O eclipse do corpo
Graças a Descartes, introduziu-se o dualismo no pensamento ocidental. O corpo humano passou a ser visto, em contraposição ao espírito, como a “natureza” em cada homem. Sendo entendido como “pura matéria”, o corpo torna-se estranho à subjetividade e manipulável em função dos interesses individuais.
A ideologia de gênero inscreve-se nessa
perspectiva dualista. Deixando a natureza de ser norma, nega-se à diferença de
sexos seu significado antropológico. A ânsia de nivelar diferenças exalta a
dimensão histórico-cultural, denominada gênero,
em detrimento da dimensão corpórea, chamada sexo.
Embora em sua origem a causa da mulher tenha sido o contexto de tal discussão,
seu motivo mais profundo é a tentativa humana de libertar-se dos próprios
condicionamentos biológicos.
O eclipse de Deus
A insurreição da liberdade subjetiva frente à natureza também traz consigo a competição com a ação divina. A liberdade divina tende a ser entendida erroneamente como situada no mesmo plano da ação humana. Daí que, em nome da afirmação da liberdade e da autonomia, Deus precise se expulso da esfera da subjetividade humana.
Henri de Lubac, ao
falar do advento de uma sociedade “independente” da religião, tenta descobrir a
origem da ideologia moderna:
Alguns situam seu começo no “século das
luzes”;
outros fazem retroceder um pouco sua aparição até as críticas de Kant;
para outros, seu grande iniciador é Hegel (…).
Também há os que sustentam que começa
com o espírito científico “positivista” (…)
ou com a aplicação exclusiva do espírito científico ao estudo do homem,
tomado como objeto de laboratório (…).
outros fazem retroceder um pouco sua aparição até as críticas de Kant;
para outros, seu grande iniciador é Hegel (…).
Também há os que sustentam que começa
com o espírito científico “positivista” (…)
ou com a aplicação exclusiva do espírito científico ao estudo do homem,
tomado como objeto de laboratório (…).
Numa palavra, uma vez mais, com a repulsa de toda
reflexão metafísica,
assim como de toda religião.
assim como de toda religião.
Tal seria a última e definitiva
conquista:
negar-se a ver no homem qualquer aspiração transcendente.
negar-se a ver no homem qualquer aspiração transcendente.
(Diálogo
sobre el Vaticano II. Recuerdos y reflexiones)
Soluções perigosas
Em resumo: todo tipo de heteronomia, isto é, de referência a uma normatividade exterior (Deus, a natureza), passa a ser vista como ameaça à autonomia.
Não basta reabilitar
a natureza e a corporeidade na ética. Com efeito, algumas tentativas modernas
de reapresentar a lei natural descuidaram a integração hierárquica das
inclinações naturais na unidade da pessoa, reduzindo o homem a uma parcela de seus impulsos: à pulsão sexual, aos sentimentos, às paixões.
Na mesma linha, a
absolutização da natureza igualmente produziu deformações. A mais radical
talvez seja a deep ecology, que iguala
as espécies vivas e solapa a responsabilidade do homem para com a biosfera.
