29 de dez. de 2014

Postagem derradeira


Eu tinha feito um compromisso comigo mesmo de pôr um ponto final a este blogue quando chegasse à 500ª postagem. Faz tempo que parei de escrever, desde a 499ª, como que a esperar uma definição dos novos caminhos a seguir.

Penso que o blogue foi um excelente exercício retórico. Minha expectativa é que tenha agradado aos leitores. O Depósito de ideias me serviu de laboratório, viagem, treino e desabafo.

Sinto se ficou algum assunto pelo meio do caminho. Mas agora chegou o momento de novas frentes de batalha, outras linhas de atuação…

Portanto, um bom 2015 a todos, e muito obrigado!

27 de ago. de 2014

Plágio sem creative commons

O plágio e seus tipos

Plágio acadêmico é a apropriação de ideias ou expressões alheias, sem referência aos seus autores. Tais referências podem ser diretas, com as devidas citações, ou indiretas, mediante a explicação e o pertinente comentário das fontes consultadas.

O plágio mais grosseiro é o integral, que reproduz a fonte de pesquisa como se fosse oriunda da própria lavra. Contudo, também são plágios duas formas mais sutis. Por um lado, há o plágio parcial, que mescla locuções de diversa procedência; por outro, há o plágio conceitual, que consiste na reprodução das ideias com a mera substituição das palavras.

Implicações éticas do plágio

A palavra define o homem. Ο homem é alguém que fala e que escuta. Seu universo discursivo baliza sua compreensão do mundo. O domínio da linguagem não só lhe permite entender seu entorno como interagir com as outras pessoas e atuar sobre elas. De fato, a interação com os demais comporta duas dimensões: o mimetismo e a influência, reproduzir ou produzir.

A Universidade tem uma missão especial: introduzir o homem na autonomia, conduzi-lo à capacidade autoral, à produção intelectual, para além da simples imitação.

Não obstante, o plágio acadêmico, tão facilitado pelos hipertextos, pela fragmentação do conhecimento e sua difusão massiva da informação, apresenta-se como uma chaga da produção intelectual universitária. Afinal, o plágio elude a responsabilidade pelo cultivo do saber e priva de autenticidade a produção acadêmica.

O conhecimento, tanto o gerado quanto o transmitido, comporta, portanto, uma dimensão ética. Não é inócua a forma de lidar com as palavras nem de criar pontes com elas. A proteção do direito autoral, reconhecida por lei, demonstra e expressa juridicamente a existência de exigências morais na gestão do conhecimento.

***

A UFF tem publicada uma cartilha bem interessante sobre o plágio acadêmico que merece a leitura: http://www.proppi.uff.br/portalagir/sites/default/files/cartilha_autoria_-_digital.pdf.

23 de jun. de 2014

Para tempos como esses que vivemos

Os sentimentos são como o mar, afetados pela Lua, pela ressaca, pela poluição, pelas correntes, pelos bichos que o povoam e aterrorizam. O mar é traiçoeiro, no mar dá para surfar, pelo mar é costume singrar. Mas também se afogar.

O mar é salgado como o suor. O mar é cristalino ou turvo, suave ou encrespado, revolto ou sereno, refrescante ou enregelante. Mas o mar nunca mata a sede.

Tem gente cujo coração é de mar. Outros tantos têm o mar na cabeça, agitando pensamentos, refletindo à deriva, mergulhando nos sonhos. Uns e outros rodopiam nas marés que puxam a vida para longe da segurança da praia.

No mar da vida encontramos algumas boias, amigos e amores aos quais confiar nossa sobrevivência e respiração. Às vezes, sucumbimos com eles; outras, eles nos rebocam.

O mar é traiçoeiro, irmão. É forçoso nadar, e nadar com ânsias de sobrevivência.

2 de jun. de 2014

Conexão & Química

Química é expectativa. Altura, cor de cabelo. Simpatia e atração recíprocas. Instinto. Desnecessária, puro bônus. 

Conexão foi soldada com a emoção. Convicção esculpida no coração. Segurança. Cumplicidade. Laço.

Química embriaga. Conexão abraça. Química destrói reputações. Conexão forja relações.

O livro Silmarilion descreve as joias nas quais foram encerrados os raios das árvores de luz. Da árvore solar e dourada em seu entardecer e da árvore lunar argêntea em seu alvorecer.

Química e Conexão concorrem juntas na confecção de uma joia rara que é o amor, como o brilho dessas árvores mitológicas.


30 de mai. de 2014

Quatro formas de olhar

Olhar indiferente

A vida imita a arte porque a vida é monótona. A arte quando imita a vida é novela chata. Quero a surpresa, quero o inusitado. Falta sal, falta brinde.

Para que olhar? Seduza-me.

Olhar através

Triste olhar de quem perdeu a perspectiva. Miopia da vida que ignora o que vê, que se faz cega por fechar os olhos e não pelo ofuscamento de contemplar de frente o Sol.

A quem olhar? Hora de acordar.

Olhar detalhista

Olhar esparramado sem foco nem respeito. Sem peito para enfrentar a vida, que vai furtivo de flor em flor sem nenhuma visitar. A multidão dos detalhes desagrega, confunde, perde, desvia.

Para que olhar tanto? Procuro um quê ou procuro um quem?

Olhar abarcante‎

Meus olhos brilham para ti, canta Marisa Monte, porque a verdade é uma ilusão vinda do coração. O amor não idealiza, ele concretiza. Porque sem ele a realidade é cinza. Porque como vamos desejar o que é imperfeito se o olhar amoroso não conferisse a quem é olhado a visibilidade que lhe falta?

Para que olhar tudo? Basta olhar você.

5 de mai. de 2014

Entender para crer

Narrativa e verdade

Ariano Suassuna contava um caso engraçado, de um homem que, narrando um fato divertido, era interpelado por seu ouvinte por causa de uma inconsistência da historieta. O contador lhe retorquiu: — Você quer saber a história ou quer saber a verdade?

Entre o texto e a memória, entre a imaginação e a história: o que é possível encontrar aí? Sem dúvida, seria ingênuo esperar alcançar o próprio objeto da narrativa, tal e qual, isento de interpretações. Mas também seria doentio pensar que o objeto de estudo é uma mera tela em que se projetam ideias pré-concebidas.

Razão e crença

Na maioria das vezes, os argumentos contra a historicidade de algum testemunho antigo advém da ignorância do contexto ou do estilo, e da desconfiança na fonte.

Nossa racionalidade está, em alguma medida, baseada em conhecimentos de cunho probabilístico; portanto, não faz sentido opor razão e crença. Afinal, o conhecimento humano é todo baseado em crenças razoáveis.

Mito e filosofia

O mito é um caso particular nessa problemática. Sem autor nem data, o mito explica a realidade, mas não se explica a si mesmo. A crítica filosófica pretende acabar com a referência mítica, atitude que pode causar fragmentação e degenerar no relativismo filosófico e moral. A partir daí, torna-se crime de opinião voltar a buscar referenciais absolutos. Nasce a batalha entre a filosofia mítica e os mitos filosóficos. É o que vemos, por exemplo, na pós-modernidade decepcionada com as caducas profecias modernas de prosperidade através da ciência.

Logos e história

O cristianismo apropriou-se do discurso filosófico, mas os cristãos terão conseguido superar tal ruptura entre tradição e razão? Com efeito, é muito frequente deparar-se com católicos incertos quanto às suas raízes históricas e empedernidos em sua incoerência intelectual.

Enquanto discurso, a história sagrada tem cunho literário parecido ao mitológico; enquanto síntese teológica, a profissão de fé tem caráter comunitário e normativo. A articulação desses polos tem sofrido bastante diante de uma cultura cética e descrente da razão.

Tradição e teologia

Faz-se necessário resgatar a confiança na razão. Carl Rahner dizia que o homem é um ouvinte da Palavra: de fato, de nada adianta Deus falar se não houvesse alguém capaz de ouvir. Portanto, a missão da fé é compreender o que ouviu, explicitar seu fundamento.

Se o objeto da fé é racional, a teologia consiste no esforço de compreensão do objeto da fé. Não há razão para o medo protestante de que a teologia seja uma racionalização indevida da fé, uma construção idolátrica que falseie a verdadeira face de Deus.

28 de abr. de 2014

O triunfo das três feras

Freud, Marx e Nietszche são os três “mestres da suspeita”, na expressão de Paul Ricouer. Simbolizam a concupiscência da carne, a concupiscência dos olhos e soberba da vida (cf. 1Jo 2,16), e assemelham-se às três feras que acossavam Dante na Divina Comédia: a pantera sensual, o lobo rapace e o leão orgulhoso (cf. Inferno, I, 31-60).

Terão triunfado? Ou apenas souberam exprimir o que o homem caído de todas as épocas concebeu no seu coração ferido? Sem dúvida, não fazem uma descrição da realidade, mas elegem uma dimensão humana (o sexo, a economia, o poder) como razão de transformação da realidade.

As ideias desses pensadores podem conter muita “lógica”, mas são tão “dogmáticas” quanto qualquer fideísmo. Em comum, racionalistas e fideístas afirmam que o mundo não é razoável, que o ser é caótico, que o seu sentido nós é que projetamos e plasmamos. Com efeito, Kant, em sua Crítica da Razão Pura, afirma que o ser em si é fundamentalmente não racional. Portanto, qualquer tentativa de filosofar (a nível verdadeiramente metafísico) conduziria a erros e criaria ídolos.

Daí que a metafísica tenha sido banida das escolas de filosofia, abandonada em prol de questões fragmentárias, substituída por fenomenologia, hermenêutica de textos ou análise crítica da linguagem.

Karl Barth
Daí também que o protestantismo tenha renunciado à filosofia clássica. Um de seus maiores expoentes, Karl Barth, chega a afirmar que a razão pela qual estaria errado ser católico é a aceitação da tese metafísica da analogia do ser. Para ele, qualquer analogia entre o ser divino e o ser criado seria uma falsificação de Deus.

Por isso é que o protestantismo resgatou a iconoclastia, aquela heresia empoeirada do século IX que proibia o culto de imagens. A iconoclastia protestante ataca não o gesso das estátuas, mas o simulacro de Deus que indubitavelmente conduziria o homem à idolatria. Como um namorado que fosse trocar sua namorada por uma fotografia dela.

***

A fé verdadeira exige a razão, pois a racionalidade é constitutiva do ser. Ao mesmo tempo, a razão saudável precisa do suprassensível, do transcendente, pois a verdade nos abre para algo que nos precede e nos liberta do nosso “eu” pequeno e limitado, aferrado a meras certezas, garantias e utilidades.

20 de abr. de 2014

Crer para entender

Feliz Páscoa, queridos leitores!

Ontem, na solene Vigília Pascal, tive a oportunidade de novamente ouvir os relatos fundamentais — ou, melhor dito, fundantes — da visão cristã do mundo: a criação e o êxodo. Enquanto escutava o Hino dos Seis Dias (Gn 1,1–2,2) e a descrição da Travessia do Mar Eritreu (Ex 14,15–15,1), passaram-me pela cabeça muitas lembranças de conversas que já tive com pessoas céticas, as quais, imbuídas de um racionalismo superlativo, tropeçam escandalizadas no cunho mitográfico das primeiras páginas bíblicas.

Tal tipo de conversa tem crescido à minha volta nos últimos tempos. Por um lado, por causa do filme “Não É — a incrível história do homem que não é Noé” (esse midrash mal feito do Aronofsky sobre a história de Noé); por outro, devido à minha pós-graduação em arqueologia, ambiente favorável tanto para a crendice no caráter probatório dos achados arqueológicos quanto para a desconfiança doentia de tudo o que não seja empírico.

O dilema é simples: o Pentateuco é histórico ou é mitologia?

A resposta, porém, não é simples. Vejo o Pentateuco como narrativa de memória, não história. Ao mesmo tempo, vejo o Pentateuco como mitografia, não mitologia.

Geralmente, a história pretende rigor, precisão, método, na descrição de fatos passados. Ora, o Pentateuco pretende estabelecer para Israel a sua origem, não a sua história. E sua origem remonta à protologia, não à história! O mundo foi criado tendo em vista Israel, pois o mesmo ato criador de Deus que dominara o Oceano primordial é o ato que expõe o dorso do Mar “Limítrofe” (hebraico Sof)! Segundo a concepção antiga, o Mar Vermelho (egípcio Suf) seria a borda do mundo!

Uma comparação bem próxima a nós: os combatentes da Batalha de Guararapes (brancos, negros e índios) nunca imaginariam que, séculos depois, seriam considerados os fundadores do Exército Brasileiro e que à sua época teria nascido a alma brasileira, fusão das três raças. Ou seja, a batalha ocorreu de fato, mas seu significado só foi reconhecido e aplicado muito posteriormente. Isso é história? Isso é mito?

Geralmente, a mitologia conta a biografia dos deuses: seu nascimento (teogonia) e suas lutas (teomaquia). Não é o caso da Bíblia, em que Deus antecede as vicissitudes do cosmo e impera sobre ele. Se a cosmogonia bíblica fosse uma teogonia, não seria uma criação, mas uma emanação. A diferença entre essas concepções é grande.

Emanação significa que o mundo é “magma”, na expressão de Cornelius Castoriadis, cuja ordem lhe vem imposta de fora. Para Platão, seria a obra do demiurgo sobre o caos; para Aristóteles, influxo do motor imóvel.

Criação significa afirmar que Deus não precisa de causalidade material para atuar. Significa que seu Logos possibilita e funda a existência. Significa que a natureza não é só natureza, mas criação, isto é, está fundamentada na lógica do criador. A ciência moderna é fruto dessa fé. Não haveria ciência moderna sem o cristianismo, pois a razão sem fé enlouquece, fica cega.

Assim, para o homem moderno em sua cegueira, quem põe ordem no caos “sou eu”, pois num mundo pluriversal e fragmentário, a verdade é criada “por mim” e “para mim”. Adorno e Horkheimer analisaram o Iluminismo e reconhecem que ele se nutre da divinização da verdade. Contudo, se a verdade é um construto humano, não pode haver luz. Se não há metafísica, se não há fé, se não há transcendência, a razão é irracional.

O reducionismo da razão implica afirmar que só seria racional o que pode ser reproduzido como experiência. Assim, renuncia-se à verdade para ficar com a certeza, mas morre-se na dúvida cartesiana.

A missão da razão é abeirar-se ao mistério, não negá-lo.

Se não acreditardes, não compreendereis! (cf. Is 7, 9)

1 de mar. de 2014

Quão longe é tão longe?


Sexo não é rito de passagem, nem uma experiência que transforme um moleque num homem.

Por outro lado, a avalanche pornográfica e o incentivo à promiscuidade tornaram toda uma geração imatura e amolecida.

Bom é que nem todo mundo é obcecado por sexo casual, embora o Doutor Correto e a Dona Direita não sejam fáceis de encontrar em cada esquina.

Estes são mitos comuns, que enganam muitas mulheres: “Ele nunca vai me querer se eu não fizer sexo com ele. Todo homem precisa de sexo para dar amor. Não encontrarei amor se não semear sexo. O sexo de hoje à noite é o relacionamento de amanhã de manhã”. Por isso, tantas pessoas guardam dores emocionais relativas ao lado físico das relações.

Para conhecer as intenções de alguém, é preciso — respire fundo — tirar o sexo de cima da mesa. Sexo não é ignição nem combustível do namoro: apenas embaralha as intenções. Para saber se alguém quer conhecer você, não será o melhor caminho oferecer-lhe benefícios físicos.

Nós homens sempre trabalhamos pelo que queremos. Presa fácil é presa descartável.

Nossas mentiras

“Se você me amasse, você dormiria comigo”. Significa o contrário de “se eu a amasse, respeitaria suas barreiras.”

“Tenho necessidades, e o sexo é uma delas”. Você conhece alguém que tenha morrido de continência?

“Eu amo você”. Às vezes isso é mentira, pois os homens gostam de dizer o que as mulheres querem ouvir.

“Não vamos saber se somos compatíveis se não fizermos sexo”. Esse papo de compatibilidade baseia-se em desejos e comparações. Ora bolas, estamos falando de amor ou de mercadorias?… Na verdade, somos sexualmente compatíveis com quem amamos de verdade, pois esse é nosso jeito de funcionar!

“Você vai acabar sozinha se não fizer concessões”. Simplesmente, você está procurando jeca, buscando amor no lugar errado.

“Qualquer coisa que você faça na viagem, na faculdade, etc., não importa, será uma única noite”. Somos a nossa memória. Qualquer decisão sexual permanece e aflora nos momentos mais inconvenientes.

“Quanto mais fisicamente unidos, mais gostarei de você”. Não necessariamente. Homem gosta de desafio; portanto, não ceda que ele gostará ainda mais!

“Nós nos amamos de verdade. É como se já estivéssemos casados”. Morar junto não é casar. Dividir quarto e dinheiro é coisa de república estudantil. E não era essa a história de amor com que você sonhava.

Algumas verdades

Para as mulheres: Seja elegante sempre. Nunca seja vulgar. Troque o sexo de fim de semana pelo sexo de uma vida inteira.

Para os homens: Todo jovem que toca a campainha de um bordel está inconscientemente à procura de Deus, já dizia Bruce Marshall. Quem deseja luxúria constata que seu coração está vazio, e que lhe faltam muitas virtudes, especialmente a da religião.

Para ambos: Casamento é contexto. Amor é projeto. Família é laço. Sem isso, o sexo é peça sem palco, história sem roteiro, diálogo sem ator.

Lembre-se: uma nota de 100 reais é sempre uma nota de 100 reais. A gente pode amassar, molhar, sujar, etc. Continua sendo uma nota de 100 reais. Ou seja: não importa o que tenhamos feito no passado. Importa o que fazemos hoje e agora. E importa muito mais quem somos. E somos muito mais que 100 reais!

1 de fev. de 2014

O beijo não vem da boca

Já dizia Ignácio de Loyola Brandão que o beijo não vem da boca. Mas será que ele vem sempre do coração?…

Além disso, nem tudo que sai do coração é bom. O problema é que a mesma boca que te beija pode ser a boca que te escarra.

O problema também é que Deus é amor, mas o amor não é Deus. Ou seja: o amor não coonesta tudo. Quanto vale um amor sem sinceridade? Tanto quanto a liberdade sem a verdade. Podem chamar quaisquer afetos de amor, mas o amor verdadeiro envergonha-se do que a natureza veda, já dizia Andreas Capellanus.

Mas voltemos ao beijo. Existem três tipos:
  • basium, entre conhecidos (são as formas de se cumprimentar socialmente);
  • osculum, entre amigos (ósculo, aquele que faz biquinho);
  • suavium, ou beijo dos amantes, cujo pudor exige discrição.
O cumprimento pode ser hipócrita como o de um fariseu; o ósculo pode ser traidor como o de Judas; e o beijo pode ser mentiroso como o de uma prostituta.

Olavo Bilac pedia:

Quero um beijo sem fim,
Que dure a vida inteira e aplaque o meu desejo!,
Ferve-me o sangue, acalma-o com teu beijo,
Beija-me assim!

Total: pode-se compor odes ao amor e elogios ao beijo, mas nem sempre encontrá-los, ou buscá-los onde não se encontram. Também o amor e suas manifestações necessitam de purificação!…

18 de jan. de 2014

Rio de alegria

Rio de fé

Quando me ofereceram a oportunidade de participar das filmagens de “Rio de Fé, um encontro com Papa Francisco” — o documentário dirigido por Carlos Diegues sobre a Jornada Mundial da Juventude Rio2013 — senti um misto de lisonja, entusiasmo e expectativa. Afinal, não é todo dia que se tem a chance de representar o sentimento de milhões de pessoas.

Por um lado, eu já vinha trabalhando como voluntário nos preparativos do evento e ansiava por ver o Papa Francisco de perto pela primeira vez. A perspectiva de fazer parte do registro era, sem dúvida, cativante.

Por outro lado, havia o interesse por conhecer Carlos Diegues, o renomado cineasta brasileiro que produz, desde 1959, uma obra a cada três anos em média, várias das quais premiadas internacionalmente.

Depois de inúmeros filmes marcados de humor, crítica social, e análise política e econômica, Cacá tinha decidido realizar um documentário sobre a fé. Motivo: ao saber da eleição do Papa Francisco, sentiu-se comovido, pois fizera todos os seus estudos em instituições de ensino jesuítas.

O briefing da filmagem explicava que a Cidade Maravilhosa tem vocação à alegria e à paz, tanto por suas belezas naturais, quanto por seu povo receptivo que, mesmo diante das adversidades, é capaz de “inventar a felicidade”. Assim, não haveria melhor cenário que o Rio de Janeiro para a JMJ, pois as Jornadas são uma ode à alegria. “Com efeito — citava Bento XVI —, a alegria é um elemento central da experiência cristã. Também durante cada Jornada Mundial da Juventude fazemos a experiência de uma alegria intensa, a alegria da comunhão, a alegria de ser cristãos, a alegria da fé. É uma das características destes encontros. E vemos a grande força atrativa que ela tem: num mundo com muita frequência marcado por tristeza e preocupações, é um testemunho importante da beleza e da fiabilidade da fé cristã” (Mensagem para a XXVII Jornada Mundial da Juventude 2012).

Concluía o cineasta: “O principal objetivo de nosso filme é esse grande abraço místico e humano, peregrino e missionário, cristão e universal, que é a JMJ. E que, pela cidade onde ocorrerá, poderia chamar-se Jornada Maravilhosa”.

Cultura do encontro

Penso que não se deva tomar a citação de Bento XVI fortuitamente, pois muito se tem falado do contraste entre Francisco e seu antecessor durante o primeiro ano do novo pontificado. O que se contrastou, porém, não condiz com a realidade. Pude reparar isso ao participar do filme, ao conversar com pessoas das mais variadas linhas, ao ler os jornais, e ao participar à mesa do debate de lançamento do documentário, ocorrido na PUC-Rio (a íntegra do debate pode ser encontrada aqui).


O evento de lançamento reuniu integrantes de diferentes religiões e movimentos e tratou da necessidade de tolerância religiosa na cidade do Rio de Janeiro, pois a convivência pacífica durante a Jornada Mundial não costuma ser habitual do dia a dia de muitas localidades cariocas.


Ao longo da discussão, em que houve uma animada participação do público, duas tensões se notabilizaram.

A primeira foi uma atitude crítica, velada e subjacente, dirigida contra a Igreja Católica e suas instituições, acusadas de serem demasiadamente verticalizadas, invasivas e anquilosadas. Curiosamente, ao mesmo tempo se denunciou a falta de empenho da hierarquia eclesiástica em mobilizar os leigos para participarem da marcha pela liberdade religiosa que ocorre periodicamente em Copacabana. Traduzo noutros termos: “a liberdade para mim, e a obediência para os outros”.

A segunda tensão constatada foi a ingênua convicção de que o novo Papa é um revolucionário pelo simples fato de ser simpático (quesito em que, consequentemente, os Papas anteriores teriam deixado a desejar). Um dos presentes, que representava determinado grupo de homossexuais católicos, fez-me uma indagação justamente sobre esse ponto, pois ele tinha a impressão de que o novo pontificado auspiciava tal transformação da Igreja que permitiria a reabilitação de Leonardo Boff, posto de escanteio pelos papas anteriores.

Uma pequena digressão: sem dúvida, o Papa Francisco aposta na “cultura do encontro”. O documentário em questão demonstra isso e procura evidenciá-lo a partir de diferentes histórias de peregrinos, voluntários, cidadãos comuns, representantes de outras religiões, etc. E como diz o provérbio chinês, que para abrir uma loja o primeiro passo é sorrir, o atual Romano Pontífice oferece o seu em abundância.

Saber rir das revoluções

Mas chegara o momento de eu responder à pergunta do militante homossexual, defensor de Leonardo Boff e feliz com a saída de Bento XVI. O moderador do debate me solicitou brevidade, pois a minha resposta fecharia as discussões daquela noite.

O espaço deste artigo me permite ser mais explícito nas considerações que ora pude tecer.

Primeiramente, as pessoas se lembram de nós não pelo que dissemos, mas pelo que lhes fizemos sentir. O Papa Francisco tem-nos feito sentir aquilo que os Papas anteriores já diziam. Não há um contraponto, não há um contraste. Só nova embalagem.

A questão é: por que as embalagens anteriores foram rechaçadas pela opinião pública?

O próprio Papa Francisco já percebeu que lhe foi atribuída a aura de revolucionário. Por exemplo, em sua recente Exortação Evangelii gaudium, alude ao aborto voluntário dizendo que “não se deve esperar que a Igreja altere a sua posição sobre esta questão. A propósito, quero ser completamente honesto. Este não é um assunto sujeito a supostas reformas ou «modernizações». Não é opção progressista pretender resolver os problemas, eliminando uma vida humana” (n.º 214).

Muito mais revolucionário — e visionário — foi Bento XVI ao renunciar (o que não ocorria há 700 anos). Pensando em “novidades”, não foi uma revolução a restauração do rito anglicano no Ocidente (depois de 500 anos), com a possibilidade de se admitirem sacerdotes casados? Se não bastasse, Joseph Ratzinger, antes de ser Papa, estivera por trás da composição do Catecismo da Igreja Católica (o primeiro catecismo oficial da história) e da Declaração Conjunta da Igreja católica com luteranos e metodistas sobre o tema da justificação (que fora justamente a causa da reforma protestante). A lista poderia se estender indefinidamente, mas não é o caso.

Basta frisar que essas conquistas significaram mudanças reais na vida da Igreja das últimas décadas, e são muito mais profundas do que efêmeras emoções midiáticas. Do mesmo modo, seria possível enumerar outras tantas realizações de João XXIII (convocação do Concílio), Paulo VI (reforma litúrgica), João Paulo II (por exemplo, o novo Código de Direito), etc., que repercutem até hoje no dia a dia de milhões de cristãos.

Leonardo Boff e a cultura do “reencontro”

Em segundo lugar, em minha resposta durante o debate era necessário aludir a Leonardo Boff.

O documentário de Cacá Diegues levanta controvérsias “salutares” justamente porque o filme foi considerado oficial. Às críticas das alas mais conservadoras, minha sugestão é fazer limonada com o limão alheio.

Por que o afamado Boff aparece no filme? Aparece porque é afamado. Os católicos assumirão essa culpa? Afinal, alguém deve ser o culpado de que a intelligentsia brasileira, quando pensa na Igreja, logo se lembra de um dissidente que vive a expensas de ser um outsider.

Se o documentário é um produto oficial da JMJ, ele tem necessariamente uma chave hermenêutica ortodoxa. Portanto, se o Boff ali aparece, é que está se convertendo e se reaproximando com humildade do seio da Igreja outrora rechaçada por ele. De fato, ele fala coisas sensatas no filme, embora seja discutível o tipo de relação que ele estabelece entre paz social e paz entre as religiões.
Eu rezo sinceramente por essa intenção: que Leonardo Boff se converta. Seria uma alegria que, além de dizer que não é mais um marxista (coisa que ele tem feito ultimamente), resolvesse confessar-se e voltar a ser católico de missa dominical, fiel à doutrina do Catecismo. Essa seria um verdadeiro “efeito Francisco”!

Quem é, afinal, o papa do amor?

Por fim, a terceira parte da minha resposta no debate foi sobre o amor.

O teólogo sueco Anders Nygren (1890-1978) tornou-se eminente professor da Universidade de Lund, e depois bispo luterano dessa cidade. Também foi presidente da Federação Luterana Mundial. Filósofo da religião, exegeta habilidoso, historiador versátil, teólogo genial e pastor sensível, Nygren se valeu da filosofia kantiana em sua teologia. Ativo defensor do ecumenismo e ferrenho opositor do nazismo, fez-se internacionalmente reconhecido por seu livro Agape and Eros. Essa excelente obra, entretanto, não representa o cerne de seu pensamento. No livro, Nygren explica que, segundo Platão, eros é o amor sedento do Belo transcendente, o que eleva o humano para o divino, o único capaz de saciar a ansiedade da alma aprisionada na matéria; mas, porquanto busca o êxtase da união, seria amor egocêntrico, cobiça. Com o correr dos séculos, o significado de eros teria sido abaixado até assumir notas meramente sexuais.

Tal distinção entre eros e agape, com a reserva deste último para o verdadeiro amor cristão, tornou-se lugar comum em nossa cultura. Há quem não consiga compatibilizar o erotismo com o amor oblativo, coisa bem palpável na música Amor e Sexo, de Arnaldo Jabor e Rita Lee.

Bento XVI criticou essa distinção em sua primeira Encíclica, Deus caritas est, na qual ensinou que tanto eros quanto agape são aspectos do mesmo amor divino. Naquela época, sua ousadia lhe valeu o epíteto de “Papa do Amor”. A continuação do seu fecundíssimo magistério não desmereceu o título. Ratzinger foi um grande teórico do amor. O cristianismo é a religião do Logos, da “lógica” de Deus, mas justamente a lógica de Deus é a lógica do amor.

Bento XVI e Francisco escreveram a primeira Encíclica a quatro mãos da história da Igreja. Não à toa, no magnífico texto há uma seção em que o amor é apresentado como uma forma de conhecimento. O amor tem um Logos. Isso é muito importante. Nos debates sobre a afetividade, é preciso resgatar a racionalidade do amor. Deus é amor, mas o amor não é Deus.

Uma torrente de alegria

Gostaria de concluir fazendo referência a um convite Papa Francisco, para que, a partir dessa experiência de um “Rio de Fé” que foi a JMJ, entremos num “Rio de Alegria”:

Porque não havemos de entrar, também nós, nesta torrente de alegria? (…) Há cristãos que parecem ter escolhido viver uma Quaresma sem Páscoa. Reconheço, porém, que a alegria não se vive da mesma maneira em todas as etapas e circunstâncias da vida, por vezes muito duras. Adapta-se e transforma-se, mas sempre permanece pelo menos como um feixe de luz que nasce da certeza pessoal de, não obstante o contrário, sermos infinitamente amados. (…) A tentação apresenta-se, frequentemente, sob forma de desculpas e queixas, como se tivesse de haver inúmeras condições para ser possível a alegria. Posso dizer que as alegrias mais belas e espontâneas, que vi ao longo da minha vida, são as alegrias de pessoas muito pobres que têm pouco a que se agarrar. Recordo também a alegria genuína daqueles que, mesmo no meio de grandes compromissos profissionais, souberam conservar um coração crente, generoso e simples. (…) Não me cansarei de repetir estas palavras de Bento XVI que nos levam ao centro do Evangelho: «Ao início do ser cristão, não há uma decisão ética ou uma grande ideia, mas o encontro com um acontecimento, com uma Pessoa que dá à vida um novo horizonte e, desta forma, o rumo decisivo».
(Evangelii gaudium, nn. 5-7)

16 de jan. de 2014

A viagem de Bunyan

O Peregrino, de John Bunyan (1628-1688), é considerado o segundo livro mais vendido da história (antes mesmo do Corão). A razão do estranho sucesso advém de que costumava vir publicado como apêndice nas bíblias protestantes inglesas. Se não fosse assim, sua difusão teria sido infinitamente menor.

O drama consiste na descrição dos dez estágios pelos quais um cristão migra da Cidade da Destruição até a Jerusalém Celestial.

Do ponto de vista literário, o resultado final é bastante inferior à narrativa de peregrinação descrita na Commedia de Dante Alighieri, a qual também guarda uma conotação espiritual.

O mérito de Bunyan foi reabilitar a alegoria como instrumento catequético moral, valendo-se de passagens bíblicas como urdidura. Não obstante, suas alegorias são muito menos sutis que as de outro autor anglicano, C. S. Lewis.

Bunyan era batista calvinista, dissidente do anglicanismo oficial. Portanto, é esperado que sua obra contenha alguns inconvenientes doutrinais. Saltaram-me à vista os seguintes:

a) Critica Moisés acerbamente.

b) Apresenta a vida cristã como uma conquista individual.

c) Afirma a absoluta corrupção da natureza humana, mas…

d) … quanto à salvação, valoriza totalmente o livre-arbítrio e omite a predestinação (?!?).

e) Blasfema contra o Papa.

Pessoalmente, achei o livro triste. O caminho do cristão pode ser estreito, mas é repleto de alegria.

12 de jan. de 2014

Conquistar amizades

Quem tem amigos verdadeiros, os tem muitos. Cada amizade agrega aspectos diversos que nos abrem e enriquecem.

Às vezes, porém, encontramos gente com poucas amizades. Talvez porque tenha mais cumplicidade que companheirismo, ou mais medo à decepção que coragem de arriscar. Talvez porque cultive poucas experiências verdadeiras ou seja superficial nas relações.

Quais são os meios para conquistar muitas amizades?

I. Abrir-se
1) atentar às pessoas à nossa volta
2) falar de assuntos pessoais
3) não ser nem esfinge nem múmia

II. Gastar tempo com os outros
4) sair com os amigos
5) convidar para ir em casa

III. Compromisso e sacrifício
6) corrigir
7) ajudar

IV. Integrar os amigos à nossa religiosidade
8) rezar pelos amigos
9) aproximá-los de Deus

26 de dez. de 2013

El ciego del naranjel


Esse é um villancico extremeño, uma das mais belas músicas de Natal que conheço.

Deixo-lhe a letra, com meus sinceros desejos de um feliz Natal!


***

Camina la Virgen pura
camino de Nazareth,
con su Niñito en los brazos,
que más bello que el sol es.

A la mitad del camino 
pidió el Niño de beber.

— No pidas agua, mi vida

no pidas agua, mi bien, 
que van los ríos muy tubios 
y ya no se “puen” beber. 

Un poquito más “alante”

hay un verde naranjel 
cargadito de naranjas 
que ya más no “pue” tener.
Un ciego lo está cuidando,
ciego que no puede ver.

— Ciego, mi buen cieguecito,
si una naranja me dieras
para la sed de este niño
un poquito entretener.

— Coja usted, buena señora,
coja usted, buena mujer,
y en cogiendo para el Niño,
coja las que quiera usted.

La Virgen, como era Virgen,
no cogía más que tres;
el Niño, como era niño,
todas las quiere coger;
cuantas el Niño cogía
volvían a florecer.

— Toma, ciego, este pañuelo,
limpia los ojos con él.

Apenas se fue la Virgen,
aquel ciego empezó a ver.

— ¿Quién sería esa Señora,

que me ha hecho tanto bien? 
Si será la Virgen pura 
y el Niñito de Belén, 
si será la Virgen bella 
y el glorioso San José.

24 de dez. de 2013

Nosso Menino



Heitor Villa-Lobos (1887-1959).

Versão gravada pelo Coral Barroco na Bahia sob a direção de Hans Bönisch.

O nosso Menino nasceu em Belém.
Nasceu tão somente para nosso bem.
Nasceu sobre as palhas, o nosso Menino,
Mas a Mãe sabia que ele era divino.
Mas a Mãe sabia que ele era divino.
Vem para sofrer a morte na Cruz
O nosso Menino: Seu nome é Jesus.
Por nós ele aceita o humilde destino.
Louvemos a glória de Jesus Menino.
Louvemos a glória de Jesus Menino.



Um Santo e Feliz Natal a todos os meus leitores!

16 de dez. de 2013

A escolha mais sábia

Hermannus Contractus da Suábia (18/7/1013-24/9/1054) foi um monge beneditino coxo, apelidado justamente de Contractus por ter as pernas contraídas.

Por muito tempo, implorou com insistência à Mãe de Deus que o libertasse da sua enfermidade, até que um dia a própria Virgem Maria lhe apareceu dizendo:

— Meu filho querido, em razão de tuas preces, eu obtive para ti um desses dois favores: ou tu continuas a ser enfermo, mas bem versado em muitas ciências, tanto humanas quanto divinas; ou tu serás curado, mas permanecerás adornado com a inteligência que tiveste até agora. Escolhe um dos dois, pois ambos os favores não poderás ter.

Hermannus sabiamente optou pelo primeiro e, desde então, começou a fazer progressos intelectuais sem paralelo. Tornou-se compositor, músico, matemático, astrônomo, historiador e teólogo, além de versado em grego e árabe. Também construiu instrumentos musicais e astronômicos. Suas obras podem ser lidas em http://flaez.ch/hermannus/.

Pode-se dizer que sua maior sabedoria foi fazer tal escolha.

Em consequência de tão singular favor, Hermannus nutriu enorme devoção por Maria Santíssima, a quem compôs belíssimos hinos e melodias, até hoje executados, como o tonus solemnis da Salve Regina. De sua lavra, destaca-se o maravilhoso Alma Redemptoris Mater, que é a antífona maior do Advento e do Natal.


Hermannus teve seu culto como bem-aventurado confirmado em 1863.

Relíquias de Hermannus Contractus

12 de dez. de 2013

Em busca de reconhecimento

Muitos querem ter ideias virais. Muitos desejam visibilidade. Muitos buscam reconhecimento. O reconhecimento é a nova honraria que distingue as pessoas igualadas pela rasoura iluminista. A nova questão de ótica consiste em ser visto em todo lugar. Nasceu a síndrome Forrest Gump: estar em todas as partes sem ser ninguém.

A pessoa se sente bem conferindo 50 vezes ao dia seu perfil do Facebook com seus parcos 100 amigos. Sente-se bem porque ser citado, receber mensagens ou curtidas massageia o ego.

Massagem cara, que se traduz em horas semanais dispendidas numa inútil autoexcitação narcisista, horas roubadas ao trabalho, à cultura, à família. A obsessão da visibilidade é a nova bolha especulativa da vaidade, que traz três perigos:

1) Distancia da dinâmica de crescimento intelectual e profissional. O novo currículo consiste na métrica da vaidade, no impacto causado pelas fotos, opiniões e postagens floridas.

2) Confunde os parâmetros de tempo de dedicação e de grau de atenção que as coisas merecem. Exaustão e distração: eis o saldo da incansável atitude multitarefa que reduz a profundidade cognitiva e aumenta a mediocridade.

3) Aliena das verdadeiras necessidades das pessoas, artificializando os relacionamentos. É o melhor treino para o vício de falar de si mesmo sem parar, estragando qualquer empatia. Troca-se o valor pelo sucesso, a amizade pela simples admiração.

30 de nov. de 2013

O Natal e o Antinatal


O amargo escritor Curzio Malaparte, falecido em 1957, escreveu palavras duríssimas contra o Natal, quando — já então! — essa festa perdera muito de sua compreensibilidade para a cultura do século XX:

Dentro de poucos dias será Natal, e as pessoas já se preparam para a suprema hipocrisia. Por que nenhum de nós tem a coragem de dizer a si mesmo que o século, o mundo, nunca foi tão pouco cristão como nesses anos? Por que nenhum nós ousa reconhecer que a retórica dos políticos, o grande desfile de sentimentos evangélicos, as procissões de falsos devotos só servem para esconder uma terrível verdade: que as pessoas não são mais cristãs, que Cristo morreu na alma de seus filhos, que a hipocrisia desceu da política até a vida social, familiar e individual? Não nos importamos com quem sofre; nada fazemos para impedir o sofrimento, a miséria, o mal, o crime, a violência, a destruição; permanecemos quietos, calados, e festejamos o santo Natal.

E prossegue:

Gostaria que, no dia de Natal, o panetone se tornasse carne dolente sob a faca, e o vinho se transformasse em sangue; que por um instante todos sentíssemos o horror do mundo na boca. Queria que, no dia de Natal, nossas crianças subitamente aparecessem como serão amanhã, dentro de alguns anos, se não ousarmos nos rebelar contra o mal que nos ameaça. Pobres corpos estraçalhados, abandonados na lama vermelha de um campo de batalha. Queria que na noite de Natal, em todas as igrejas do mundo, um pobre padre se levantasse e gritasse: fora desse berço, hipócritas, mentirosos; vão para suas casas chorar sobre os berços dos seus filhos. Se o mundo sofre, é também por culpa de vocês, que não ousam defender a justiça e a bondade, e têm medo de serem cristãos até o fundo. Fora desse berço, hipócritas. Este menino, que nasceu para salvar o mundo, tem horror a vocês.

Esse texto atormentado foi escrito três anos antes de seu batismo, por sua vez ocorrido um mês antes da morte. Faltando pouco para deixar essa vida, disse ao padre que o assistia: “Vamos!” — “Para onde?”, indagou o sacerdote — respondeu‑lhe: “Para o céu!” (cf. COMASTRI, Angelo, Tu És Trindade, p. 28)

***

Pergunto o mesmo agora: “Vamos!”

— Para onde? — vocês me perguntam.

— Preparar o Natal! Vamos para Belém! Adeste, fideles, læti triunfantem, venite, venite ad Betlehem! Belém é o nosso céu, onde podemos ver a face de Deus.


O primeiro traço é que Deus é frágil. Por exemplo, o Todo‑Poderoso obedece a um imperador que ordena um recenseamento.

O segundo, é que Deus é pobre. Nasceu precariamente, sobre fatne, isto é, sobre “esterco e palha”!

O terceiro, é que Deus é amor. Amor é dom, entrega, e Deus é dom infinito: dá tudo, dá‑se, fica pobre para nos enriquecer; “aprendei de mim, que sou manso e humilde de coração” (Mt 11,29). Deus é humilde porque não vive para si, mas vive para nós!

23 de nov. de 2013

Retrofit do casamento


Pouco antes de iniciar o Ano da Fé, que termina amanhã, Bento XVI afirmou: “Há uma clara correspondência entre a crise da fé e a crise do matrimônio. E, como a Igreja afirma e testemunha há muito tempo, o matrimônio é chamado a ser não apenas objeto, mas o sujeito da nova evangelização.” (Homilia, 7/10/2012)

Os próximos dois anos prometem colocar a família e o matrimônio no foco da atenção da Igreja e do mundo. Com efeito, a ONU comemorará os 20º aniversário do Ano Internacional da Família e a Santa Sé patrocinará dois Sínodos sobre o tema. Além disso, em 2015 ocorrerá na Filadélfia o VIII Encontro Mundial das Famílias.

Em vista da ocasião, preparei três apresentações com o objetivo de incentivar uma atitude positiva e pró-ativa com relação ao tema.

A primeira consiste em explicar os objetivos da ONU para a família, os quais, graças aos esforços da International Federation for Family Development, são excelentes. As metas propostas comprovam que a família pode ser um meeting point para as pessoas das mais variadas tendências ideológicas.


A segunda apresentação visa à comunicação estratégica dos argumentos pró-família, vislumbrando as oportunidades de persuasão oferecidas pela ciência cognitiva e pela teoria narrativa, a fim de contornar o revisionismo matrimonial.


Por fim, a outra apresentação sugere iniciativas variadas no campo da família, abrindo para um brainstorming.


Recomendo que você visite e assine o feed de http://thefamilywatch.org/. E também agradeceria receber suas sugestões!

2 de nov. de 2013

Alicerce seus sonhos

Proponho uma releitura de uma velha postagem deste blogue.

***

1. Nem tudo que é bom dá para comprar.

2. Não deixe a preguiça confundir originalidade com praticidade.

3. O trepidar da paixão se dissipa quando se torna tarefa diária.

4. Considere qual é a maior coisa que você vai abandonar para conseguir o que você quer.

5. Se a sua ideia é boa mas enche seu saco, você perdeu. Se a sua ideia é valiosa mas você não aguenta trabalhar nela dez horas por dia, você perdeu. Pior: se a sua ideia é apaixonante mas não é viável, você perdeu.

6. Você está a fim de trabalhar duro, com empenho, longamente?

7. Não cultive hobbies – cultive interesses.

8. Descubra qual é o preço máximo que você está disposto a pagar. Assim, quando alguém lhe pedir para pagar mais, mande-o à merda.

9. Você não pode aguentar gente que não gosta de você? Desculpe, mas isso começou quando você nasceu.

10. Demonstrar-se frágil é a nova segurança. Imperfeição é a beleza dos tempos barrocos. Lembre-se disso ao lidar com as pessoas.

11. Você topa escrever detalhadamente seus sonhos num papel, contá-lo a outras pessoas e torná-lo público? Se não, esses sonhos são irreais.

12. Quimera não se materializa da noite para o dia. Esperanças desse naipe só desapontam e deprimem.

13. Seu sucesso é provável ou ainda está nas raias do possível?

14. Você será o melhor? Pois ninguém repara no normal, ninguém liga para o comum, ninguém investe no mediano. Mova uma guerra contra a mediocridade para chegar a algum lugar que valha a pena.

15. Paixão sem propósito é fogo de palha. Sem um porquê, seus anseios só crepitam, mas não queimam.
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