O homem é seco e quente, enquanto a mulher é fria e úmida.
(Pseudo-Aristóteles, Problemas, IV, §26)
Um velho problema
São Jerônimo chegou a pensar que o semper orare (1Ts 5,18) anularia o débito conjugal (cf. 1Cor 7,13):Oro te, quale illud bonum est, quod orare prohibet?
— Digo-te: que bem seria aquele que proíbe orar?
(Adversus Jovinianum, I, 7: PL 23, 220)
Seguindo a tendência, ainda na Idade Média, afirmava-se em alguns círculos que “quem ama sua mulher com excessivo ardor é considerado culpado de adultério” (cf. André Capelão, Tratado do amor cortês, Livro I, VI, G: pág. 131).
Tal ideia tinha suas raízes na ética neoplatônica e estoica, inspirada em Sêneca (PL 23,281): Adulter est, inquit suam uxorem amator ardentior (Diz-se que é adúltero quem ama sua esposa com excessivo ardor). Tão sinistra afirmação, com efeito, é retomada por Pedro Lombardo (Liber Sententiarum, IV, 31, 6).
A tentação do encratismo
É recorrente na história a propensão ascética a proibir o casamento e a abster-se de carne (cf. 1Tm 4,3). Taciano o Sírio (120-180 AD) é um expoente dessa tendência, pois se considera o fundador da heresia dos “encratistas” (“autocontrolados”), muito aparentada ao maniqueísmo e ao marcianismo.Tal inclinação coalhou na moderna crítica ao amor cristão. Contudo, é preciso frisar que esse amor dissociado da carne só foi acolhido pela teologia protestante, como fica patente na obra de Anders Nygren.
E o amor, como sairá vivo entre a espada e a caldeirinha? …aguarde as cenas do próximo capítulo!
