30 de nov de 2013

O Natal e o Antinatal


O amargo escritor Curzio Malaparte, falecido em 1957, escreveu palavras duríssimas contra o Natal, quando — já então! — essa festa perdera muito de sua compreensibilidade para a cultura do século XX:

Dentro de poucos dias será Natal, e as pessoas já se preparam para a suprema hipocrisia. Por que nenhum de nós tem a coragem de dizer a si mesmo que o século, o mundo, nunca foi tão pouco cristão como nesses anos? Por que nenhum nós ousa reconhecer que a retórica dos políticos, o grande desfile de sentimentos evangélicos, as procissões de falsos devotos só servem para esconder uma terrível verdade: que as pessoas não são mais cristãs, que Cristo morreu na alma de seus filhos, que a hipocrisia desceu da política até a vida social, familiar e individual? Não nos importamos com quem sofre; nada fazemos para impedir o sofrimento, a miséria, o mal, o crime, a violência, a destruição; permanecemos quietos, calados, e festejamos o santo Natal.

E prossegue:

Gostaria que, no dia de Natal, o panetone se tornasse carne dolente sob a faca, e o vinho se transformasse em sangue; que por um instante todos sentíssemos o horror do mundo na boca. Queria que, no dia de Natal, nossas crianças subitamente aparecessem como serão amanhã, dentro de alguns anos, se não ousarmos nos rebelar contra o mal que nos ameaça. Pobres corpos estraçalhados, abandonados na lama vermelha de um campo de batalha. Queria que na noite de Natal, em todas as igrejas do mundo, um pobre padre se levantasse e gritasse: fora desse berço, hipócritas, mentirosos; vão para suas casas chorar sobre os berços dos seus filhos. Se o mundo sofre, é também por culpa de vocês, que não ousam defender a justiça e a bondade, e têm medo de serem cristãos até o fundo. Fora desse berço, hipócritas. Este menino, que nasceu para salvar o mundo, tem horror a vocês.

Esse texto atormentado foi escrito três anos antes de seu batismo, por sua vez ocorrido um mês antes da morte. Faltando pouco para deixar essa vida, disse ao padre que o assistia: “Vamos!” — “Para onde?”, indagou o sacerdote — respondeu‑lhe: “Para o céu!” (cf. COMASTRI, Angelo, Tu És Trindade, p. 28)

***

Pergunto o mesmo agora: “Vamos!”

— Para onde? — vocês me perguntam.

— Preparar o Natal! Vamos para Belém! Adeste, fideles, læti triunfantem, venite, venite ad Betlehem! Belém é o nosso céu, onde podemos ver a face de Deus.


O primeiro traço é que Deus é frágil. Por exemplo, o Todo‑Poderoso obedece a um imperador que ordena um recenseamento.

O segundo, é que Deus é pobre. Nasceu precariamente, sobre fatne, isto é, sobre “esterco e palha”!

O terceiro, é que Deus é amor. Amor é dom, entrega, e Deus é dom infinito: dá tudo, dá‑se, fica pobre para nos enriquecer; “aprendei de mim, que sou manso e humilde de coração” (Mt 11,29). Deus é humilde porque não vive para si, mas vive para nós!
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