19 de nov de 2011

Nas tranças do Levítico

Tweet apologético

Nunca pensara que escreveria sobre o Levítico neste blogue. Mas senti-me forçado depois de uma recente discussão no Twitter, causada por falsas afirmações de uma revista acerca do homossexualismo na Bíblia. Concretamente, fiquei surpreso com a animosidade de que é alvo esse livro bíblico.

Confesso que a primeira leitura que fiz do Levítico, bota ano nisso, me deixou confuso, decepcionado e decidido a não retornar tão cedo às suas páginas, as quais me pareceram um aglomerado de leis obsoletas e sem conexão entre si. Na verdade, hoje posso afirmar — com a percepção que dá o tempo e com o prazer de releituras posteriores —, que a minha primeira impressão era muito equivocada e que só me ocorreu pensar assim naquela altura porque então eu era incapaz de realizar uma leitura sincrônica.

O que é isto? Explicando de forma imprópria, bem simples e aproximada, sincronia seria o princípio de que a Escritura como um todo possui um sentido comum que unifica cada uma de suas partes, posto que tem a Deus por autor e o seu Povo por destinatário.

Na prática, porém, muita gente se esquece disso. Com efeito, muitos se questionam: o que torna unitária essa coleção tão heterogênea? Quase uma centena de livros e cartas escritos em três idiomas diferentes, ao longo de mais de mil anos, pode mesmo ser considerada uma mensagem unívoca?

A resposta é simples: a revelação está materialmente contida na Bíblia e formalmente na Tradição Apostólica. Este postulado é imprescindível para evitar a destruição da própria Bíblia. Do contrário, o que me impediria de acrescentar às Escrituras os diálogos de Platão… ou dela retirar o Levítico?

Em conclusão: só a Tradição dá a chave hermenêutica necessária para se compreender a totalidade da Escritura. Exemplo disso é que Lutero, ao renegar a Tradição, retirou do cânon os livros que quis.

A destruição da Bíblia

Tirado o pilar de uma leitura sincrônica, a destruição da Bíblia ocorreria em vários níveis e sob diversas abordagens. Apontemos alguns:

1. Desprezo pelo Antigo Testamento. É coisa antiga, do século II. Mas se manifestou ao longo da história de muitas formas. Atualmente, talvez seja motivado pelo rechaço cientificista à leitura protestante fundamentalista da Bíblia.

2. Redução dos textos a meras alegorias. Típico do século XIX, quando as conquistas científicas pareciam desautorizar quaisquer descrições poéticas do cosmo, ou faziam duvidar dos relatos historiográficos alheios aos cânones acadêmicos.

3. Condenação das instituições antigas com base em convicções modernas. Tem ares de sabedoria mas oculta grande miopia. Equivale a não conseguir realizar a “osmose”, isto é, a fusão de horizontes com o passado. É a incapacidade de criar interfaces, de conjugar a “estraneidade” (o homem de hoje versus o homem de ontem) com a “copertença” (solidariedade intergeneracional).

O Levítico hoje

Não vale a pena fazer aqui um tratado para defender o Levítico, que naquela discussão levou a culpa de coisas que o livro nem afirma. Mas gostaria de explicitar alguns tópicos, demonstrando como sua doutrina é perene:

1. Lei de talião (Ex 21,23ss; Lv 24,19s; Dt 19,21): Grande princípio civilizatório da equidade nos julgamentos. É basilar para qualquer sistema jurídico. Modera a vingança. A caridade cristã é sua radicalização: “A ninguém pagueis o mal com o mal. Empenhai-vos em fazer o bem diante de todos. (…) Vence o mal com o bem” (Rm 12,17.21b).

2. Pena capital para a sodomia (Lv 20,13): Legislação vigente em todo o planeta até bem pouco tempo atrás (nunca foi exclusividade do Levítico). De qualquer modo, a Bíblia não atesta nenhum caso de aplicação dessa sanção em Israel. Recorde-se que muitas leis têm caráter meramente pedagógico.

3. Amor ao próximo (Lv 19,18): princípio de humanização, que estimulava o respeito aos estrangeiros. Embora a tradição judaica da época de Cristo admitisse uma interpretação restrita e nacionalista, o mandamento foi radicalizado no Novo Testamento: “amai-vos uns aos outros como eu vos amei” (Jo 13,34).

4. Costumes escravistas: a lei mosaica continha dispositivos humanitários que regulavam o regime da vida servil, comum na Antiguidade (e até recentemente). São Paulo estimularia uma atitude ainda mais generosa entre os cristãos (Fm 15-21).

***

Quanto às “tranças” do título desta postagem, só resta dizer que o Levítico proíbe confeccionar tecidos com dois tipos de fio (cf. Lv 19,19). Vai na mesma linha das dietas especiais dos judeus e das indumentárias que lhes são impostas. O que os separa ou segrega (etimologicamente, “secciona, santifica”) dos outros povos é essa série de costumes que os tornam diferentes.

A santidade cristã, porém, é interior; não está no comer, no beber ou em outras observâncias externas. Afinal, de que vale ter o corpo bem vestido, se o tecido da alma está trançado de ideias, sentimentos e vontades conflitantes?
Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...