12 de mai de 2010

Uma esmola, o cachorro e o poeta

Para compensar o freakshow da pizzaria, no sábado passado resolvemos comparecer numa sanduicheria de Santa Teresa, próxima ao Largo do Guimarães, pertencente a um argentino. Lugar legal, comida da boa, ainda mais se regada com tal molho.

Tudo levava a crer que, dessa vez, estaríamos livres de coisas bizarras e pessoas bisonhas. Já antecipo que foi ótima a ideia de comer ali. Entretanto, talvez traumatizados pelo gerente no estilo Mr. Bean que nos infernizara no Jardim Botânico, estávamos de olhos bem abertos, à espera do que poderia suceder.

E, com efeito, ocorreram três episódios.

Primeiro, caiu uma moeda do céu. Sério. A lanchonete fica na casa do proprietário, que estava dando uma festa no andar de cima. Além do metal, também começou a cair cinza de cigarro, em pitadinhas delicadamente despejadas por unhas coloridas pertencentes a um braço fofo que estava pousado na balaustrada. Dei um berro para cima, avisando que tinha gente embaixo.

Isto é Brasil!!! Mesmo entre argentinos…

Segundo, apareceu Rogério Manzolillo, poeta de Santa Teresa, querendo vender-nos seus versos. No metrô não se pode entrar para vender nada, porém ali na lanchonete se podia aceder para comercializar palavras:

…meu coração de menino
precisa dos cuidados teus,
pois, às dores do meu peito,
diploma não faz efeito.

Finalmente, um cliente amarrou um lindo cole no poste de luz do pátio em que estávamos. Choroso pela distância do seu dono ou pela garoa que anunciava a próxima chuva, o cão pastor escocês ficou mais animado com o surgimento imediato de umas crianças. Os pais inconsequentes das mesmas deixaram que o cachorro bancasse o alfa para cima do garoto do pior modo possível, num estilo digno de youtube. A cena foi grotesca. Depois, até fomos conferir se o cachorro era fêmea (só para aliviar), mas não era.

Estou sendo tosco por contar isso? — Toscos eram os pais que viam aquilo e riam sem opor resistência. Por sinal, anteontem conversava com alguém que me disse não ser “refém de gênero”, intelectualmente falando. Respondi que — ora bolas, e põe bolas nisso — todos os homens e mulheres herdamos constitutivamente um pacote de características que não há pseudocultura que possa negar. Viver de mentiras é condenar-se ao fracasso mais rotundo. “Ser homem ou mulher faz parte de nós. Não somos reféns. Carregamos uma bagagem que não é um fardo nem é um cativeiro, entende?”

Ok. Mas não daria para, apenas intelectualmente, abrir mão das nossas peculiaridades para travar um contato mais isento com a realidade? Creio que não. Lado a lado com a estraneidade vai a copertença, isto é, por mais “isentos” que tentemos ser, carregaremos sempre o lastro do nosso barco.

Sem intenções
inverte os fatos
outros olhares.
Um carinho ao acaso
seus lábios roubam
flores do meu coração.

Resumo da bossa? — Adorei o sanduíche. Recomendo!
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