18 de mai de 2010

Ser civilizado numa cultura beligerante


Retórica branca ou negra

Tática comum de campanhas eleitorais, de análises políticas, avaliações históricas, balanço de instituições e confronto de personalidades é o xingamento. Mais prático, eficaz e imediato que a conversação, que o diálogo isento, que o debate.

Lado a lado com os xingamentos estão: etiquetas, rótulos, epítetos, apelidos, qualificativos e determinativos.

Há praticantes assíduos desse recurso retórico por toda parte. Talvez o tipo mais gritante seja Michael Moore. Contudo, além de na mídia em geral, o espécime é muito comum mesmo entre intelectuais. Afinal, a refutação dá mais trabalho que a afirmação, e a crítica é mais veloz que o pensamento.

Uma artimanha do monólogo ideológico

Abundam exemplos da estratégia subliminar de desqualificação dos oponentes: se alguém levantar sérias objeções à exibição e aceitação pública da sodomia, será tachado de “homofóbico” (por sinal, neologismo equívoco e desnecessário). Quem se opuser à segmentação racial artificialmente imposta ao Brasil será qualificado de “racista”. Quem afirmar que uma gestante carrega no seio uma pessoa humana será tido por “extremista religioso”. Quem admitir participação pública a elementos religiosos organizados será acusado de atentar à laicidade. Se você objetar um dogma feminista, será apontado como “sexista”. Se você propuser combater a sexualização do clima social, provavelmente você é um “retrógrado”.

Em resumo: Todo oponente ideológico é sempre um estúpido e deve ser calado. Na verdade, ainda que seja possível ser ao mesmo tempo um retrógrado racista, extremista, etc., os adjetivos só seriam aplicáveis com base em sólidas evidências. Mas o que tem imperado é o ânimo do freguês…

Consagração do tabuísmo

Existem duas formas de xingar que revelam um bocado da cultura de um país. A primeira é o xingamento escatológico (vá à m.) e a segunda, o xingamento sexual (vá tomar...). Entre outras coisas, aquele tipo de ofensa demonstra que a honra abrange a vida toda; o último tipo indica que a honra está associada à virilidade.

Quando esse jargão cai na boca dos geradores e disseminadores de cultura, pode também ser usado como arma ideológica para silenciar os oponentes. Ora, a obscenidade, a irreverência blasfema e as palavras duplas tornaram-se recorrentes na boca de estrelas, cantores, comediantes, atores, etc. O humor se faz cada vez menos compassivo e muito mais corrosivo. A própria arte tem sido incapaz de reproduzir a beleza do rosto humano.

A par dos erros gramaticais, tornou-se cool a qualquer um meter um palavrão em cada frase, fazer referências desrespeitosas a nomes sagrados (vira e mexe escuto alguma piadinha sobre Jesus ou a Virgem Maria) e consagrar vulgaridades.

A raiz do fenômeno

O que se oculta em tal depauperamento linguístico? Acredito que duas atitudes concatenadas.

A primeira, é que o atual discurso “civilizado” apoia-se em generalidades, em expressões como choque de gestão, redução de juros, mais empregos, desaparelhamento. Coisa aprendida desde a escola, praticada nos insossos seminários feitos por um aluno e papagaiado por vários vagais para a desatenta turma de um professor preguiçoso.

A segunda vem a ser corolário necessário da anterior: o mundo vive da mentira. Frases feitas, clichês e chavões são engodos simpáticos. Mas ligeireza na fala é falta de conteúdo. Por exemplo, certo amigo de faculdade costumava evitar reprimendas por não ter feito os trabalhos dizendo que tivera de levar a avó à musculação. Com isso arrancava risos da turma (e do mestre) e tudo acabava em pizza.

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O título da postagem é uma pergunta a você, meu caro leitor:
Como reagir à mentira, à superficialidade, à vulgaridade, à “estereotipia”?
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