Às vezes é preciso fazer uma queima de arquivo. Não para esconder indícios, não para apagar pistas, mas para limpar e desimpedir o caminho futuro.
Você acha justo o pesque-e-solte? Nunca gostei. Nesses pesqueiros você lança a linha, fisga o peixe, amarfanha-o nas mãos e arranca-lhe o anzol à força de lhe estraçalhar os lábios.
Dizem que peixe tem sangue frio. OK. E a gente não tem sangue quente, sangue nobre, não tem sangue nas veias? Não se faz pesque-e-solte com gente.
Queima de arquivo não é questão de lábio leporino. É questão de amor, de compromisso futuro. O caminho dos nossos projetos é mais bem palmilhado quando os restos da memória e as atenções do presente não nos atrasam nem desviam.
Sete portas
Quando se ama, sente-se a necessidade de proteger o coração, de guardá-lo intacto, em carne viva, para o amor.
Esta guarda se faz com sete ferrolhos. Quais são as suas portas, para que saibamos que cadeados colocar? Olhar, procurar, ouvir, falar, aproximar-se, tocar, ser amigo.
Guarda-chuva
Tanta gente se perdeu por esses caminhos, só por não querer usar viseiras. Tais cadeados preservam e libertam o verdadeiro amor de muitos fios sutis.
O que inicia de forma inocente acaba guinando a vida. Tinha de acontecer? Claro que não. Cobra só morde quem chega perto.
Portanto, na intempérie é preciso abrir o guarda-chuva:
Não fixar‑se em feições, traços e gestos, que enfeitiçam e prendem o coração.
Manter distância: mau sinal escolher itinerários coincidentes, bolar perguntas que são pretextos para conversar um bocado, chegar num grupo com radar ligado.
Não ouvir nem manifestar estados interiores: seria dar sinal verde.
Evitar as expansões de ternura: ter a correção e etiqueta de um fleumático, ainda que se leve um vulcão por dentro.
Queimar as lembranças românticas: podem reacender rescaldos de afetividade inconvenientes…
Não admitir sonhos impossíveis: no mínimo, são perdas de tempo!
Seu coração está bem trancado? Quem tem a chave?
