15 de mai de 2013

Bode emo que acha que é galinha

O que mata é o despreparo da intelectualidade brasileira… Afirmo isso em função da conferência ministrada neste mês na Cândido Mendes pelo filósofo canadense Charles Taylor sobre o processo contemporâneo de secularização.

(Os professores podem receber salário com atraso, mas pelo menos há verba para uma lufada de pensamento em nosso deserto acadêmico!)

Apareceu tanta gente que os organizadores precisaram transferir a palestra para o teatro. Além da breve exposição do convidado, em língua inglesa, os assistentes tivemos de aguentar os discursos vazios dos anfitriões. Um deles expandia-se em clichês politicamente corretos; o outro, afetava erudição juntando alhos com bugalhos pseudofilosóficos.

Um terceiro membro da mesa, convidado a acompanhar a conferência, clérigo sem veste talar, falou com propriedade, mas com “excesso” de pontaria: foi tão vasto e penetrante que necessitaria de um curso para explicar tudo o que ele tinha em mente.

Após hora e meia de blá-blá-blá, quando todos estávamos cansados e com fome, nossos “intelectuais” começaram a divagar, a lançar pedras a esmo e a expor as feridas da própria ignorância. Fiquei penalizado por ouvir tão pouco de Charles Taylor e tanto dos acadêmicos tupiniquins. Foi como levar gato por lebre.

No fim, quando o ataque se voltou contra o papado, metade do público começou a gritar: — Viva o Papa! — Eu nunca tinha visto final tão glorioso numa discussão universitária!

Coisas pitorescas à parte, tentarei traçar um resumo em quatro pontos das ideias de Taylor sobre a secularização na época pós-moderna, que curiosamente descrevem o circo armado na Cândido Mendes e do qual — ele próprio! — era a principal atração:

1) Perda das ideias compartilhadas. Sem uma base comum, um conjunto conceitual de referências, facilmente a religião é questionada na vida pública, mesmo que ela esteja no substrato dessa mesma vida pública.

2) Demarcação identitária. Quando não há mais entendimento entre as partes, também desaparece o sentido de pertença à comunidade. Consequentemente, as pessoas tentam evidenciar-se por peculiaridades e ocorre a inflação das minorias.

3) Ruptura entre crença e vida. Como a cultura cristã ainda subjaz na sociedade vitimada de ignorância religiosa, as pessoas continuam participando de ritos que não entendem mais. Daí para a falta de fé, não vai senão um só passo. Da incoerência rapidamente se passa à bandalha.

4) Abuso laicista. O último patamar é a institucionalização da bandalha, quando, em nome da autenticidade, pretende-se excluir todo substrato cultural cujo significado tenha se perdido. No caso, a religião é vista como câncer a ser extirpado do tecido social.

Em determinado momento da conferência, um dos presentes indagou como devemos reagir diante dos que se dizem tolerantes mas nos impingem seus preconceitos. Houve um sonoro aplauso da plateia; contudo, os professores brasileiros pareceram não entender o porquê. Na verdade, o aplauso era contra eles mesmos, que tinham sido tão pouco respeitosos para com a fé católica.

Charles Taylor apenas negou que a tolerância seja um valor com o qual se construa a sociedade. Com efeito, tolerar significa apenas contornar o incômodo causado por quem faz o mal, mas cujo combate nos seria ainda mais prejudicial. O ideal da nossa sociedade deve ser dar oportunidades para todos se desenvolverem humana e espiritualmente.

Espero que esse recado seja captado por nossos criadores de opinião, que me soam como esse bode emo que pensa que é galinha:

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