“O Destino não necessita, para destruir irremediavelmente um coração, de despender grandes ímpetos ou empregar forças brutais e bruscas, parece até que, pelo contrário, a sua indomável vontade transformadora sente especial prazer em fazer provir essa destruição de motivos por vezes bem fúteis. Na nossa ainda tão obscura linguagem humana, chamamos a este primeiro choque, sem gravidade, a ‘causa ocasional’ e comparamos então, boquiabertos, a sua pouca importância aparente com as consequências, por vezes formidáveis, que dela derivam; mas, assim como uma doença não começa apenas quando se lhe faz o diagnóstico, também o destino das pessoas não principia no momento em que se torna visível. (…)
Que vale, pois, conhecermo-nos — maneira comum de nos defendermos —, se essa defesa é quase sempre completamente inútil?”
(ZWEIG, Stefan, Um coração destroçado, in principio).
O ciúme é um alerta de indícios. Tal alerta pode tanto ajudar a melhorar o que não vai tão bem num relacionamento quanto indiciar o alter ego por qualquer provável traição.
Para os apaixonados, que temem perder seu amor, o ciúme é inevitável.
Para os possessivos, tudo será motivo.
Para os egocêntricos, o ciúme é o único remédio para uma eventual rejeição.
Para os melancólicos, a rejeição é inevitável e o ciúme deve ser curtido na fossa, passiva e longamente, como numa tortura chinesa.
Para os obsessivos, é óbvio ser ciumento até matar a Ofélia.
Para os paranoicos, sempre há um Hagen de Tronje atrás da Cremilda (vide A canção dos Nibelungos), um Escobar atrás da Capitu e um Otelo atrás da Desdêmona.
Para os hipersensíveis, tudo ressoa como um carrilhão, a vidraça sempre estraçalha.
Para os ansiosos, amor é cansaço, ciúme é ácido lático.
