Confesso que fui sutilmente irônico nas réplicas que lhe fiz. Contudo, o interessado pareceu feliz com a última delas, em que afetei humildade. Talvez a tenha lido com ligeireza ou esteja tão obnubilado que mesmo quem o contradiz lhe pareça favorável.
O assunto debatido era a possibilidade de se harmonizar o princípio constitucional de que o poder emana do povo com o princípio teológico de que a autoridade procede de Deus. O tema não me atrai minimamente e não me parece que tenha interesse nessa altura do campeonato. Entretanto, a forma agressiva como ele apresentava a questão levou-me a intervir.
Há alguns meses, eu já discorrera neste blog a respeito dessa atitude beligerante que infelizmente tem se tornado comum entre determinado tipo de pessoas que se consideram bastiões, “católicos oficiais”, e atuam com mentalidade de partido único.
Completo aquelas observações com cinco aspectos que tenho detectado, característicos desse viés. São como seteiras pelas quais o franco-atiradores só enxergam o que desejam.
Reclamar uma pretensa clareza nos documentos
Com esse critério, a Bíblia deveria ser descartada do debate teológico, assim como Platão do debate filosófico. É muita ingenuidade pensar que tudo seria diferente caso os pingos fossem postos nos ii. Um texto “autoexplicável” seria a própria mente de Deus!
Desejar condenações rotundas
Não é selo de qualidade ser amigo do xerife. Ninguém faz cafuné num buldogue só porque ele tem pedigree. Consegue mais quem conversa mais: mais vale uma dedada de mel do que um barril de fel.
Isso não é direito, bater numa mulher que não é sua, já dizia o saudoso Moreira da Silva. E, certamente, estão querendo bater em mulher que não é deles.
Ter uma visão binária
De fato, os homens se dividem em dois grupos: os que se vão salvar e os que se vão condenar. Mas haverá cada surpresa no dia do Juízo! Porque a salvação é gratuita e só vai se definir na hora da morte.
Dividir o mundo em pensantes-como-eu e discordantes-de-mim é supina obtusidade. Mesmo que estejamos com a razão numa discussão, sempre convirá oferecer uma saída honrosa ao nosso contendor. Isso é humildade e fina caridade.
Criar distinções artificiais
A única forma de criticar a autoridade é distinguir autor de autoria, doutor sem tempo de assessor despreparado.
A única forma de amar sem corrigir é cultuar o ideal e profanar o real.
A única forma de crer sem ceder é escolher os próprios mestres.
Incapacidade de fazer distinções verdadeiras
A par da visão binária das pessoas está a tendência a adotar uma visão binária das coisas. Veem em tudo alternativas mutuamente excludentes. Descartam matizes e gradações: “ou é ortodoxo ou é herege; ou é caridoso ou é hipócrita; ou é coerente ou é simplório”.
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À guisa de conclusão, retorno à questão original. Com boa vontade, tudo se harmoniza.
Dentro do nosso sistema político, a autoridade de Deus é participada pelo povo que a delega pelo voto a seus representantes.
