10 de jun de 2010

Tríplice mister

As necessidades mais imperiosas do homem — amor, verdade e identidade — perfazem um tripé no qual os últimos pilares estão intimamente ligados ao primeiro.

A necessidade profunda de amar e ser amado é uma ânsia de comunhão. Segundo me escreveram recentemente, é um pulso de devorar, comer, absorver, alimentar-se de algo para você poder fazer parte dele e ele poder fazer parte de você.

Mas para amar é preciso conhecer e, para amar, também é preciso ser. Verdade e identidade são a base do amor. Sobre a verdade, já escrevi algo ao tratar da inteligência. Por agora, contento-me de falar da identidade.

Todos temos necessidade de saber quem somos, de existir a nossos próprios olhos e aos olhos dos outros. A mais profunda carência é a “pobreza de ser”. A ânsia identitária produz aberrações, como reparamos naqueles que se querem dintinguir por uma aparência inverossímel ou uma moda duvidosa, mais ditadas por pressões midiáticas do que por critérios maduros. E, para suprir a falta de conteúdo, modelos ocos são propostos a torto e a direito: executivos dinâmicos, esportistas radicais, top-models, artistas descolados.

Uma primeira forma resolver a carência identitária é diferenciar-se pelas posses ou por determinado estilo de vida. A ilusão não dura muito, pois, cedo ou tarde, chegam os dissabores; e os que eram considerados — ou se consideravam — “com o rei na barriga” terminam isolados e solitários.

Outra forma mais refinada de afirmar artificialmente a própria identidade é adquirir ou exercitar certos talentos. Ser não é fazer, pois somos mais do que um mero conjunto de aptidões. Geralmente, os ativistas descobrem-se encurralados e inservíveis quando — por conta de uma doença ou outro impedimento — perdem suas faculdades e possibilidades.

Faz dois dias, escrevi no meu diário de bordo a seguinte frase:
Deus gosta da gente pelo que a gente é, não pelo que a gente faz ou deixa de fazer; e muito menos pelo que a gente tem ou deixa de ter.

Achei curioso, pois recebi algumas observações acerca dessa afirmação, que acharam um tanto quietista. Tive de me explicar melhor:
Talvez minha frase solta dê margem a interpretações díspares.
Pensava nessas palavras como uma resposta às ânsias de ter e de fazer que levam muitas pessoas a se esquecerem de ser e a ficar desanimadas com seus fracassos e carências.

É claro que “fazer” contribui bastante para a construção da personalidade, que se desenvolve justamente através do exercício de suas diferentes potencialidades. E a educaçãose baseia em boa medida nessa tendência.

Mas não se pode avaliar alguém apenas por seu know-how ou por suas capacidades. Do contrário, além de menosprezar sua dignidade singular, corre-se o risco de desprezá-la cabalmente diante de um eventual fracasso seu.

A gratuidade do amor salva as pessoas que se encontrem em tal situação, preservando as relações e evitando até que os interessados caiam em crise existencial. Se não fosse assim, que lugar haveria no mundo para os pobres e os incapazes de produzir?
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