4 de jul de 2010

Momento & Casamento

Momento do futebol

A Copa do Mundo, centro e raiz da vida exterior, é época de muita filosofia, análises e considerações. Um amigo emendou:

— Futebol é momento.

De fato. O que importa ter tradição, craques, estatísticas, tabus, etc., se na hora H o time não está no seu “momento”?

A vida não é como o futebol. Pelo menos, não deveria ser. A vida não pode ser momento.

Talvez você não concorde comigo e me queira recordar que na vida existem sorte, berço, coincidências. Concedo. Mas momento é outra coisa.

Momentos da vida

Momento é fogo de artifíco. A vida é show pirotécnico.
Momento é instantâneo. A vida é longa-metragem.
Momento é trapo. A vida é seda.
Momento vai. A vida é.

Temos vivido muito de momentos. Esperamos demais por eles. Sua ausência nos frustra bastante e, não menos, sua ocorrência.

Há horas em que pensamos que tudo vai dar certo, que um relacionamento é infalivelmente harmônico, que uma iniciativa terá sucesso, que um sonho vai se concretizar. Às vezes, porém, o mundo parece conspirar para inviabilizar os projetos, mesmo sem culpa nossa ou alheia.

Tenho a impressão de que, dentre os âmbitos da vida, o casamento tornou-se alvo fácil desses “maus momentos”: incertezas, variáveis, prioridades, acidentes, incidentes, intromissões, traumas, necessidades, frustrações. São muitas as exigências para estarem ambos os interessados — o homem e a mulher — num “bom momento”.

Momento versus casamento

Recebi uma importante pergunta no extinto Formspring:

pq algumas pessoas juntam os trapos e não se casam no papel?

Primeiro, é preciso definir a que “papel” você se refere. Há os “papéis”do matrimônio sacramental e os “papéis” do casamento civil.

No caso de católicos, que desde o século XVI estão obrigados a casar-se segundo uma forma canônica determinada, o concubinato pode ocorrer por algumas das seguintes razões:
  1. Desconhecimento do Direito.
  2. Renúncia à publicidade do contrato matrimonial.
  3. Rechaço do Sacramento.
  ☛ Logo, casar pra quê?

No caso de simples cidadãos, burocratizados pela cultura pós-Revolução Francesa, o concubinato é preferido porque se tornou comum:
  1. Ver o direito ao matrimônio como simples direito à liberdade sexual.
  2. Entender a ordem tradicional como “fruto de uma cultura ultrapassada” e a sua impugnação como “vitória da liberdade”.
  3. Permitir o divórcio e ao mesmo tempo vedar o direito ao matrimônio indissolúvel verdadeiro.
  4. Reduzir o matrimônio a uma finalidade meramente unitiva, já que a finalidade procriativa foi banida pela mentalidade contraceptiva.
  ☛ Logo, casar pra quê?

Claro que todas essas razões aduzidas podem vir misturadas.

A questão é realmente interessante, pois os problemas matrimoniais repercutem negativamente na  sociedade e na própria vida da Igreja. Não à toa as igrejas estão cheias de jovens e de idosos: as pessoas em idade núbil e os casais maduros, porém, afastam-se da prática religiosa.

Com efeito, frequentemente muitos casais vivem em flagrante desacordo com o ideal cristão do matrimônio, que é mais do que “juntar os trapos”. Ainda que seu relacionamento tenha recebido reconhecimento civil, muitas vezes não foi reconhecido pela Igreja.

Momento jurídico

Estou cada vez mais convencido de que padecemos uma crise jurídica. Do ponto de vista teórico, faz-se preciso resgatar o valor das normas que protegem nossa vida das instabilidades de momento.

Por um lado — contrariamente a como pensam muitas pessoas —, o casamento cristão não é um rito religioso sobreposto ao matrimônio natural. É o próprio matrimônio natural que, enquanto contraído por cristãos, cai sob a alçada da Igreja. Portanto, o descuido e o desprezo pelo ordenamento jurídico canônico reflete uma mentalidade peculiar: a de que o matrimônio seria algo privado e não estaria tocado por uma dimensão sacral.

Por outro lado, Bento XVI, numa conversa aberta com o clero de Aosta, comentou que “é particularmente dolorosa a situação de quantos tinham casado na Igreja, mas não eram verdadeiramente crentes e só o fizeram por tradição, e depois, contraindo um novo matrimônio não válido, converteram-se, encontraram a fé e agora sentem-se excluídos do Sacramento [da Eucaristia]. Este é realmente um grande sofrimento e quando fui Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé convidei várias Conferências Episcopais e especialistas a estudarem este problema: um sacramento celebrado sem fé. Se realmente é possível encontrar nisto uma instância de invalidade, porque ao sacramento faltava uma dimensão fundamental, não ouso dizer. Eu pessoalmente pensava assim, mas dos debates que tivemos compreendi que o problema é muito difícil e ainda deve ser aprofundado. Mas considerando a situação de sofrimento destas pessoas, deve ser aprofundado” (leia a íntegra).

A ingerência do Estado moderno nessas questões, a recente crise de autoridade, a rarefação do Direito canônico, a revolução sexual, etc., são fatores culturais que dificultam a percepção do que é o verdadeiro matrimônio.

Momento para a solução

Tenho outro amigo que costuma dizer que quase todos os problemas pessoais se reduzem à falta de alguma virtude.

Efetivamente, as virtudes nos libertam dos laços do momento. Por falta de fortaleza, tantos não cumprem suas promessas em troca de bagatelas. Por falta de castidade, tantos são escravos do sexo e tentam dominar os outros. Por carência de simplicidade, tantos carregam o mundo nas costas.

Vejo a solução prática para a crise do matrimônio — a par da solução teórica que seria sua reafirmação jurídica — no resgate da formação nas virtudes. Pois não acredito que a nova ética conduza a bons caminhos; e, muito menos, a nova estética.

*****

E você? Seja franco:
— Tem vivido de momentos ou de virtudes?
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