
Amizade hoje é tudo e é nada. Apaixonados querem se considerar amigos, cônjuges idem, pais e filhos igualmente. Toda sorte de autoridade (acadêmica, civil, militar, eclesiástica, condominial, etc.) tenta legitimar-se afetando amizade.
Por outro lado, é recorrente escutar críticas à recém-surgida amizade virtual através das redes sociais. Relegada aos monitores, a amizade parece ter se tornado uma mera distração. Do tamanho de um tweet, aparenta carecer de conteúdo; multiplicada à cifra de 547 “seguidores”, indica ter se diluído a ponto de ser apenas uma tênue ligação.
Prefiro tecer observações mais otimistas quanto às redes sociais. Indubitavelmente, as conexões criadas foram — por erro — chamadas de “amizade”, mas de fato representam contatos entre pessoas e facilitam sobremaneira a comunicação.
A artificialidade do contato pode ser grande e acelerar a fragmentação, sem que, por isso, o instrumento midiático deva ser considerado o culpado dessa recente fragilidade das relações humanas.
Ainda que o fenômeno seja anterior ao advento desses instrumentos virtuais, a questão é que ser amigo “de todos” induz a descuidar a amizade “com cada um”.
Na Antiguidade, a amizade representava um valor especial, raro por assim dizer. Aquiles e Pátroclo, Davi e Jônatas, Virgílio e Euríalo. “Quem encontrou um amigo encontrou um tesouro”, sentencia o Sirácida (6,14b): longe de ser ordinária e universal, a amizade verdadeira é uma conquista árdua.