19 de mai de 2010

Gaudério Tareco

Se não lhe bastasse ser gaudério, ainda por cima era tareco

Todos se perguntavam por que cargas dágua cismara sua mãe em batizá-lo com este nome. Os mais benvolentes argumentavam que Gaudério procedia de “gáudio”, o que, portanto, indicaria o gozo da parturiente ao embalar o filho pela primeira vez. Os menos condescendentes se riam afirmando que a mãe era profetiza e já antevia a vagabundagem em que nosso herói consumiria sua vida.

A maioria das pessoas, porém, menos afeita aos meandros da última flor do Lácio, ignorava completamente o significado de gaudério, gáudio, ou seja lá o que for. Imaginavam simplesmente que o nome do bebê devia soar bem aos ouvidos da genitora e encher-lhe a boca de contentamente ao mostrá-lo às amigas.

Mas Tareco era demais. Tanto a mãe quanto o pai careciam de tal sobrenome. Portanto, Tareco só podia ser prenome, compondo com Gaudério um nome duplo desses que preenchem o recinto entre a última malcriação da criança e a primeira chinelada da mater paedagogica.

Fato consumado é que no Brasil não há cartório de registro nem pia batismal que se negue a sacramentar e a publicar nomes que firam desde o Martiriológio Romano até o Dicionário Onomástico da Língua Portuguesa. Desta feita, ao menino foi imposta a sina escrita na certidão de nascimento: Gaudério Tareco de Sousa Castro.

Apesar da digna ascendência denotada pela referência às duas famílias, o espécimen em questão anunciava um desígnio duplamente qualificado: não apenas gaudério, mas também tareco. Pois, sem dúvida, no nome que portamos, trazemos em enigma a chave do nosso destino.
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