Tudo levava a crer que, dessa vez, estaríamos livres de
coisas bizarras e pessoas bisonhas. Já antecipo que foi ótima a ideia de comer
ali. Entretanto, talvez traumatizados pelo gerente no estilo Mr. Bean que
nos infernizara no Jardim Botânico, estávamos de olhos bem abertos, à espera do
que poderia suceder.
E, com efeito, ocorreram três episódios.
Primeiro, caiu uma moeda do céu. Sério. A lanchonete
fica na casa do proprietário, que estava dando uma festa no andar de cima. Além
do metal, também começou a cair cinza de cigarro, em pitadinhas
delicadamente despejadas por unhas coloridas pertencentes a um braço fofo que
estava pousado na balaustrada. Dei um berro para cima, avisando que tinha gente
embaixo.
Isto é Brasil!!! Mesmo entre
argentinos…
Segundo, apareceu Rogério Manzolillo, poeta de Santa
Teresa, querendo vender-nos seus versos. No metrô não se pode entrar para
vender nada, porém ali na lanchonete se podia aceder para comercializar
palavras:
…meu coração de menino
precisa dos cuidados teus,
pois, às dores do meu peito,
diploma não faz efeito.
Finalmente, um cliente amarrou um lindo
cole no poste de luz do pátio em que estávamos. Choroso pela distância do
seu dono ou pela garoa que anunciava a próxima chuva, o cão pastor escocês
ficou mais animado com o surgimento imediato de umas crianças. Os pais
inconsequentes das mesmas deixaram que o cachorro bancasse o alfa para
cima do garoto do pior modo possível, num estilo digno de youtube. A cena
foi grotesca. Depois, até fomos conferir se o cachorro era fêmea (só para
aliviar), mas não era.
Estou sendo tosco por contar isso? — Toscos eram os
pais que viam aquilo e riam sem opor resistência. Por sinal, anteontem
conversava com alguém que me disse não ser “refém de gênero”, intelectualmente falando.
Respondi que — ora bolas, e põe bolas nisso — todos os homens e mulheres
herdamos constitutivamente um pacote de características que não há
pseudocultura que possa negar. Viver de mentiras é condenar-se ao fracasso mais
rotundo. “Ser homem ou mulher faz parte de nós. Não somos reféns. Carregamos
uma bagagem que não é um fardo nem é um cativeiro, entende?”
Ok. Mas não daria para, apenas intelectualmente, abrir
mão das nossas peculiaridades para travar um contato mais isento com a
realidade? Creio que não. Lado a lado com a estraneidade vai a copertença,
isto é, por mais “isentos” que tentemos ser, carregaremos sempre o lastro do
nosso barco.
Sem intenções
inverte os fatos
outros olhares.
Um carinho ao acaso
seus lábios roubam
flores do meu coração.
Resumo da bossa? — Adorei o sanduíche. Recomendo!
