quando em 588 aC Nabucodonosor cercou Jerusalém, os fatos deram razão a Jeremias, o qual prenunciou a derrota (Jr 34), embora também sinalizando a restauração (Jr 32,4-14). Contudo, ele caiu em desgraça e sofreu a sua “Paixão” (Jr 38,14-28) — lançaram‑no a um suplício concebido para ser mortal —: confinado num tanque de lodo no subsolo de uma cisterna, não pôde ali nem sequer esperar o pão da miséria que se joga aos condenados, pois já não havia pão na cidade.

Um justo de origem estrangeira, oficial da casa do rei, chamado Abdemelec, conseguiu obter deste a ordem furtiva de tirar o prisioneiro de lá antes que expire. Retornou a uma detenção menos desumana no pátio da guarda do palácio real, quando o exército babilônio se preparava para o assalto decisivo. Quando cai Jerusalém, o profeta é protegido pelas autoridades babilônicas.

Tendo permanecido ao lado de Godolias (Jr 40,2-6), Jeremias se viu obrigado a acompanhar para o Egito os sediciosos que assassinaram o administrador ao cabo de três meses. Continuou sua pregação ali (Jr 42-44), até que, segundo uma tradição cristã, foi lapidado em Tafnes pelos mesmos cuja conduta merecera suas rigorosas reprovações.

Perene memória

Sua memória sobreviveu como de ardente defensor do Deus único (Eclo 49,8s). Diz-se que escondeu a arca da aliança, o altar dos perfumes e a Tenda da Reunião no monte Nebo enquanto Deus não reúne o seu povo, para que as vicissitudes da história de Israel não interrompesse a tradição litúrgica oriunda de Moisés (2Mc 2,1ss).

Ainda apareceu como protetor dos irmãos séculos depois, ao entregar em sonhos a Judas Macabeu, cheio de glória, a espada da vitória sobre os selêucidas (2Mc 15,13-16). Mesmo o povo no tempo de Cristo cogitará ser Jesus Jeremias ressuscitado (Mt 16,14). A matança dos inocentes e a compra do campo do oleiro são profecias a ele atribuídas (Mt 2,7s; 27,9s).

Obra literária

O livro dos Trenos se entende como um segundo epílogo a Jeremias, não necessariamente de sua autoria. Na Bíblia Católica, sempre na sequência de Jeremias (Jr) e Trenos (Lm) vêm o livro de Baruc (Br 1–5) e a chamada “Epístola de Jeremias” (Br 6). Discute-se se esta teria mesmo estado nos arquivos do profeta (2Mc 2,1a), pois o autor parece ter vivido na Babilônia: conhece pessoalmente seus costumes e práticas, particularmente o fausto cultual estimulado por Alexandre o Grande (tempo da 7ª geração: Br 6,2; dentre os que ficaram livremente na terra do exílio, após o edito de Ciro: Esd 1,5; cf. 7,16; 8,25; Ne 1,1; cf. 2,1.5-6).

A composição e a transmissão de Jr são bastante acidentadas. No século XX proliferaram hipóteses explicativas, que podem ser assim resumidas: a) O livro procederia de diversas fontes. b) O texto hebraico (massorético) seria uma atualização de um livro já terminado do qual possuiríamos a versão grega (dos LXX).

2 de out. de 2013

Quem foram os profetas

Profetas não escritores

Depois de Moisés, Aarão e Maria, o Pentateuco refere-se a Balaão, o qual, embora adivinho estrangeiro contratado para amaldiçoar Israel, profetizou quatro oráculos a seu favor. Uma inscrição em Tell Deir Alla, na Transjordânia (1986), dá pé a supor que existia um “livro de Balaão, filho de Beor, o homem vidente dos deuses”; além disso, consta ter havido um famoso rei vidente arameu muito antigo.

Posteriormente, Samuel surge à frente de um dos grupos — aparecidos no seu tempo — dos fervorosos “filhos dos profetas” (1Sm 19,20). Eram comunidades religiosas que viviam de esmola (2Rs 1,8; 4,42; 5,22) e se vestiam com mantos de pelo e cíngulo de couro. Arrebatados pelo Espírito Santo, entravam em transe extático, provocado frequentemente pela música (2Rs 3,15) e bebidas fermentadas. Expressavam‑se mais pelas danças e cantos do que pela palavra, lançando gritos e invocações, e às vezes se faziam incisões (1Rs 18,28), tiravam as vestes e acabavam amiúde em estado de prostração (1Sm 19,24), pelo que chegavam a ser tachados de loucos (cf. 2Rs 9,11; Jr 29,26; Os 9,7).

Natã é o mais famoso profeta áulico, cortesão de Davi. Esse tipo de profeta foi comum no reino do Norte, e teve grande influência nos assuntos políticos e sociais.

Elias e Eliseu foram profetas carismáticos, desvinculados tanto da corte quanto do Templo. Elias é considerado o “pai dos profetas”, pois foi o mais valente defensor do javismo, quando o sincretismo dos omríadas devastava a fé de Israel. Eliseu o sucede após a assunção do seu mestre, destacando-se sua taumaturgia e sua intervenção nos assuntos públicos.

Profetas escritores

Do século VIII aC em diante, os principais profetas deixaram escritos recebidos no cânon bíblico. É razoável admitir que os oráculos de cada profeta tenham sido compilados ou completados por discípulos que escreveram integralmente (cf. Is 8,16). Contudo, parece muito mais enriquecedor aprofundar no alcance teológico refletido na ordem dos livros dentro do cânon e na ordem das diversas seções dentro de cada livro do que se imbricar na questão das ipsissima verba dos profetas.

Os hagiógrafos têm mais interesse em transmitir as palavras proféticas que em expor a biografia de quem as pronunciou. Por isso, há duas formas de intitular os livros proféticos. A mais antiga, quando os profetas ainda não tinham a auréola de mestres, diz: “Palavra do Senhor dirigida a…” (Os 1,1; Sf, 1,1; Jl, 1,1; Jr 1,1 LXX). A mais recente simplesmente aduz o magistério autêntico dos profetas reconhecidos (cf. Am 1,1; Jr 1,1 TM).

10 de set. de 2013

O escudo untado de sangue

A eleição real recaíra sobre Saul: um valoroso jovem de uma rica família benjaminita — a tribo menos importante de Israel — com um ardente anelo de grandeza e um profundo desejo do transcendente.

Não obstante, quando o inimigo acossa e cresce o clamor do povo, Saul sente medo… O ferro enfrenta o bronze numa guerra antiga… Mas na alma do rei trava-se uma batalha ainda mais violenta: eis a emocionante biografia de um homem dividido entre interesses contraditórios e a batalha por sua própria alma.

Todos deveríamos agradecer de não estar em seu lugar… Mas, embora o rei Saul tenha sido, aparentemente, “um passo em falso de Deus”, uma escolha equivocada, nada desmerece o seu heroico fim.

Uma péssima consulta

Partindo da concentração de Afec, o exército filisteu se dirigiu para a fértil planície de Esdrelão. O plano dos filisteus era conquistá‑la a fim de cortar em dois o território de Israel e controlar também as montanhas de Efraim pelo norte. Enquanto isso, acamparam em Sunam.

A fim de conter o avanço dos inimigos, Saul conduziu seu exército para a mesma área, nas proximidades de Jezrael; mas as forças eram desiguais. Saul consultou a Deus a respeito da sorte da guerra; não recebendo nenhuma resposta do efod, as sortes sagradas estabelecidas por Moisés, resolveu recorrer aos adivinhos e necromantes, superstição que ele mesmo banira de Israel.

De noite, em jejum o dia inteiro, dirigiu‑se disfarçado a Endor, diante das encostas do Tabor, à casa de uma mulher necromante, vestido com roupas modestas, acompanhado por dois homens. Chegou à sua casa e, jurando por Deus, disse‑lhe: “Como é certo que Deus vive, nenhuma culpa cairá sobre ti”. A bruxa de Endor falou: “A quem invocarei?” Saul respondeu: “Invoca‑me Samuel” (1Sm 28,10s).

Enchendo a medida da cólera de Deus, a mulher fez alguns passes, murmurou palavras especiais, e eis que Samuel surgiu da terra. Ela percebeu que o consulente era Saul, o qual se prostrou ao ver Samuel.

Saul explicou ao espectro que precisava de uma resposta de Deus acerca da sorte na guerra. Samuel lhe respondeu:

— “Por que ainda me consultas, quando YHWH se retirou de ti, tornando-se teu adversário? YHWH cumpriu o que tinha falado por meu intermédio. YHWH arrancou da tua mão a realeza e a deu ao teu companheiro Davi. Já que não obedeceste a YHWH e não levaste a cabo a sua cólera ardente contra Amalec, por isso YHWH hoje te fez isto. YHWH entregará contigo também a Israel nas mãos dos filisteus, e amanhã tu e teus filhos estareis comigo. YHWH entregará nas mãos dos filisteus também o exército de Israel” (1Sm 28,16-19).

Saul caiu como fulminado, profundamente apavorado. Depois de servido com uma vitela, retomou o caminho do acampamento.

A batalha de Gelboé

Saul tomou seus três filhos, Jônatas, Abinadab e Melquisua, e partiu com eles para a luta, ciente da morte certa e aguardando com frieza a fatalidade. Saul se sabia abandonado por Deus e deu início à batalha no furor do desespero.

O exército de Israel foi repelido; e o rei, com as forças que ainda sobravam em condições de lutar, recuou para o monte Gelboé, onde o ataque dos filisteus se tornara mais violento. Neste lugar, seus três filhos maiores caíram no combate.

Saul, ferido e desesperado, se lançou sobre sua espada para não cair com vida em mãos dos inimigos. Em seguida, não só os combatentes de Israel se dispersaram, mas também os habitantes da região fugiram de suas cidades, que foram ocupadas pelos filisteus.

No dia seguinte, a cabeça de Saul foi carregada como troféu pelas cidades da Filisteia, enquanto o corpo foi pendurado na muralha de Betsã. Na noite seguinte, porém, os habitantes de Jabes de Galaad, lembrando‑se de que, quarenta anos antes, tinham sido salvos por Saul, atravessaram o Jordão e, após retirar às escondidas seu cadáver, deram‑lhe piedosa sepultura sob seu terebinto.

O canto do arco

Ao terceiro dia, um estranho amalecita levou a Davi, que vivia acastelado em Siceleg, a coroa e o bracelete reais e lhe contou que Saul só conseguira cair morto por ter pedido sua ajuda. Davi ao sabê‑lo, mandou executá‑lo por ter levantado a mão contra o ungido do Senhor.

Depois, chorou amargamente e fez esta elegia, então consignada no atualmente perdido Livro do Justo (2Sm 2,19-27):

“A glória de Israel jaz ferida de morte nas tuas alturas!
Como caíram os bravos!

Não o conteis em Gat.
Não o proclameis pelas ruas de Ascalon,
para que não se alegrem as filhas dos filisteus
nem se rejubilem as filhas dos incircuncisos!

Montes de Gelboé, jamais caia orvalho nem chuva sobre vós
nem haja campos férteis!
Pois lá foi aviltado o escudo dos bravos:
O escudo de Saul, não untado de óleo,
mas com o sangue dos feridos, com a gordura dos bravos.

O arco de Jônatas não recuava
e a espada de Saul não voltava sem efeito.
Saul e Jônatas, amados e queridos,
nem a vida, nem a morte os pôde separar:
mais rápidos que águias, mais fortes que leões!

Filhas de Israel, vertei lágrimas sobre Saul,
ele que vos vestia de púrpura encantadora,
ele que pregava ornatos de ouro nos vossos vestidos!
Como caíram os bravos em plena batalha!

Jônatas, sobre tuas alturas ferido de morte!
Quanto estou dolorido por ti, Jônatas, meu irmão!
Quanto me eras caro e querido!
Tua amizade me era mais maravilhosa
que o amor de mulheres!

Como caíram os bravos
e pereceram as armas de guerra!”

Saul foi um herói?

Vale a pena recolher na íntegra o belo comentário de Flávio Josefo acerca da morte de Saul (Antiguidades Judaicas, VI, 15, 253):

“Julgo dever acrescentar outra reflexão, que pode ser útil a todos e particularmente aos reis, aos príncipes, aos grandes, aos magistrados, às outras pessoas constituídas em dignidade e a todos os que em qualquer condição estejam, têm a alma grande e nobre, a fim de inflamá‑los de tal modo ao amor da virtude que não haja penas nem tribulações que eles não aceitem, nem perigos que eles não desprezem e até mesmo a morte, para conquistar uma reputação imortal, dando sua vida pelo bem da pátria.

Nós vemos o que Saul fez, pois, ainda que Samuel o tivesse avisado de que ele seria morto com seus filhos na batalha, ele preferiu perder a vida a fazer uma ação indigna de um rei, para conservá‑la, abandonando seu exército, o que seria como entregá‑lo nas mãos dos inimigos. Assim, não hesitou em se expor com seus filhos a uma morte certa, mas julgou que seria melhor e muito mais feliz terminar gloriosamente seus dias, com estes, combatendo pela salvação da pátria e merecendo viver perenemente na memória da posteridade, do que o sobreviver à sua infelicidade, não ter mais uma posição e ser ainda tido em pouco na opinião de todos. Não poderia, pois, deixar de considerar já esse soberano, neste ponto, como muito justo, muito sensato, e muito generoso. E, se algum outro fez antes dele ou fizer no futuro a mesma coisa, não haverá elogios de que não seja digno. Pois ainda que aqueles que fazem a guerra na esperança de obter a vitória, merecem que os historiadores elogiem suas ações e seus feitos grandiosos, parece‑me que somente devem ser tidos como provectos na coragem os que, à imitação de Saul, preferem de tal modo sua honra à própria vida, que desprezam perigos certos e inevitáveis.

Nada é mais comum do que empreender aquilo cujo desfecho é duvidoso e de que, se houver sorte favorável, podem se auferir grandes vantagens. Mas nada poder prometer senão coisas funestas, estar mesmo certo de que se perderá a vida no combate e ir com coragem intrépida afrontar a morte, é o que se pode dizer o cúmulo da generosidade e da coragem. Foi isso que admiravelmente fez Saul; foi o exemplo que ele deu a todos os que desejam eternizar sua memória pela glória de suas ações, mas principalmente aos reis, aos quais a nobreza da própria condição, não somente não permite abandonar o cuidado de seus súditos, mas os toma mesmo dignos de censura se tiverem por eles apenas um a medíocre afeição.”

26 de jun. de 2013

A poesia heroica da prosa diária


Hoje é a festa de São Josemaria Escrivá, Fundador do Opus Dei. O “santo do ordinário”, na expressão do grande João Paulo II, trouxe para a nossa época, entre outras contribuições, uma visão de mundo cujo impacto de superação de dicotomias ainda não se fez sentir completamente. Gostaria de discorrer um pouco a respeito.

***

Através das circunstâncias da vida ordinária, ordenadas ou permitidas pela Providência em sua sabedoria infinita, os homens temos de nos aproximarmos de Deus (São Josemaria, Amigos de Deus, 63). O valor positivo da vida ordinária, que é própria do cristianismo, foi eclipsada pelo predomínio de uma visão caracterizada pelo afastamento do mundo como única forma eficaz de se encontrar a santidade.

Concomitantemente, as atividades profanas foram compreendidas como alheias à união com Deus, e tal união foi relegada ao “mundo eclesiástico”. Assim, a doutrina do Cristianismo, a vida da graça, passariam, pois, como que roçando o agitado avançar da história humana, mas sem encontrar-se com ela (São Josemaria, Questões Atuais do Cristianismo, 113).

São Josemaria trouxe, justamente, uma nova concepção da vida quotidiana que aporta algo realmente novo às culturas, e às práticas religiosas e profanas: consiste na superação da distinção entre sagrado e profano.

Com efeito, segundo as diversas acepções clássicas, a vida corrente não seria o lugar do “profano”, pois:

a) em chave laicista, o profano é compreendido como independente de Deus;

b) em chave espiritualista, o profano é entendido como âmbito hostil e estranho à relação com Deus, do qual seria melhor escapar;

c) para muitos, é a esfera cerrada do que possui escasso valor, e que aliena da transcendência;

d) para outros tantos, é sinônimo de vida privada, no sentido de carente de repercussão e heroísmo humano.

São Josemaria apresenta, porém, a vida ordinária como campo da santidade e da atuação caritativa, um espaço humano em que se esconde um quid divino. Se a vida quotidiana foi vista frequentemente como lugar da repetição mecânica e monótona de tarefas intranscendentes, em seu ensinamento é o âmbito da busca da finalidade última da vida mediante pequenos passos: A tua existência não é uma repetição de atos iguais, porque o seguinte deve ser mais reto, mais eficaz, mais cheio de amor que o anterior. — Cada dia nova luz, novo entusiasmo!, por Ele! (São Josemaria, Forja, 736)

Em suma: a vida quotidiana não é mero suceder de dias, mas a substância do viver. Não é χρόνος (tempo mecânico), mas καιρός (tempo oportuno).

Duas consequências dessa maravilhosa visão: ela evidencia os paradoxos da grandeza da vida corrente e do heroísmo escondido na prosa diária.

25 de jun. de 2013

O tio de São João Batista

A notícia de que São José entrou nas Orações Eucarísticas II, III e IV foi um motivo de grande alegria. E acabou confirmando a tendência dos últimos séculos de colocar o Santo Carpinteiro acima de todos os outros Santos.

A dúvida sempre ficou por conta de seu sobrinho, sobre o qual Cristo afirmou: “entre os nascidos de mulher, não houve maior que João Batista” (Mt 11,11a).

A iconografia, à direita e a esquerda de Jesus, traz às vezes Maria e João. E José, onde ficaria? Penso que  os iconógrafos comeram mosca. Afinal, Maria é a Rainha Mãe e, como tal, deve estar junto de Cristo.

A Rainha Mãe era a mulher mais importante na corte real judaica e exercia a função de conselheira. Os reis tinham muitas mulheres, mas uma só mãe, à qual deviam ouvir e venerar, pois dividia o trono com ela (1Rs 2,13-21; 2Rs 24,12; 2Cr 22,3).

Assim, à direita de Jesus e Maria ficaria José e, à esquerda, João Batista, pois “o menor no Reino dos Céus é maior do que ele” (Mt 11,11b). Ou seja: José e João seriam os máximos representantes de cada um dos Testamentos.

Alguém poderia questionar se José — do mesmo modo que João — não deveria ser classificado como personagem veteritestamentário. Contudo, João Paulo II ensinou que “no limiar do Novo Testamento, como já sucedera no princípio do Antigo, há um casal” (Redemptoris custos, nº 7), pois “José é o primeiro depositário do mistério divino, juntamente com Maria. Simultaneamente com Maria — e também em relação com Maria — ele participa nesta fase culminante da auto-revelação de Deus em Cristo; e nela participa desde o primeiro momento. Tendo diante dos olhos os textos de ambos os Evangelistas, São Mateus e São Lucas, pode também dizer-se que José foi o primeiro a participar na mesma fé da Mãe de Deus” (ib., nº 5).

***

Que nada disso diminua o culto a São João Batista! Por sinal, boa Festa Junina a todos!

25 de mai. de 2013

As três montanhas de Moisés

O monte da Fé

Moisés foi apascentar as ovelhas do sogro madianita e chegou no Planalto do Sinai, no deserto de mesmo nome. Segundo uma tradição, alcançou o pico do Salgueiro (gebel Serbal), de 2.054 m de altura, que está quase a pique sobre um planalto a 1.500 m sobre o nível do mar, rico em águas.

Deus então lhe fala, através de seu Anjo, desde uma sarça que ardia sem se consumir. Se era uma variedade de ditamo branco (que segrega uma essência facilmente inflamável com calor intenso sem consumir as plantas donde emana), ou uma lorantácea (parasita das árvores desses climas, cujas flores vermelhas parecem brasas sob o sol pleno), não importa. O fato é que Deus lhe comunica que se tinha lembrado de seu povo oprimido no Egito e o chama a ser o seu libertador.

De pés descalços, Moisés ousa indagar pelo Nome de Deus e obtém em resposta o que torna esse episódio a teofania fundamental de toda a história da salvação: Deus lhe revela — com uma aparente recusa, reveladora ao mesmo tempo que ocultando, a santidade e a transcendência divinas — o seu Nome inefável: “Eu Sou Aquele Que Sou”: JAVÉ (YaHWeH).

A noção divina que o Nome JAVÉ representa é distinta e elevada, superior ao nome com o qual Deus se revelara a Abraão (Gn 17,1; 28,3; 35,11; Ex 6,3; 1Rs 20,23; Ez 1,24; 10,5), pois “Ele é” significa primariamente “Ele vive”, contraposto aos ídolos mortos; “Ele é” o Deus presente que “será” com Moisés e com o povo, como o foi com os patriarcas ((Ex 3,6.12.15).

O monte do Amor

Enfim o povo chegou ao monte Sinai, também chamado Horeb pelas tradições eloísta e deuteronomista, termo que significa “árido, seco”. É o “Pico de Moisés” (gebel Musa), com 2.285 m de altura, até onde Egéria peregrinaria em 383 AD.
Ao terceiro dia do mês de Sivã, Deus comunicou ao povo as suas “Dez Palavras” e transmitiu a Moisés o “Código da Aliança” (Ex 20,22–23,19), pacto selado com solene sacrifício de sangue (Ex 24,3-8) e Comunhão (Ex 24,9-11).

Aí nasceu Israel como povo livre (Lv 26,42-45; Dt 4,31; Eclo 44,21-23) e comprometido a observar os mandamentos e a Lei (Ex 20,1; 20,22–23,33; Dt 5,1-21). Em contrapartida, Deus prometeu fazê-lo seu povo particular e cercá-lo com sua proteção (Ex 19,4-8; Dt 11,22-25; 28,1-14).

A Lei de Deus (Js 24,26) é, pois, o conjunto das prescrições religiosas e civis colecionadas no Pentateuco, o qual, porém, contêm coleções (Ex 25–31; 36–40; Lv 1–16; 23–27; Nm 1–10; 17–19) diacronicamente incompatíveis que foram sendo acrescentadas pela tradição à legislação mosaica a fim de acomodá-la às novas circunstâncias da nação.

O monte da Esperança

“No final do caminho do Êxodo, destaca-se outro lugar elevado, o monte Nebo, donde Moisés pôde contemplar a Terra Prometida (cf. Dt 32, 49), sem a alegria de poder pisá-la, mas com a certeza de a ter finalmente alcançado. Aquele seu olhar a partir do monte Nebo é o próprio símbolo da esperança. Daquele monte, ele podia constatar que Deus tinha mantido as suas promessas. Uma vez mais, porém, devia confiadamente abandonar-se à omnipotência divina quanto ao pleno cumprimento do desígnio preanunciado.” (Bem-aventurado João Paulo II, Carta sobre a peregrinação aos lugares relacionados com a história da salvação, 6).

1 de mai. de 2013

São José Empresário

Neste dia de São José Operário (e por que não “Empresário”? afinal, ele era o dono da oficina!), vale a pena relembrar alguns aspectos da teologia do trabalho.

São Josemaria, que fez do trabalho o eixo da sua proposta de santidade no meio do mundo, ensinava que o trabalho é, para nós, meio específico de santidade. O que quero dizer‑vos é que temos de converter o trabalho em oração e ter alma contemplativa (Carta 15‑X‑1948, n. 22).

Ora, se o trabalho é oração, convém captar e viver seu caráter dialógico, em que Deus nos fala e nós, por nossa vez, falamos a ele.

No trabalho, Deus nos interpela e nós lhe respondemos. Deus nos fala através do trabalho porque o Senhor está, por imensidade, em todas as criaturas, à nossa espera, ao nosso alcance, ao nosso dispor.

O trabalho é uma palavra dirigida a nós pelo Pai

“Filho, vai trabalhar na minha vinha” (cf. Mt 21,28‑31). Ao trabalho vai o filho, não o mercenário; portanto, ao trabalhar, exercitamos nossa filiação divina, assemelhamo‑nos ao Filho de Deus. 

Como é nossa resposta ao chamado de Deus? Há três opções:
  • Rebelde, grosseira e primária — “não quero!”
  • Preguiçosa, falsa e desatenta — “sim, pai! Mas não foi”
  • Generosa, pronta e sacrificada como a de Cristo — “eis que venho para fazer a tua vontade” (Hb 10,9)

Itinerário da intimidade com Deus

Deveis manter — ao longo do vosso dia — um diálogo constante com o Senhor, que se alimente das próprias incidências do vosso trabalho profissional. Ide com o pensamento ao Sacrário e oferecei ao Senhor o trabalho que tenhais entre mãos; recorrei à nossa Mãe do Céu e ao nosso Pai e Senhor São José, para que vos ajudem a superar as pequenas contrariedades que possam apresentar‑se; recomendai os vossos companheiros e colegas aos seus Anjos da Guarda; reavivai a intenção apostólica, aproveitando as pausas no trabalho; pedi luz ao Espírito Santo, para resolver de maneira adequada os problemas que tenhais pela frente (São Josemaria, Carta 15‑X‑1948, n. 22).

14 de mar. de 2013

Francisco, o auspicioso


Papa em Santa Maria Maior
(foto de Dom Antônio Carlos Keller)
O novo Papa escolheu o significativo nome de Francisco. Dois franciscos ilustram a Companhia de que ele faz parte: São Francisco Xavier e São Francisco de Borja. Sem dúvida, são referência obrigatória para entender a sua escolha.

Não obstante, outros três franciscos também vêm logo à memória: São Francisco de Paula, São Francisco de Sales, e o universalmente querido São Francisco de Assis.

Cinco linhas mestras se desenham de imediato:
  • o zelo missionário de Francisco Xavier, apóstolo do Oriente;
  • o primado da oração, buscado por Francisco de Borja, duque de Gandia;
  • a caridade infatigável do eremita do amor, Francisco de Paula;
  • a doutrina acessível e o cuidado pastoral de São Francisco de Sales, Doutor da Igreja;
  • e a pobreza humilde do “poverello” de Assis.
Essas características já eram percebidas em alguma medida no cardeal argentino. Agora parecem tornar-se prognósticos bastante auspiciosos.

Por outro lado, São Francisco de Assis também aponta uma outra direção: o oriente islâmico, o qual muitos franciscanos regaram com o sangue de seu martírio, até que, enfim, conseguiram conquistar o coração dos inimigos.

Que todas essas testemunhas acompanhem o pontificado que se inicia, a fim de que o novo Papa dê prosseguimento à missão iniciada pelo fradinho de Assis: “reconstruir a Igreja”.

De fato, o Espírito Santo surpreendeu outra vez!

13 de nov. de 2012

Os nove grandes Doutores

Na abside da Basílica de São Pedro, em Roma, encontra-se o monumento à Cátedra do Apóstolo, obra adulta de Bernini, realizada em forma de um grande trono de bronze, sustentado pelas imagens de quatro Doutores da Igreja, dois do Ocidente, Santo Agostinho e Santo Ambrósio, e dois do Oriente, São João Crisóstomo e Santo Atanásio. 

A Cátedra de São Pedro faz referência a um antigo costume romano. Estes celebravam seus defuntos em fevereiro, concluindo suas comemorações a 22 desse mês. Junto aos túmulos, tomavam um repasto sagrado, deixando uma cadeira vazia em representação do antepassado falecido. Rapidamente, o dia 22 de fevereiro passou a recordar a “cátedra” de seu defunto mais ilustre — São Pedro —, junto de cujo túmulo tomavam a refeição eucarística.

A partir do século IV, a expressão “cátedra” também passou a significar a sede fixa do Bispo, posto na igreja matriz de uma diocese, que por isso é chamada de catedral, e constitui o símbolo da autoridade e do magistério do Bispo. 

A presença dessas quatro figuras de Bernini, sustentando a cátedra petrina, evoca a importância que esses homens tiveram — e têm — para a fé da Igreja.

Ambrósio, Gregório, Agostinho e Jerônimo
Agostinho e Ambrósio já figuravam como as grandes luminárias do Ocidente, desde 1298, ao lado de Jerônimo e Gregório I, o Grande. A partir de 1568, São Pio V juntou-lhes outras quatro personalidades eminentes do Oriente: Atanásio, João Crisóstomo, Basílio, o Grande, e Gregório Nazianzeno.

No mesmo ano, Tomás de Aquino foi associado à companhia tão seleta, na qualidade de único Doutor até então não pertencente à Antiguidade. É Doctor Communis, tanto para o Ocidente quanto para o Oriente. 

Atanásio
Aqui seria excessivo falar de todos eles detalhadamente. Mas faço questão de pinçar uma frase de cada um, colhidas do livro Os Doutores da Igreja, de Jean Huscenot:

1) Atanásio, Patriarca de Alexandria (298-373), cinco vezes exilado, responde aos policiais que perguntavam por ele: “Vi Atanásio sim. Ele está pertíssimo!”

2) Basílio Magno, Bispo de Cesareia (330-379): criador de um hospital, advertia os que se despreocupam do próximo: “Não há dúvida de que oprimes tantas pessoas quantas as que poderias ajudar.”

Os amigos Basílio e Gregório
3) Gregório Nazianzeno, Arcebispo de Constantinopla (329-373): amicíssimo de Basílio, confessa: “Cada qual tem o seu ponto fraco; o meu é a amizade!” 

4) Ambrósio, bispo de Milão (340-397): apelidado de Doutor da Virgindade, dirá a quem não preza o matrimônio: “Quem condena o vínculo conjugal condena também os filhos e a sociedade.”

5) João Crisóstomo, Arcebispo de Constantinopla (347-407): sem papas na língua, acabaria sendo perseguido por todos os lados. Dentre suas invectivas, destaca-se esta contra os avarentos: “Ide ao altar da avareza e lá sentireis um cheiro forte de sangue humano. (…) É que a avareza quer a alma da vítima e também a do seu sacrificador.”

Crisóstomo
6) Jerônimo (347-420): após ter sua casa incendiada pelos invejosos hereges pelagianos, escreve: “Vale mais mendigar o pão do que perder a fé.”

7) Doctor gratiæ Agostinho, bispo de Hipona (354-430): a humildade intelectual da maior inteligência do Mundo Antigo o levou a revisar sua vasta obra: “Quero submeter a um escrupuloso exame tudo o que escrevi — livros, cartas ou tratados — e assinalar severamente as suas faltas… Julgar-me a mim próprio, na presença do único Mestre, é o meu único recurso para escapar ao rigores dos seus juízos.”

8) Gregório I Magno, Papa de Roma (540-604): considerado o último dos romanos, transmitiu à Idade Média a herança da Antiguidade que naufragava. Homem versátil e capaz, reivindicava para si o título exclusivo de “Servo dos servos de Deus”, reconhecendo que lhe coubera estar na transição das épocas: “Sacudido pelas vagas das questões, sinto a tempestade roncar por cima da minha cabeça.”

Tomás
Para finalizar, um conselho do Doctor Angelicus, Tomás de Aquino (1225-1274), acerca do presente tema:

“Ora, Deus comunica a verdade pelo brilho da sua natureza;
os doutores são apenas seus ministros,
os quais, portanto, devem ser puros, inteligentes, fervorosos e dóceis.
Por si mesmos, não têm nenhuma suficiência, 

mas podem esperar tudo de Deus”.

21 de out. de 2012

A chamada de Abraão

Conforme prometi por ocasião do início do Ano da Fé, passarei a comentar acerca de alguns personagens importantes para nossa compreensão da fé como resposta do homem aos apelos de Deus.

Começo obrigatório é evocar a figura de Abraão, nosso pai na fé, de quem já pude escrever alguma coisa. A descrição abaixo baseia-se numa harmonização de dados bíblicos, historiográficos e arqueológicos.

***

Para fazer frente à vaga de invasores arianos, Hammurabi (1728-1686 a.C.) buscou a unificação dos semitas amorreus: pôs Babilônia por capital, propugnou Marduc como único deus, promulgou suas “decisões de justiça” (um código moral talhado em pedra) e sufocou as insurreições locais. Por essa causa, Mári seria totalmente destruída e a região de Ur seria perturbada por agitações políticas e bélicas, até a deportação de seus habitantes.

Nessa época, nos arredores de Ur vivia acampado, à maneira dos seminômades, um clã arameu oriundo de Harã, cidade da Mesopotâmia Setentrional. Taré, o patriarca, tinha três filhos: Abrão, Nacor e Sarai. A família praticava a agricultura, mas se deslocava a cada estação, com sua pequena grei e seus jumentinhos, às zonas incultas em que as chuvas abundavam e os poços de água eram mais numerosos. Serviam às divindades sumérias locais, semelhantes às de Harã: o deus Lua Sin e a deusa Lua Nin‑gal.

Taré gerou outro filho, Arã, o qual morreu lá mesmo em Ur, talvez por conta das pilhagens sofridas pela cidade, deixando órfãos seus filhos Melca, Jesca e Lot. Melca foi desposada por Nacor e Abrão adotou seu sobrinho Lot, pois sua esposa e meia‑irmã Sarai era estéril.

Como a cidade não garantia segurança e a religião do novo império estava sendo imposta, Taré sentiu‑se forçado a deixar Ur.

A partir daí Abrão começou a ouvir a palavra do Deus vivo, que o arrancava da sua terra, do seu povo e, em certo sentido, de si próprio. Contudo, ainda era meramente uma palavra que o interpelava desde as vicissitudes da vida aldeã: acaso até Ilu, o abstrato Deus supremo dos semitas, que na mitologia se hipostasiava em Ea, pai de Marduc, deveria inclinar‑se diante do próprio filho, que segundo a vontade de um imperador usurparia o posto da única suprema divindade? A partir de então, Abrão abandonou os ritos de seus ancestrais que honravam múltiplas divindades e passou a adorar o Deus único do céu.

Então toda a família partiu rumo ao norte com seus rebanhos, seguindo o curso do Eufrates, cobrindo um percurso de mais de mil quilômetros, com o intuito de depois chegar a Canaã, já fora do domínio babilônico.

Chegaram à sua cidade natal, Harã, em Padã‑Aram. O empório babilônico — entroncamento obrigatório das caravanas nas colinas próximas aos Montes Tauros —, que tinha bons pastos irrigados, de flora exuberante, apresentou‑se‑lhes, contudo, muito propício para a instalação. Lá se adorava o deus Lua Nanna.

Mas em Harã Abrão ouviu uma chamada explícita e exigente de Deus, o início do desígnio divino salvador, que lhe reclamou uma resposta de fé: “Deixa tua terra, tua família e a casa de teu pai e vai para a terra que eu te mostrar. Farei de ti uma grande nação; eu te abençoarei e exaltarei o teu nome, e tu serás uma fonte de bênçãos. Abençoarei aqueles que te abençoarem, e amaldiçoarei aqueles que te amaldiçoarem; todas as famílias da terra serão benditas em ti” (Gn 12,1ss).

Tomando a esposa e o sobrinho Lot, seguiu ao sul, indo buscar na terra dos cananeus mais do que uma pátria, a voz que o chamava. Passando por Damasco, onde talvez tenha encontrado seu mais fiel e antigo criado, Eleazar, atravessou o Jordão junto ao Jaboc.

Morou no Negueb, imensa região de estepe, própria para pastagem periódica, junto ao carvalho de Mambré, passando por Siquém e Betel, onde erigira um altar. Os altares de terra ou pedras, que em geral serviam para oferecer sacrifícios, tornaram‑se também monumentos comemorativos dessas experiências religiosas dos patriarcas. Siquém ficaria na memória como o primeiro santuário onde Abrão recebe a promessa de posse da terra em Canaã.

Mas além das dificuldades impostas pelos povos locais a respeito de pastagens, poços d’água e assaltos, parecia que até o Deus da sua vocação não lhe facilitava as coisas: a fome o levou a uma estadia no Egito, que quase lhe custou a esposa e ainda a própria vida, quando o faraó quis fazer de Sarai sua concubina. Essas viagens ao Egito eram comuns naquela época e sabe‑se que um tal de Ibsha com seu clã inquietou os funcionário da XII dinastia. Por intervenção divina, Abrão voltaria a Canaã com Sarai sã e salva. Provavelmente traria de lá Agar, a escrava.

Chegando de novo a Betel, o novo clã de Abrão já sofre sua primeira divisão, indo seu sobrinho Lot habitar junto ao Mar Morto, próximo às cinco cidades cananeias não muito afamadas devido à imoralidade e corrupção geral: Sodoma, Gomorra, Adama, Seboim e Segor.

Após tantos reveses, Deus lhe recompensa prometendo‑lhe a posse da terra de Canaã. Com a bênção divina e com a terra prometida, falta-lhe apenas uma descendência.

15 de set. de 2012

A Sibila do Reno

Hildegarda com sua pupila Richardis, no filme Vision

Novos Doutores

Em outubro próximo, iniciará o Ano da Fé. Por essa ocasião, Bento XVI proclamará doutores a São João de Ávila, “Mestre de Santos e a figura de maior destaque num século de gigantes”, e Santa Hildegarda de Bingen, “a Sibila do Reno e Profetiza dos Teutões”.

Os requisitos para que se proclame um Santo como Doutor da Igreja são: eminens doctrina, insignis vitæ sanctitas, Ecclesiæ declaratio (doutrina eminente, santidade insigne e declaração eclesiástica). Em termos práticos, a declaração como Doutor torna obrigatório para a Igreja universal o ofício e a Missa do Santo em questão, cujos ensinamentos são apresentados como uma referência.

Portanto, a decisão de inscrevê-lo nessa lista tão exígua (35 no total) é — eminentemente — pastoral. Essa intenção fica ainda mais patente com a escolha de Hildegarda, que nem mesmo tinha sido solenemente canonizada, embora seu culto fosse estendido na Alemanha. Com efeito, a Sibila do Reno cai nas graças de todo mundo, desde adeptos da New Age às feministas mais ideologizadas.

Nada melhor do que resgatar a mística medieval para o conhecimento dos nativos virtuais do nosso século.

Mulher polímata

Hildegard Von Bingen (1098-1179) é uma personagem muito peculiar: a mestra do mosteiro beneditino de Rupertsberg foi mística, fundadora, teóloga, pregadora, naturalista, médica, escritora, poetisa, dramaturga e compositora. Criou inclusive uma lingua ignota, com alfabeto igualmente desconhecido, com a qual descrevia suas fantásticas visões.

Além de algumas referências esparsas, Bento XVI já lhe dedicou duas audiências, e o Bem-aventurado João Paulo II escreveu uma breve carta sobre ela, que foi uma das mulheres mais importantes da Idade Média e cujas obras podem ser lidas em latim (e em espanhol).

Dentre as suas obras enumeram-se também peças musicais, compostas por revelação divina. É possível encontrar na Internet uma boa seleção:


A Profetisa nas telas

Em 2010, foi lançado o filme Vision: from the live of Hildegard Von Bingen. A diretora, Margarethe Von Trotta, realizou um belo trabalho, doutrinal e moralmente ortodoxo, o qual vem maculado, contudo, por personagens caricaturescos e estereótipos sobre o feminismo, o naturalismo, a época medieval e as práticas penitenciais. A fotografia e o figurino são excelentes; há inclusive alguns pequenos trechos das músicas de Hildegarda. O resultado final é um tanto heterogêneo: o filme pode parecer pesado a alguns, mas vale a pena.

Em compensação, a TV alemã ZDF produzira em 2008 uma série de documentários sobre as 20 maiores personalidades da história germânica, dedicando à Sibila do Reno um dos episódios. Estão disponíveis para download, mas sem legenda.

O verdadeiro feminismo cristão

A figura de Hildegarda é muito apropriada hoje para contestar a difundida falácia feminista de que a mulher teria sido humilhada e maltratada no decurso dos séculos cristãos. É fora de dúvida que, nas antigas civilizações (exceto em parte entre os judeus e os epicuristas), a mulher foi sujeita ao despotismo do varão, era moeda de troca, era vitimada por divórcios arbitrários, submetia-se à prostituição sagrada, etc.

Pelo contrário, no seio do Cristianismo, a mulher encontrou uma defesa de seus direitos, obteve a proteção do matrimônio indissolúvel, recebeu um status até então inimaginável, e foi proposta como o mais sublime dos modelos na figura de Maria.

Hildegarda não é figura isolada. Helena e Teodora II, Teodolina, Clotilde e Radegunda, Catarina de Sena e Teresa de Ávila, entre tantas outras, exerceram mais influência do que qualquer mulher dos tempos modernos. Essa visão distorcida do desprezo cristão pela mulher provém da tendência atual a denegrir a Igreja histórica.

Curiosamente, os mesmos que atribuem à Igreja as “antigas faltas da Cristandade” também lhe atribuem as crises atuais, oriundas justamente do abandono que fizeram da mesma Igreja. Em suma: se para muitos não houve filosofia antes de Kant, para tantos outros não houve história antes da Revolução Francesa…

30 de mai. de 2012

Tweet budista ou teresiano?

Certa vez, twittei as seguintes palavras de Santa Teresa:

Quem está preso a alguma coisa, é sinal que a estima; se a estima, forçosamente terá pesar de deixá-la, e deste modo já anda tudo imperfeito e perdido. É o caso de dizer: perdido anda quem anda atrás do perdido. E que maior perdição, que mais cegueira e desventura do que ter em muito o que nada é?

Aí me veio o seguinte comentário:


Não entendi o que o Buda tinha a ver com o assunto, já que seu motivo do desapego era o nirvana (isto é, a extinção definitiva do sofrimento humano alcançada por meio da supressão do desejo e da consciência individual), o que nada tem a ver com o realismo e a pobreza cristãos.

Para fazer entender melhor, completei que há dois modos de se desapegar: ou largar tudo, ou usar bem.

Acho um tão difícil quanto o outro. Negócio é descobrir nosso caminho pessoal. Uns saberão usar sem possuir; outros sentirão a necessidade de jogar tudo pela janela para conseguir plena liberdade. Pois convenhamos que a pobreza não é fácil de entrar na cabeça.


Prefiro minha querida Teresa de Ahumada, mulher mística que não fugia da luta, embora o dela não seja o meu caminho.

*****

Qual é o seu caminho? Renunciar a tudo ou usar com desprendimento?

28 de jan. de 2012

Fala aí, Doutor!

Minha singela e bem-humorada homenagem ao Doutor Angélico, o mais sábio dos santos e o mais santo dos sábios.

Art. 1 — SE É CORRETO USAR A EXPRESSÃO “SÃO TOMÁS”.
O primeiro discute-se assim — Parece que a expressão “São Tomás” está errada.

1. — Pois chama-se cacófaton à expressão acidentalmente formada pela sílaba final de uma palavra e pela inicial da seguinte. No caso, o nome do Aquinate soará para muitos “Santo Más”.

2. DEMAIS — Vieira usa SANTO Tomás, como a maioria dos autores clássicos (Frei Luís de Sousa, João de Barros, Contador de Argote).

3. DEMAIS — Alegam os protestantes que não se deve chamar os homens de santos, por mais ilustres que pareçam, pois só Deus é Santo (cf. 1Sm 2,2).

MAS, EM CONTRÁRIO — Por uma regra de adaptação morfofonêmica, o padrão da língua portuguesa é utilizar santo antes de nomes começados por vogal ou por h, e são antes dos nomes que iniciam por consoante.

SOLUÇÃO — O sistema adotado pelo castelhano é diferente do português. O Dicionário da Real Academia Española ensina que a forma santo é exclusivamente usada antes de Tomás, Toríbio, Tomé e Domingo. Em todos os demais casos, utiliza-se san (San Antonio, San Roque, San Pablo, San Andrés). Portanto, devido à proximidade entre o castelhano e o português, deve-se atribuir o prurido para com a expressão “São Tomás” a um castelhanismo difuso.

Por outro lado, o uso da expressão “Santo Tomás” produz uma espécie de aliteração ou eco que, em última análise, também poderia ser tido por cacofônico: “São Totó Más”.

DONDE A RESPOSTA À PRIMEIRA OBJEÇÃO. — O som feio, desagradável, impróprio ou com sentido equívoco, produzido pela união dos sons de duas ou mais palavras vizinhas, deve ser tido como verdadeiro cacófaton apenas quando gera expressão obscena, ridícula ou fora de contexto, o que não é o caso.

RESPOSTA À SEGUNDA. — A partir do séc. XVIII o padrão de adaptação morfofonêmica portuguesa veio se firmando, notando-se hoje a nítida preferência pela expressão “São Tomás”.

RESPOSTA À TERCEIRA — O costume de chamar os cristãos de santos vem de longa data e é atestado por São Paulo em suas cartas. Conforme o testemunho de São Josemaria: “‘Saudai todos os santos. Todos os santos vos saúdam. A todos os santos que vivem em Éfeso. A todos os santos em Cristo Jesus que estão em Filipos.’ — Que comovente esse apelativo — santos! — que empregavam os primeiros fiéis cristãos para se designarem entre si, não é mesmo?! — Aprende a tratar com os teus irmãos” (Caminho, nº 469).

25 de jan. de 2012

Importância da Patrologia

Em comemoração da festa de hoje da conversão de São Paulo, tão importante para o ecumenismo, gostaria de falar sobre aqueles cristãos dos primeiros tempos, que viveram numa Igreja unida.

Noção e conceito

Etimologicamente, Patrologia é a ciência que estuda os “Padres da Igreja”. A Instrução sobre o estudo dos Padres da Igreja na formação sacerdotal (IEP, 1989) distingue patrística (que se ocupa do pensamento teológico dos Padres) de patrologia (que tem por objeto a vida e os escritos dos mesmos).

Além disso, por seu caráter teológicos, a Patrística e a Patrologia se distinguem da Literatura cristã antiga, disciplina não teológica e, pode-se dizer, literária, que estuda os aspectos estilísticos e filológicos dos escritores cristãos antigos (n.º 49).

Modernamente — segundo o tratado De locis theologicis, de Melchior Cano —, são considerados “Padres da Igreja” os cristãos que se distinguiram por:
a) ortodoxia doutrinal na orientação geral dos escritos;
b) santidade de vida;
c) reconhecimento ao menos indireto por parte da Igreja;
d) antiguidade: até Calcedônia (451) ou até S. Gregório Magno e S. João Damasceno.

O Bem-aventurado João Paulo II descreveu-os com precisão, apoiando-se no Commonitorium de São Vicente de Lérins (I, 3; PL 50, 641): Padres da Igreja são chamados com razão aqueles santos que, com a força da fé, a profundidade e riqueza dos seus ensinamentos, durante os primeiros séculos a geraram e formaram (Carta apostólica Patres Ecclesiæ, I).

Atualidade da Patrologia 

A disciplina da patrologia estabeleceu-se no século XIX (Möhler, Funk, Harnack, Zahn, Bardenhewer, Duchesne, Batiffol) e teve notável renovação no século XX (Daniélou, De Lubac, Marrou, Dölger, cardeal Pellegrino, etc.), também por conta das descobertas de Qumran e Nag-Hammadi, assim como pelos estudos de filologia clássica e da Antiguidade tardia.

O tema recobra grande importância com a perspectiva do próximo Ano da Fé, pois o esforço pela nova evangelização exige não só conhecer o conteúdo da Revelação bíblica, mas também saber transmiti-lo como os Padres da Igreja o fizeram

Os Padres como testemunhas da Tradição

A preeminência dos Padres voltou a ser evidenciada pelo Concílio Vaticano II, ao colocar a Tradição ao lado da Escritura (cf. Dei Verbum 9) e ao reclamar que se explique a contribuição dos Padres ao desenvolvimento de cada uma das verdades reveladas (cf. Optatam totius 16). Isso não impediu um considerável empobrecimento teológico nas correntes que prescindem da dimensão histórica dos dogmas ou se limitam a confrontar o dado bíblico com as realidades sociais.

Constituindo um elo da Tradição “viva”, os Padres devem ser reconhecidos como mais próximos à pureza das origens, testemunhas iniciais, fontes tradicionais, expoentes da Tradição “constitutiva” (IEP 19).

Os Padres como modelos de inculturação

O zelo dos Padres pela revelação levou alguns deles a rechaçar em bloco as contribuições da cultura pagã; a maioria, porém, praticou a inculturação mediante o duplo processo de assimilação dos acertos e desassimilação dos erros de dita cultura. Assim, numerosos termos foram introduzidos na teologia trinitária e cristológica, servindo para plasmar algumas formulações dogmáticas e vindo a fazer parte do acervo teológico corrente.

Ademais, a pregação dos Padres evidencia a experiência que fizeram de Deus, ajudando a colocar a espiritualidade como finalidade da teologia. Tal alento determina o comportamento moral e estimula a evangelização.

30 de set. de 2011

Três dicas “in honorem Sancti Hieronymi”

Deixo aqui  umas considerações soltas acerca da Escritura, em homenagem ao seu mais exímio tradutor, cuja festa é hoje.

Para quem quiser uma orientação mais sistemática, recomendo essa bússula.

Ler — Saber — Saborear

Não é preciso “saber” para aproveitar as leituras, pois a Palavra supera os processos intelectuais.

“Saber” as Escrituras é relativo, pois alguém pode entender perfeitamente os Evangelhos e negar a divindade de Cristo.

Vinho velho é vinho bom

O Antigo Testamento não deve ser lido ou citado como mera referência, nem fóssil, nem sítio arqueológico. Muito menos como enredo de escola de samba, que “começa lá atrás”. (Por sinal, por que os sambas-enredo têm de apelar à história do Antigo Egito para falar da política contemporânea?)

O Antigo Testamento é revelação hoje para nós. Embora também se ponha em pé de igualdade com ele, o Novo Testamento sempre se refere ao Antigo designando-o respeitosamente de “Escritura”.

Para além de moralismo 

Tem gente que se contenta com procurar consequências espirituais de episódios do Antigo Testamento, como se fossem fábulas de que se extraiam a “moral da história”. Pior que, muitas vezes, basta-lhes um resumo dos mesmos episódios, realizado por algum autor, mas nunca os leram nas páginas originais.

Quem não penetra nas próprias palavras inspiradas incorrem no erro de transformá-las em mero gancho para o assunto de que querem falar ou sobre o que querem refletir. É uma gnose, um labirinto mental, uma prisão intelectual, uma obnubilação diante da verdade que sempre nos surpreende.

***

Ignoratio enim Scripturarum ignoratio Christi est. — O desconhecimento das Escrituras é desconhecer a Cristo.
(São Jerônimo, Comm. in Is., Prol.: PL 24, 17)

Seja um personagem mais nas páginas que você lê.

31 de jul. de 2011

Aprendendo com Edith Stein

Edith Stein me cativa por sua aguçada fenomenologia. Além de ser uma figura ímpar na história da filosofia, também me surpreende sua vida mística e seu martírio em Auschwitz. No meu modo de ver, a mais machista das profissões (a filosofia) teve de abrir uma cátedra de honra exclusiva para ela, na qual brilha sozinha.

Acho digna a menção que se costuma fazer na história feminina da filosofia à neoplatônica Hipátia, vítima do fanatismo, mas a alexandrina assassinada era mais matemática do que filósofa. Por sua vez, Edith Stein, que também foi vitimada pela intolerância, era de fato uma filósofa de mão cheia.

O filme A Sétima Morada foi uma primeira tentativa de representar sua vida, mas me parece faltar leveza a essa produção italiana. Vamos ver como ficará o próximo longa, prometido para 2012.

Faço uma confidência. Ultimamente, venho sentindo uma sorte de desgarrão, causado pelo tempo escasso e pela pouca cabeça, em minha tentativa de abraçar o mundo. Queria mais do que nunca me dedicar ao pensamento puro, algo de que me vejo tolhido por mil míseras solicitações, no entanto nobres. Fiquei contente ao ler a exata descrição do meu problema em seu livro A mulher: sua missão segundo a natureza e a graça, 2, II (EDUSC 1999, pág. 88):

“O corpo e a mente do homem estão equipados para a luta e a conquista segundo sua vocação original de submeter a terra e de tornar-se seu senhor e rei. Nele atua o impulso de sujeitá-la pelo conhecimento e assim apropriar-se dela pelo espírito, mas de adquiri-la também como posse, com os prazeres que ela tem a oferecer e, finalmente, de transformá-la em sua própria criação pela ação transformadora. (…) Quando a vontade de conhecer se revela forte e quando empenha todas as suas forças para satisfazê-la, vê-se na contingência de ter de renunciar amplamente às posses e ao desfrute dos bens da vida; quando coloca a sua vida a serviço de posses e prazeres, aproxima-se menos do conhecimento puro (…). Quando se dedica totalmente à criação de um pequeno mundo pela ação formadora (…) acaba relegando a um segundo plano o conhecimento puro e a alegria dos bens da vida. Em cada um desses campos por sua vez, o desempenho individual é tanto mais perfeito quanto mais limitada a área de ação. Desta maneira, é justamente o desejo da realização mais perfeita possível que leva à uniteralidade e ao atrofiamento de grande parte das suas possibilidades.”

2 de mai. de 2011

Castelo místico

Trânsito espiral, de Remedios Varo
Tradução livre de uma conferência dada por André Louf.

Metapsicologia

O coração é donde brota a oração (CCE 2562). Mesmo sem consciência, no coração de cada cristão o Espírito sempre reza “Abba, ó Pai” (Rm 8,26).

A oração pessoal é, portanto, fazer calar o homem exterior para poder ouvir a prece que já está sendo rezada em nós pelo homem escondido do coração. Quaisquer métodos e técnicas de oração, ou disciplina que fomente o silêncio interior, visam a tornar consciente a oração inconsciente.

Esse nível de inconsciência é mais profundo do que o estudado pela psicologia moderna, pois toca o espírito, isto é, o cume da alma. É algo metapsicológico, pois é terreno de Deus, domus interior em que a oração não cessa, templum interius em que habita a Trindade.

Repente, gradação, gratuidade

Se grande parte do tempo não reparamos nessa “liturgia interior”, às vezes o véu é descerrado e uma iluminação repentina nos clarifica aspectos ocultos da nossa existência.

Outras vezes, porém, a tomada de consciência  é um processo gradativo que, chegando à tona, desperta a sensibilidade para o “sentimento  acima de todos os sentimentos”, na expressão do Bem-aventurado Jan van Ruusbroek.

Embora haja circunstâncias que favoreçam esse processo, como o silêncio, a simplicidade e o ascetismo, a oração cristã nunca é determinada por tais preparações. A oração é totalmente gratuita, mesmo quando precisamos perseverar em sua tentativa.

Ainda há outro caminho, mais cruciante.

Coração apiloado

É perseverando na aridez e na crise — quando nossos esforços se manifestam infrutíferos — que experimentamos nossa fraqueza e reconhecemos nossa frágil condição.

Confusão e dúvida, διατριβή τὲς καρδίας, contritio cordis, coração partido, pulverizado, pobre: tal é o salário do orante. Qual é a tarefa do homem nesse processo, senão a humildade? Diz Isaac de Nínive:

Acredita-me, meu irmão, tu não compreendeste ainda o poder da tentação, nem a sutileza de suas artes. Um dia a experiência to ensinará e verás como uma criança que não mais sabe o que olhar. Todo o teu conhecimento será nada mais que confusão, como o daquela pequena criança. Teu espírito, que parecia estar tão ancorado em Deus, teu conhecimento preciso, teu equilibrado pensamento do mundo, tudo será submergido num oceano de dúvida. Somente uma coisa poderá ajudar-te a vencê-lo, a saber, a humildade.

Eis uma pedagogia dolorosa. Não é masoquismo trilhar tal caminho, antes vem a ser um convite para ingressar na vida verdadeira, mediante a transformação do coração de pedra no coração de carne.

A vitória da humildade

Se a tentação conduz à queda, não o é por falta de generosidade e empenho na luta, mas por falta de humildade. Ora, a pior tentação é a do desespero que sucede ao pecado. Assemelha-se a uma picada de escorpião a atormentar o coração. Porém, a humildade também é capaz de vencê-lo e libertar a memória desse transe.

vitória da humildade, que nos traz à nossa mais profunda interioridade, não pode ser predita, pois ocorre quando não estamos mais no controle. Notamos então uma nova sensibilidade, uma paz indefectível, uma unidade interior, a oração brotando da própria fonte.

O pecado, que aparenta ser o triunfo do “homem exterior”, oferece assim a oportunidade de descobrir a curta e pequena ponte que conduz ao Reino escondido dentro de nós, no centro do “castelo interior”.
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