26 de mai de 2010

Perdidos da Bíblia


Minha experiência pessoal e o conhecimento do que se passou com muitos amigos meus me permitem tocar num tema um tanto curioso.

Estou convencido de que as pessoas estão perdidas da Bíblia. O fato não é de hoje, ainda que — por um triste paradoxo — a situação tenha piorado com o advento do protestantismo.

A questão tem importância não só do ponto de vista cultural, porquanto tal lacuna inviabiliza a captação da matriz cultural ocidental, mas também porque indica uma fragilidade mais profunda do pensamento moderno.

Cabeças pretensamente ilustradas tendem a reduzir a Bíblia a uma coleção de histórias da carochinha. Essa atitude denota falta de retidão intelectual: indica que se aceita, a priori, premissas gratuitas e sem fundamento.

A queixa quanto à dureza do texto bíblico não é de agora. Contam que Santo Ambrósio surpreendia quem lhe pedia conselhos com sugestões inusitadas como: — Está tendo problemas matrimoniais? Leia Isaías. — Ora, o que tem a ver Isaías com o gênio da minha mulher?!? De fato, grande parte do texto inspirado parece desconectado da vida real, das necessidades do seu leitor de ocasião.

Em parte, o texto sacro é tão difícil quanto qualquer obra literária mais antiga. Ninguém lê a Divina Comédia ou Dom Quixote sem recorrer a alguma nota explicativa, à orientação de um entendido ou ao artigo de um especialista. Por outro lado, a Bíblia perdeu na cultura ocidental sua base e contexto quando a reforma protestante contestou a autoridade e a tradição pelas quais a Escritura sempre fora recebida e interpretada.

Paradoxalmente, o reducionismo da religião cristã “ao livro” tornou o texto bíblico patrimônio dos filólogos, exegetas e especialistas. Os novos “sacerdotes da palavra” são agora os iniciados nas lides acadêmicas. O homem comum sente-se intelectualmente incapacitado para aceder ao texto bíblico.

Sem dúvida, Santo Ambrósio adotava uma pedagogia peculiar quando mandava ler Isaías, mas era, ainda assim, coerente e perspicaz: na Bíblia não há soluções para problemas nem mensagens de apoio. A unidade dessa coletânea multissecular de textos tão diversos (poemas, historiografia, fábulas, cartas, máximas, genealogias, novelas, imagens, legislação, etc.) radica-se na crença de que Deus esteve por trás da sua composição. E esse Deus não é um remédio para brigas de casal nem uma pomada para os machucados da vida.

Imaginemos agora que você resolva abrir a Bíblia. Você, provavelmente uma pessoa desacostumada a isso e nada propensa às crendices, com que dificuldades irá se deparar?

Incompreensão do texto

A constatação da multiplicidade de opúsculos, a divisão pouco sistemática, a aparente falta de unidade, as repetições inúteis ou enfadonhas, entre outras coisas, serão as primeiras pedras no caminho.

Se você superar essa primeira fase, desprezando tais obstáculos, talvez até se anime com a leitura, embora pairem dúvidas: Será que vou chegar até o fim? Qual é o argumento de fundo? O que tem isso a ver com Jesus Cristo?

Susto com o texto

Chegou o momento da surpresa: poligamia, gigantes, íncubos, incestos, sacrifícios humanos, estupros, maldições, suicídio.

Na minha opinião, essa dificuldade ainda é a parte mais fácil!

Crítica ao texto

Os leitores mais aplicados talvez recorram a estudos exegéticos e ficarão decepcionados.

Primeiro, porque a biblioteca disponível é vastíssima.

Segundo, porque as metodologias são, na maioria das vezes, de cunho historiográfico.

Terceiro, porque muitos autores se propõem reconstruir a história bíblica conforme suas próprias teorias.

Quarto, porque se descobre que o texto bíblico é fluido, impreciso, não fixado como o do Corão, e inclusive divergente ao comparar-se o cânon das diversas tradições.

Rechaço do texto

Que tal ler um livro inteiramente legislativo ou nove capítulos sequenciais de genalogia? Que tal críticas a problemas políticos de mais de vinte séculos atrás ou uma amálgama de imagens apocalípticas?

A tentação é fugir da raia. Os mais nobres abandonam o Antigo Testamento e só leem o Novo. Contudo, os Evangelhos, um tanto repetitivos e milagreiros, talvez soem excessivamente simbólicos.

Possíveis soluções

Sugiro quatro atitudes:

1. Retirar as “lentes do hoje”: por razões culturais, temos aversão ao simbolismo e gostamos do onírico; preferimos a historiografia científica à narrativa patética; buscamos a segurança do sistema e das receitas à incerteza da poesia e das promessas de futuro.

2. Usar o colírio da oração: sendo Deus o autor principal da Bíblia, muitas luzes advêm da meditação. Não é questão de entender na cabeça, mas de ruminar no coração.

3. Seguir a luz da Tradição: sendo o Povo de Deus o autor secundário e, ao mesmo tempo, o destinatário da Bíblia, a melhor interpretação e aplicação do texto são dadas pela Igreja, não pelo último teólogo de plantão. Há uma enorme riqueza no patrimônio patrístico que podemos aproveitar.

4. Buscar alternativas metodológicas: ainda que a Bíblia contenha muitos textos históricos, não se esgota aí nem é a história sua principal mensagem. Análises retóricas, narrativas, semióticas e abordagens tradicionais, científicas, contextuais, etc., permitem descobrir aspectos insuspeitáveis da Escritura.

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Você tem alguma dúvida? Não hesite em perguntar!
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