28 de nov de 2010

Arte de recomeçar

Hoje começa o Advento. Tenho muito carinho por este tempo e especial devoção por este primeiro domingo. Seus valores são admiráveis, cuja exigência exige mais sabedoria prática do que inteligência teórica.

Por que esperar? Por que vigiar?

A irrupção de Deus na nossa vida transtorna tudo: lança por terra a segurança e arrasa os projetos. Repentinamente se aproxima e se integra à nossa história. Reconhece-o presente quem tem os olhos abertos, anseia por uma nova vida e a sabe preparar.

Descobre-se em acontecimentos banais, obscuros, aparentemente privados de significado, um desígnio velado: o germe de uma realidade cujo acabamento se vislumbra sem se ver.

Os “sinais dos tempos” constituem, portanto, um convite à vigilância, à prudência, ao desapego, à esperança. Com efeito, no seio da história amadurece uma nova realidade. O tempo humano abraça o tempo de Deus: a eternidade incoada no efêmero confere valor às nímias vicissitudes mais prosaicas. Em outros termos, vivemos em constante tensão escatológica.

Transformar nosso “hoje” em “Hoje eterno” significa “acordar”, viver ao dia, abandonar comportamentos inconsequentes, a mera diversão, a frivolidade, desejos passageiros e disputas inglórias. Por outro lado, qualifica moralmente situações e atitudes humanamente indesejáveis: pobreza, dor, perseguição, sacrifício, enfermidade, morte. A esperança substitui a negligência, a vigilância supera o desânimo.

Uma paz que é consequência da guerra

O ritmo de vida acelerado, a vida planejada e coordenada por engrenagens sistêmicas que invadem inclusive a vida privada, controlando todos os nossos momentos: tudo isso parece reduzir os limites do imprevisto. Tudo está “micrado”, classificado, taxonomizado, neutralizado, garantido, assegurado.

Portanto, a manifestação de Deus na vida e a tomada de consciência da sua proximidade vêm a ser elementos revolucionários. Cristo quebra a rotina porque não pode ser programado: deve ser esperado. Cristo pede licença, um espaço para sua presença, um olhar vigilante que o distinga nos fatos que indicam a iminência da sua vinda.

O terror do coração ao ouvir o pulsar da porta, o receio de que a quebra da segurança fragilize ainda mais a tão precária paz da nossa vida, pode levar a rechaçar essa intuição como se fosse um excesso sentimental, uma quimera infantil, neurastenia religiosa.

Esta forma de agir fechada ao transcendente, porém, reduz a paz a uma espécie de equilíbrio provocado pelo medo. Nossa sociedade impregnada de violência e apreensão nada mais é do que o reflexo de tantas famílias dispersas, desfeitas, desmontadas, desconstituídas, desconstruídas, reinventadas; mais: reflexo amplificado de almas machucadas, desconsoladas, perdidas, erráticas.

Falta paz nos corações.

*****

A Palavra eterna fez-se pequena;
tão pequena que cabe numa manjedoura.
Fez-se criança,
para que a Palavra possa ser compreendida por nós.

(Bento XVI, Verbum Domini, nº 12)
Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...