Considero uma ótima leitura O Livro do
Amigo e do Amado, do Bv. Raimundo Lúlio. O autor medieval descreve em
pensamentos numerados um diálogo entre a alma (o Amigo) e Deus (o Amado).
Reproduzo alguns dos pensamentos:
12. Dize‑me, louco de amor,
o que é mais visível: o Amado no amigo, ou o amigo no Amado?
Respondeu que o Amado é visto pelos amores,
e o amigo, pelos suspiros, prantos, sofrimentos e dores.
17. Houve uma disputa entre os olhos e
a memória, porque os olhos diziam que era melhor ver o Amado que lembrá‑lo,
e a memória dizia que é pela lembrança que sobe
a água aos olhos e o coração se inflama de amor.
54. Disse o Amado: — É estranho e
contra o amor, que o amigo durma esquecendo o Amado. Respondeu o amigo: — É
estranho e contra o amor, que o Amado não acorde o amigo, já que tanto o
desejou.
90. Mostrava‑se o Amado a seu amigo com vestes novas e
avermelhadas. Estendeu seus braços para que pudesse
abraçá‑lo e inclinou sua cabeça para que pudesse beijá‑lo
e se elevou ao alto para que pudesse encontrá‑lo.
131. Jazia o amigo no leito do
amor. Os lençóis eram de prazeres, o cobertor de mágoa, o travesseiro de
pranto. E não se sabia se o travesseiro era feito do mesmo tecido que os
lençóis e o cobertor.
163. — Dize‑me, louco, o que desejas com mais força, amar ou odiar?
— Amar, respondeu, pois odeio para poder amar.
216. O Amado feria o coração do amigo com vergastadas
de amor, até fazer‑lhe amar a árvore da qual o Amado tirava
as varas com as quais fere os que o amam.
Nessa árvore o Amado sofreu abatimento, desonra e morte,
a fim de restaurar o amor dos amantes que perdera.
230. O Amado veio pousar na casa do amigo,
e este Lhe preparou um leito de pensamentos e
serviu‑Lhe lágrimas e suspiros; e o Amado pagou a sua estadia com lembranças.
De todos eles, gosto especialmente do 131, que interpreto
antropologicamente como uma alegoria da natureza humana (espírito, alma e
corpo):
• O leito é um só, pois o leito representa o amor espiritual, e o espírito tem a propriedade de unificar instâncias díspares.
• Lençóis e cobertor (prazeres e mágoa) representam as paixões, que são contraditórias e
tanto nos arrastam ao gozo quanto à tristeza.
• O travesseiro (pranto) representa a ambivalência do movimento corporal: podemos chorar tanto de
alegria quanto de dor.
De qual dos pensamentos você
gostou mais?
