Devo reconhecer que tenho uma forte veia polêmica.
Quando a animação Rio 3D foi
lançada, embrenhei numa estéril discussão acerca dos “direitos dos animais”. A
argumentação que resolutamente queria impugnar era a de que há um paradoxo no
comportamento dos que se enternecem com o apólogo, mas traficam, domesticam e
comem os animais.
Tentei
fazer ver que nos emocionamos com os bichos das fábulas não por serem animais,
mas porque representam personalidades humanas. Aduzi, como exemplo, o livro A Revolução dos Bichos.
Passaram a me explicar que Animal Farm é uma fábula óbvia sobre o
aviltamento do comunismo com relação à liberdade, à inteligência, etc. Sendo
sobre a questão da violência política, estaria errado eu trazer tal obra à
baila. Animal Farm é um livro que se lê com um riso no canto da
boca e um aperto no coração. Não é sobre os animais.
Quando
pensei que tinha dado uma bola fora, minha surpresa foi ouvir um outro oponente
vir em meu favor: Animal Farm é, sem
dúvida, uma fábula política, mas a inspiração veio, segundo consta do prefácio,
por causa de um menino que chicoteava um cavalo atrelado a uma carroça, o qual
puxava muito peso.
Tendo
passado ileso pelo primeiro round,
comecei o segundo com um cruzado de esquerda, negando a existência dos
“direitos dos animais”. Em resposta, começaram a me falar de “direitos morais”.
Fiquei confuso, pois a expressão me pareceu tautológica, uma porca colagem de
conceitos gêmeos, uma relação siamesa entre ideias homólogas.
Explicaram-me
então que os “direitos morais” são os inerentes a sujeitos viventes: direito à
integridade física, à autonomia e à vida. Talvez por conta da minha cara de
perplexo, tentaram me alertar caridosamente que eu desconhecia o movimento
filosófico dos direitos dos animais, em que estão envolvidos, além de
filósofos, vários juristas.
Os
operadores do direito que me perdoem, mas essa última informação me deixou
ainda mais alarmado. Se não bastasse o folclórico Peter Singer ser considerado
filósofo só porque dá aulas em Yale, dizer que há advogados no movimento não me
foi nada estimulante.
O
terceiro round foi o pior. Tomei coragem
e desci três bordoadas:
1)
Moral implica liberdade, que os animais não têm; e direitos advêm da pessoa,
que os animais não são. O uso equívoco desses conceitos é tergiversação, não
filosofia.
2) Por
outro lado, só é possível falar de “direitos” dos animais como uma analogia
muito distante. A malícia está no abuso que os homens eventualmente exercem
sobre a natureza.
3)
Quantos aos tais “direitos morais”: direito decorre da dignidade da pessoa;
moral é a arte de viver bem a própria liberdade. Portanto, falar de “direitos
morais” é uma redundância com relação ao homem e um contrassenso em se falando
de animais.
Já que
era um discussão aberta, resolvi apelar. Nessas horas, a gente sempre fala mais
do que deveria, pois a tentação da oratória é vencer mais do que convencer.
Emendei um soco no queixo:
— Se
há “direitos morais” à vida em geral, logo agimos mal quando criamos vacinas,
usamos DDT, matamos barata, destruímos esponjas e fazemos churrasco. Inclusive
quando comemos salada.
Não
deveria ter feito isso, pois toquei no ponto nevrálgico. As pessoas com quem
discutia eram vegetarianas.
Depois
de me lançarem em rosto que eu tentara vencer a discussão injustamente,
misturando alhos com bugalhos, explicaram-me que os vegetais não têm sistema
nervoso central, nem horror à morte e, muito menos, consciência. Contudo, os
animais teriam tudo isso. — Creio ser desnecessário entrar no mérito de tamanha
pataquada!
Enfim,
depois de afirmar que os animais possuem consciência, essa mesma pessoa
mandou-me ir dormir, recomendando a leitura de Tom Reagan e Emmanuel Kant. De
fato, esses autores devem ser verdadeiros soníferos.
Mas a
frase que me derrubou na lona foi:
—
Moral NÃO é a arte de viver bem a liberdade! Nunca vi essa definição. Veja Kant
para uma definição mais adequada.
De
fato, por incrível que pareça, há quem pense nunca ter havido filosofia antes de Kant.
