15 de jul de 2013

A obra-prima de Ratzinger

Fica evidente, especialmente para quem conhece a obra de Joseph Ratzinger, que a recém-publicada encíclica Lumen fidei, assinada pelo Papa Francisco, mais do que escrita a quatro mãos, é fruto quase exclusivo do pensamento maduro do Papa Emérito.

Talvez seja ousado ou prematuro afirmá-lo, mas a Carta Lumen fidei é, para mim, o testamento de um dos mais luminosos Papas da história bimilenar da Igreja. Combinando beleza literária, intuição bíblica, penetração patrística, versatilidade cultural e profundidade teológica, Lumen fidei (LF) é uma obra-prima.

Bento XVI nos legou mais um magnífico presente neste Ano da Fé. Ensina-nos, entre tantas coisas, quatro pontos significativos: que a fé é palavra luminosa, que a fé reside num coração que ama, que a fé se recebe por “contato”, e que a fé constrói as relações humanas.

Luz e palavra

A fé trabalha entre duas coordenadas: a escuta e a visão. Por um lado, exige assentimento a uma mensagem — palavra —, por outro, essa mensagem toma posse do homem, fazendo-o enxergar tudo sob nova ótica — luz.

Quando tantas pessoas encaram a fé como abstração teórica ou fanatismo intolerante, a Encíclica convida a entendê-la como crença no amor e, portanto, convite ao diálogo e a uma compreensão mais ampla da realidade.

Conhecimento amoroso

“O próprio amor é um conhecimento, traz consigo uma lógica nova”. Coisa inconcebível “aos olhos do homem moderno”, a quem “o amor surge, hoje, como uma experiência ligada, não à verdade, mas ao mundo inconstante dos sentimentos” (LF 27).

Pelo contrário, a sociedade científica reduz a verdade à mera utilidade técnica. Portanto, “poderá a fé cristã prestar um serviço ao bem comum relativamente à maneira correta de entender a verdade?” (LF 26) Sem dúvida, “a luz do amor, própria da fé, pode iluminar as perguntas do nosso tempo acerca da verdade: (...) o olhar da ciência tira benefício da fé: esta convida o cientista a permanecer aberto à realidade, (...) a fé desperta o sentido crítico, (...) a fé alarga os horizontes da razão” (LF 34).

O primado do amor, a lógica do amor, é algo típico do pensamento de Bento XVI, o que já ficara patente em sua primeira Encíclica, Deus caritas est. Não hesito afirmar que, por esse pensamento, ele merece o título de Doctor amoris.

Contato com a fé

“É impossível crer sozinhos” (LF 29): afirmação tão rotunda quanto surpreendente para tantos homens alienados em sua própria subjetividade.

Contudo, sem a transmissão e a recepção da memória eclesial, sem o contato “físico” com a herança de Cristo nos sacramentos e na oração da Igreja, é vedada ao crente a porta da fé.

Fundamento social

“A fé não afasta do mundo, nem é alheia ao esforço concreto dos nossos contemporâneos. Sem um amor fiável, nada poderia manter verdadeiramente unidos os homens: a unidade entre eles seria concebível apenas enquanto fundada sobre a utilidade, a conjugação de interesses, o medo” (LF 51).

Nesse sentido, a família e a comunidade política necessitam do referencial da fé que as precede e sustenta. “Porventura vamos ser nós a envergonhar-nos de chamar a Deus «o nosso Deus»? Seremos por acaso nós a recusar-nos a confessá-lo como tal na nossa vida pública (...)?”(LF 55)

***

Esses ensinamentos nos apontam quatro tópicos de exame:

1) Conheço suficientemente a doutrina católica? O que tenho feito para nela me aprofundar? Ou engano-me com preconceitos que facilmente poderia superar com um mínimo de estudo?

2) Associo à doutrina teórica a prática de exercícios de piedade, de oração e de caridade? Ou a minha interioridade é fechada ao diálogo com Deus e ao serviço do próximo?

3) Reconheço na Igreja a “Mãe que nos ensina a falar a linguagem da fé” e pela qual podemos “beber no «verdadeiro» Jesus” (LF 38)? Ou a confundo com pessoas concretas e estruturas passageiras, imaginando que a Igreja mais atrapalha do que facilita o acesso a Deus?

4) Manifesto publicamente minha fé, não ostentando símbolos ou afetando piedade, mas com as virtudes, o desprendimento dos bens materiais e o amor ao próximo? Defendo delicadamente a verdade cristã diante das falsidades que atribuem a ela?
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