21 de out de 2009

A unidade, segundo Bento XVI

Joseph Ratzinger sempre me surpreendeu positivamente em cada uma das suas decisões. O anúncio do dia 20/10/2009 vem corroborar sua índole conciliadora e flexível, própria de um homem aberto ao diálogo e com uma perspicácia fora do cumum.

Em 1992, tendo o então cardeal chefiado a comissão encarregada da elaboração do Catecismo da Igreja Católica, conseguiu que o texto, ao mesmo tempo profundo, técnico, vasto e poético, fosse promulgado apenas seis anos depois de iniciado. Assim, uma obra complexa e inusitada obteve grande acolhida internacional e se tornou um bestseller.

Em 1999, conseguiu que os luteranos assinassem com os católicos uma Declaração conjunta sobre a justificação que praticamente liquidava a disjuntiva fé versus obras. A mesma Declaração depois foi assinada pelos metodistas em 2006.

Desde o início do pontificado, em 2005, tem contado com a colaboração dos Ortodoxos no combate ao laicismo.

Em 2007, procurou ostensivamente regularizar a situação da Igreja da China, em que muitos bispos foram nomeados pelo Estado.

No mesmo ano, facultou a celebração em todo o Ocidente do antigo rito romano, substituído em 1970 pelo atual. Embora isso fosse de interesse de uma minoria, vinha sendo motivo de desunião.

Apesar disso, a mídia teima em criar-lhe uma imagem ruim. Por exemplo, quando quis relacionar a suspensão da pena do delito cometido por um bispo em 1988 com recentes declarações antissemitas da mesma pessoa.

O anúncio da próxima criação de uma figura jurídica para os Anglicanos que queiram incorporar-se à Igreja Católica é muito bem vindo: traz mais flexibilidade para a estrutura da Igreja e permitirá que os Anglicanos sejam católicos sem terem de se tornar romanos, conservando seu patrimônio cultural e litúrgico.

Como resumo, servem bem suas próprias palavras, da Carta de 7/7/07:

“Olhando para o passado, para as divisões que no decurso dos séculos dilaceraram o Corpo de Cristo, tem-se continuamente a impressão de que, em momentos críticos quando a divisão estava a nascer, não fora feito o suficiente por parte dos responsáveis da Igreja para manter ou reconquistar a reconciliação e a unidade; fica-se com a impressão de que as omissões na Igreja tenham a sua parte de culpa no fato de tais divisões se terem podido consolidar. Esta sensação do passado impõe-nos hoje uma obrigação: realizar todos os esforços para que todos aqueles que nutrem verdadeiramente o desejo da unidade tenham possibilidades de permanecer nesta unidade ou de encontrá-la de novo”.
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