30 de nov de 2010

Crise da palavra

“A comunicação e a linguagem
estão doentes:
há muitas doenças degenerativase à cabeceira destes doenteshá muitos especialistas.”
(D. Gianfranco Ravasi)

O meio é a mensagem

Ora, de que vale o conteúdo ser a primeira coisa num diálogo se o meio se perdeu?

Velhas instituições, como a Igreja, por exemplo, por não assimilarem a expressão contemporânea, tornaram-se estrangeiras para seus próprios filhos, fregueses e vizinhos.

Pois um dos grandes desafios na arena da cultura moderna é comunicar-se e formar propagadores da própra mensagem, sem perder, porém, a linguagem fundamental de referência identitária.

Surdez a preço de custo no empório da palavra

A Babel do mundo chegou a alturas impensáveis. A divisão dos pensamentos, representada pela multiplicação das línguas, também supõe, além da incapacidade de dialogar, a difusão da surdez.

A outra face da incapacidade de comunicar é a incapacidade de ouvir e, por extensão, a indocilidade.

Existem quatro tipos de indóceis:
1) o preciso-saber-dos-mínimos-detalhes;
2) o meio-campo ou empatador;
3) o não-sou-pago-pra-isso;
4) o deixa-comigo(-que-não-vai-sair).

Diálogo aparente

Além da insinceridade do que finge ouvir, também há a falsidade do que engana ao falar.

Palavras: umas vezes, a serviço da vaidade; outras, instrumentos da mentira; em ocasiões, manifestação de falta de caridade ou de justiça.

Terrorismo da palavra

O homem vive de extremos. Da repulsa pela falsidade nasce o desejo de uma sinceridade radical, que dispa as pessoas de interpretações, máscaras e circunlóquios.

Mas é preciso reconhecer que o “sincericida” é um assassino da palavra. Com sua crueza agride, rouba a esperança, arranca os alicerces das convicções sem deixar alternativas, rotas de fuga, saída honrosa.

Diálogo difuso

O encontro dialógico reclama tempo e a comunicação robusta supõe esforço. Tudo que é bom custa, e o mesmo se dá com o verdadeiro diálogo: menos acessível que o chat, mais eficaz que 140 caracteres.

A precariedade e a fluidez do contato midiático produzem “amizades nômades”, descontínuas. Ensejam contradição entre o dito e a expressão dos sentimentos. Fomentam indiscreta ousadia.

Ser presa da palavra

O diálogo real supõe interação e compenetração. Estar disposto a trocas e surpresas. Vulnerar a própria intimidade e abeirar-se do mundo alheio. Deixar-se cativar, fazer-se presa de uma lógica que não é a nossa.

A verdadeira comunicação ultrapassa o discurso retórico da sedução, que gosta do jogo de manutenção da “presa”, mas não tem coragem de efetivamente devorar.

Com efeito, diálogo não é só “troca de ideias” ou fluxo de informação, mas comunhão de pensamentos. Tem realidade substantiva, para além das impressões subjetivas.

*****

Deixe-me lhe perguntar:
Sua palavra está em crise?
De que doença ela padece?
Que remédio ela merece?
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