Nestes tempos de ignorância religiosa crassa,
surpreende a convicção com que muitos expressam suas crenças pseudocatólicas,
que ferem os mais elementares critérios lógicos. Chega a existir um verdadeiro “credo”
paralelo dos ignorantes.
Curiosamente, alguns católicos bem formados também
se confundem ao ouvir expressões que faziam parte do patrimônio mais rudimentar
da fé. Um exemplo acidental: a própria palavra “credo” já se tornou para muitos
incompreensível.
Na época do Concílio, o cardeal Järger pediu um
livro para aggiornar a catequese. Em
1966, os holandeses publicaram um novo catecismo que mereceu dois anos depois
correções da Santa Sé. A essa altura, o então cardeal Ratzinger posicionou-se
contra a elaboração de um Catecismo universal porque não estava estabelecida
ainda uma linguagem comum: o aggiornamento
precipitado fazia que os novos livros logo se tornassem ultrapassados e os
fiéis ficavam cada vez mais confusos.
Nesse sentido, o então cardeal Ratzinger escrevia
no n.º 1 da revista Communio
brasileira (jan./fev. de 1982), referindo-se à tergiversação do conceito de
alma:
Já que as “verdades
fundamentais da fé” pertencem a todos os crentes e constituem até mesmo o
conteúdo concreto da unidade da Igreja, a linguagem básica da fé não pode ser
uma linguagem especializada. É por isso que a linguagem, enquanto suporte da
unidade, não pode ler manipulada à vontade. A teologia, como ciência, precisa
de uma linguagem especializada; em sua maneira de interpretar, ela tentará
sempre traduzir os fatos estudados de uma forma nova. Mas tanto a teologia
quanto a sua maneira de interpretação visam à linguagem fundamental da fé, que
só pode continuar a se desenvolver na comunidade dentro da continuidade da
Igreja em oração, e que não suporta rupturas brutais.
(…)
o abandono do
conceito de alma, que se vem delineando cada vez mais claramente de uns quinze
anos para cá, não mais se apresenta como um simples debate dentro da ciência,
mas o que está sendo atingido com isto é o substrato linguístico da fé, sua
linguagem fundamental, o que faz com que se atinja também o limite em que, além
da interpretação, o conteúdo objetivo dos elementos a serem interpretados fica
igualmente ameaçado de desaparecer.
(…)
Até então, a
linguagem da esperança se formara na comunidade dos crentes que, em sua unidade
através dos tempos, garantiram simultaneamente a identidade do que ela
acreditava no processo de evolução progressiva dos termos e na formação de uma
concepção integral da realidade que se encontra na base da fé. Evolução e
identidade não se opunham, porque seu sujeito comum, a Igreja, mantinha a
coesão entre uma e outra.
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