2 de out de 2009

Uma linguagem fake para o amor

Depois de ter falado do chinelo e da roupa, decidi falar do linguajar. A língua é a roupa de dentro. A língua é o espelho da alma.

O idioma é um bastião importante nas conquistas culturais. Os povos vencedores, intencionalmente, ou por osmose, verteram sua língua nos ouvidos e bocas dos vencidos. Nas batalhas de hoje, revolucionar o idioma faz parte da estratégia para dominar a opinião. Depois opinarei acerca da tácita campanha em prol da assim chamada linguagem inclusiva.

Por enquanto, basta dizer que existe uma — para usar uma expressão joanina — linguagem mundana que se tem disseminado abundantemente. Não me refiro apenas a termos de calão ou à falta de vocabulário, o que é ponto pacífico.

Josef Pieper comentava que a nomenclatura relacionada à moral (virtudes e vícios) é a que mais costuma se deteriorar em tempos de crise, em quaisquer lugares e épocas. Nesse sentido, é sintomático que se tenha criado entre nós uma rica terminologia referente aos relacionamentos amorosos em que o sentido de compromisso não é o forte. Há uns anos, não me lembro se li na Folha ou no Estadão, saía uma lista que tentava facilitar o entendimento do vulgo:
  • Pegar: envolvimento passageiro carregado de erotismo, em geral de um único encontro.
  • Ficar: envolvimento passageiro com carícias, menos agressivo que o “pegar”.
  • Rolo: “ficar” de semanas, mas sem compromisso.
  • Relação: amizade íntima luxuriosa sem exclusividade, comum entre adolescentes.
  • Namoro: com um princípio de compromisso, envolvimento afetivo e projetos em comum.
  • Grude: faz‑se tudo junto, numa espécie de controle recíproco.
  • Relacionamento informal: compromisso de encontros eventuais, pois os projetos pessoais estão acima da vida em comum.
  • Semicasamento: vive-se separado, mas com hábitos de casado.
Penso que é muito vulgar e deseducado fazer uso de tais expressões. Além disso, corre-se o risco de fazer parecer normais comportamentos que apenas se tornaram mais frequentes ou são modas efêmeras. Por outro lado, usar de vulgaridades para bancar o simpático, fazer-se entender ou mostrar-se “por dentro” torna ridículo a quem fala e tira peso ao que se diz.

Que língua você fala? Qual é a língua do amor?
Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...