
A lente distorcida do amor romântico
Groucho Marx se perguntava: “O matrimônio é uma instituição maravilhosa, mas quem deseja viver numa instituição?” O comediante americano já utilizava naquele tempo a “nova lente” para entender o matrimônio: a afinidade do casal.
Tal afinidade é uma nova versão do amor romântico que tem
sido corrosiva para a segurança e a estabilidade dos relacionamentos. Desde os
anos 60, muitos passaram a considerar o matrimônio como um projeto
individualista sem relação com a descendência, mas principalmente com a conquista
da satisfação pessoal.
O ideal do amor romântico surgira em fins do século XVIII
como reação aos casamentos impostos por convenção das classes altas ou
procurados por interesse das classes baixas. Contudo, foi a partir da recente
revolução sexual que se transformou numa bandeira para questionar a própria
instituição matrimonial.
Esvaziamento legal do instituto matrimonial
O amor (sentimento de atração) e a fidelidade (compromisso moral e jurídico) se divorciaram.
Sartre, Wilhelm Reich e Marcuse apresentaram o casamento
como o “cárcere do amor”. Essas mudanças culturais e ideológicas logo refletiram‑se
no campo do Direito, de forma que, com a liberação do divórcio, seguiu‑se uma “desjuridificação”
progressiva do matrimônio.
A nova forma de amor romântico não dá espaço para normas
externas ao casal. Assim, alguns autores já dão por suposto que o casamento é
um simples contrato de convivência, um compromisso de apoio
mútuo, desvinculando matrimônio e descendência, autorizando inclusive uniões
homossexuais.
Eis os cinco estágios do gradativo esfacelamento da
legislação civil:
1. Ver o direito ao matrimônio como simples direito de
liberdade e à sexualidade.
2. Entender a ordem tradicional como fruto cultural
e sua impugnação como vitória da liberdade.
3. Criar um matrimônio que pode ser dissolvido e, ao mesmo
tempo, vedar o direito ao matrimônio indissolúvel verdadeiro.
4. Reduzir o matrimônio a uma finalidade meramente
genital ao acatar a mentalidade contraceptiva.
5. Negar a exigência da heterossexualidade: o
matrimônio não teria seu conteúdo determinado pela natureza, mas apenas
pela liberdade. (Esta é uma tendência em muitos países.)
Novas justificativas para a separação
A historiadora americana Stephanie Coontz constatou que, até meados do século XX, ninguém considerava o desapaixonamento um motivo razoável para o divórcio. Porém, contribuíram para isso as revistas femininas dos anos 50 e 60, que alentaram um discurso de descontentamento e promoveram o intimismo e a autorrealização como finalidades do casamento.
Três fatores foram mais responsáveis pelo pico de casamentos
desfeitos nos anos 70 e 80: a crescente expectativa de realização pessoal, a liberação
moral e a emancipação jurídica e econômica da mulher.
Os verdadeiros prejudicados
Desde então, muitos acusaram o divórcio de prejudicar os
filhos. Contrargumenta‑se que o conflito precedente ao divórcio já causava
o trauma. Visto que em ⅔ dos casos o divórcio não tem procedido de conflitos, tal
argumento seria raramente válido, pois exigiria a exposição das crianças a
elevados níveis de agressão. Na verdade, os filhos perdem a confiança no amor e
no compromisso quando veem que seus pais se divorciam pelo mero fato de se
terem distanciado.
Mas o divórcio também prejudica o próprio casal. Uma
separação injusta pode levar a um declive emocional, a dificuldades no
trabalho, à deterioração do relacionamento com os próprios filhos.
Dentro da lógica do amor romântico, os que possuem
menos recursos — emocionais, sociais e econômicos — estão mais expostos a que
se desfaça sua união. Com efeito, a taxa de divórcios, o grau de insatisfação
dos cônjuges e o número de nascimentos fora do casamento são maiores nas
classes baixas. Ou seja, a “democratização do amor” abriu um novo fosso
entre ricos e pobres: a desigualdade matrimonial.
Soluções
Primeiramente, é preciso entender o caminho do “fracasso conjugal”. É curioso que, embora a preparação para a vida profissional, sacerdotal ou religiosa se estenda por muitos anos, a preparação para o matrimônio seja reduzida a uma afeição súbita e a um treino da cerimônia.
Contudo, preparação não é experimentação. Com
essa desculpa, muitos namoram e permanecem noivos por anos a fio. Ora, um
projeto de vida a dois não se reduz à hipotética “compatibilidade sexual”. A verdadeira
preparação consiste na amizade.
Aristóteles distinguia três formas de amizade: pelo
prazer, pelo interesse e pelo bem. A amizade pelo bem é a mais elevada, pois
une os amigos pela virtude. As outras duas não costumam durar muito,
pois se baseiam no sentimento de agrado ou na própria conveniência.
Ora, a amizade pelo bem só é possível entre pessoas
virtuosas. Por isso o matrimônio é um convite para os cônjuges se transformarem
em pessoas boas. Só um homem bom será fiel à sua esposa quando sentir atração
sexual por outra. E só uma mulher boa ficará ao lado do marido apesar da doença
ou da penúria.
Por isso o matrimônio é um bem: porque pode tornar
o homem e a mulher pessoas boas.
Por isso o matrimônio é um ideal: porque exige busca
e aperfeiçoamento constantes.
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E você? Sabe ser amigo? Tem muitos amigos?