20 de mai de 2010

Provençal, langue d’oc



Muito antes dos trouvères (poetas e jograis do norte) — que usavam o francês (langue d’oilno dizer de Dante Alighieri) —, os trovadores foram os brilhantes consagradores da langue d’oc através de uma poesia lírica extremamente refinada e desvinculada dos ciclos épicos e gloriosos de França. O provençal dos trovadores se destacava, tanto no conteúdo como na forma, com uma versificação e uma prosódia de grande riqueza, acompanhadas por melodias de caráter litúrgico.

Esses elementos, assim como seu ideário romântico, tornaram a lírica trovadoresca um dos pontos altos da poesia e do pensamento universais, atraindo os talentos poéticos europeus de toda a França, da Península Ibérica, da Itália e até mesmo da Alemanha. Por isso, nos séculos XI, XII e XIII, o provençal é a língua‑tipo da poesia lírica, como mais tarde na Ibéria seria o galego‑português. O florescimento dessa língua literária foi facilitado pela aceitação que os trovadores tiveram junto aos senhores feudais, a reis e a imperadores, não apenas na Provença mas em muitas cortes europeias.

Os primeiros trovadores aparecem em torno do ano 1100; considera‑se Guilherme VII (1071‑1127), conde de Poitiers e duque da Aquitânia, o primeiro deles. São conhecidos os nomes de mais de 400 poetas líricos, dentre os quais destacam‑se Arnaut Daniel, Bernart de Ventadour, Aimeric de Pegulhan, Bertran de Born, Girault de Borneilh, Jaufre Rudel, Gaucelm Faidit, Raimbaut de Vaqueiras, Guiraud Riquier e Joffre de Foxa.

Ar vei vermeills, vertz, blaus, blancs, gruocs
Vergiers, plans, plais, tertres e vaus;
E il votz dels auzels sona e tint
Ab doutz acort maitin e tart.
Som met en cor qu’ieu colore mon chan
D’un’ aital flor don lo fruitz sia amors,
E jois lo grans, e l’olors de noigandres.

[minha tradução:
Ora vejo rubros, verdes, azuis, brancos, louros
Vergéis, planícies, praias, colinas e convales;
E ressoa distinta a voz das aves
Com doces acordes de manhã e pela tarde.
Isso me acorda a colorir meu canto
De tal flor cujo fruto seja amor,
E júbilo a semente, e de nogueira o olor.]
(ARNAUT DANIELVerdi panni, sanguigni, oscuri o persi, n. 29)

Eissamen cum l’azimans
Tira ’l fer e ’l trai ves se,
Tir Amors mon cor a se,
Qu’es forser e plus tirans.
A lai del fer que vai ses tirador
Vas l’aziman que ’l tira vas si gen,
Amors, que’m sap tirar ses tiramen,
Mas tirat ma sivals per la melhor.

[minha tradução:
Assim como o ímã magnetizante
Arrebata o ferro e o atrai a si,
Arrebata o amor meu coração para si,
Que é forte e mais cativante.
Assim como o ferro que sem levador
Vai ao ímã que para si o atrai gentil,
O amor, que me sabe ganhar sem ser hostil,
Atraiu‑me contudo inda melhor.]
(AIMERIC DE PEGULHAN)

Do ponto de vista linguístico, o que mais chama a atenção, desde suas primeiras manifestações, é a grande unidade do provençal; as diferenças dialetais são mínimas em todo o território, independentemente da origem do trovador. Não houve um estágio literário dialetal, como aconteceu com o francês; todos os trovadores, mesmo os italianos e catalães, adotam de imediato a coiné da época. A escolha da língua literária se fez sem imposições, de modo espontâneo, ao que parece pela imitação da língua dos primeiros grandes trovadores. Os dialetos certamente existiam e se empregavam familiarmente, mas pouco influíram na língua literária, de modo que não houve predominância política de um dialeto sobre outro. Pensou‑se que a base dessa língua comum fosse o limosino; de fato, porém, essa suposição partiu dos elogios à “parladura de Limosi” de Raimon Vidal no tratado Las Razós de Trobar. Embora seja um problema de difícil especificação, admite‑se que a coiné literária dos trovadores se formou com contribuições de vários dialetos, inclusive o da região da Aquitânia, donde era “o primeiro dos trovadores”, Guilherme VII.

Essa língua literária difundiu‑se rapidamente através de toda a Provença, mantendo‑se até meados do século XIV, quando sobreveio a decadência, cuja causa principal foi a atividade de hereges albigenses na região. Convencido por um emissário papal, Simon de Montfort chefiou uma cruzada contra os albigenses, de 1208 a 1229; essa guerra devastou as províncias meridionais, sobretudo depois da batalha de Muret (12/9/1213), na qual Montfort derrotou a coligação de várias cidades (Béziers, Tolosa, Carcassona, Foix, Comminges) e Pedro II de Aragão. O resultado imediato desses fatos, somados ainda à depreciação do uso do provençal como “língua de hereges”, foi a desestruturação social, o empobrecimento dos grandes senhores; com isso, os trovadores perderam o apoio e o ambiente em que trabalhavam, principalmente depois da fracassada revolta de 1242. Começou então a lenta agonia da poesia trovadoresca das cortes e o declínio da língua literária, pois os trovadores foram obrigados a emigrar.
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