O bulício atrai, mas levamos
grande parte da vida a repelir o silêncio, procurando, sem descanso, os lugares
agitados e turbulentos onde ele não impera.
O silêncio permite escutar, mas são
poucos os que conseguem morigerar os ímpetos opinativos.
Onde se
encerra o pecúlio precioso do silêncio? — No vazio interior, descabido vácuo da
mente? Na traiçoeira calmaria que antecede a agressividade de palavras
conturbadas?
Silêncios descabidos
Silêncio ignorante em que o
insensato habilmente mergulha, engolfado numa profunda taciturnidade que nada significa.
Silêncio de assentimento — qui tacet videtur — de quem cala
consente e se omite.
Silêncio administrativo da
autoridade débil que prefere evadir a decidir, condescender a governar.
Silêncios calculistas
Silêncio maquiavélico da
palavra represada, mas que oportunamente desconcerta o golpe de surpresa no
interlocutor, tirando partido daquilo que escutara.
Silêncio irônico que se
pratica ao desfrutar, com secreto prazer, o rol de asneiras oriundas de
uma alma vazia.
Silêncio esmagador do homem
que se considera senhor de si e do próprio destino, e que dispensa aos demais
meras partículas de silêncio, por não os achar credores de admiração.
Silêncio mudo, pano de
fundo de gestos ambíguos, que não se descobre serem amáveis ou agrestes.
O beijo do silêncio
O verdadeiro
silêncio pode ser de dois tipos: a
palavra do silêncio ou o silêncio da palavra. São como lábios pelos quais trocamos
beijos com o mistério.
Silêncio da palavra é o silêncio místico (de μύω, mudez da boca
e oclusão dos olhos) que se concentra no único necessário, que abre os ouvidos,
que se recolhe, que apazigua o coração.
Palavra do silêncio é o silêncio de morte, cujo sentido é
difícil reconhecer e cuja obscuridade é árdua de aceitar.
Palavra é
tempo, silêncio é eternidade.
*****
«Palavra da cruz».
O Verbo emudece, torna-se silêncio de morte,
porque Se «disse» até calar,
nada retendo do que nos devia comunicar.
O Verbo emudece, torna-se silêncio de morte,
porque Se «disse» até calar,
nada retendo do que nos devia comunicar.
(…)
O silêncio de Deus prolonga as suas palavras anteriores.
Nestes momentos obscuros,
Ele fala no mistério do seu silêncio.
Nestes momentos obscuros,
Ele fala no mistério do seu silêncio.
(Bento XVI, Verbum Domini,
n.os 12 e 21).
