11 de jun de 2013

Estrelas feitas com o pó da sombra

Ya-Lit

A chamada Literatura Young Adults tem crescido no Brasil, abordando temáticas mais apropriadas para leitores entre 14 e 21 anos. Frequentemente, descrevem o primeiro confronto do adolescente com os problemas pessoais e sociais.

Acabei a leitura de duas obras do gênero, com muitos pontos de contato entre ambas, mas enormes diferenças. A primeira delas foi A Culpa É das Estrelas, de John Green. A última, Branca como o Leite, Vermelha como o Sangue, de Alessandro d'Avenia.

Green é autor consagrado; d'Avenia, novato. Os dois livros saltaram para as telas do cinema. Os dois livros falam de amor e morte. Os dois livros abordam o conflito de gerações. Os dois livros falam da força da literatura.

Mas como divergem na abordagem e no propósito!

De quem é a culpa?

Alessandro d'Avenia é professor helenista, enquanto Green ostenta menos títulos nessa seara. Eis um evidente divisor de águas. Com efeito, senti um grande incômodo lendo A Culpa É das Estrelas: um pedagogo não deve só descrever, mas também orientar. Acredito que o escritor é um pedagogo, quanto mais para adolescentes.

D'Avenia conduz magistralmente seu personagem à maturidade, Green, porém… Em se tratando de adolescentes, isto é, de gente que ainda está se situando na vida, o educador (no caso, o escritor) não pode presumir capacidade de reserva crítica por parte de seus ouvintes.

E assim, Green descreve uma mecanizada relação sexual com a mesma naturalidade com que narraria um banho num cachorro. O sexo é apresentado como uma afanosa exploração a dois de uma realidade reservada aos adultos. E os exploradores em questão são extremamente imaturos.

Por outro lado, os personagens adolescentes e adultos de Green são incapazes de se comunicar. Fica difícil distinguir na sua história quem é mais imaturo ou quem é mais surdo: se os mais jovens ou os mais velhos.

Referências clássicas num mundo de vazios

Enquanto a obra americana cria um literato fictício, o livro italiano delicia ao trazer à tona uma constelação de textos clássicos, entre os quais destacam-se Vita Nuova de Dante Alighieri, a Bíblia e até alguns versos da poetiza Safo de Lesbos.

E ensina a encontrar respostas onde tornou-se costume tropeçar na preguiça: “A gente não está habituado a resolver certos questionamentos que o Sonhador apresenta. Não tem a cabeça preparada para certas coisas. Não sabe nem de onde tirar as respostas. Porque essas perguntas que ele faz não são daquelas que você encontra no Google se digitar”.

Em Bianca come il latte, rossa come il sangue, os catalizadores dessas descobertas literárias e amorosas são os adultos. D'Avenia é isento da visão de mundo de um Roald Dahl ou de um Mark Twain, para quem os jovens são sempre vítimas inocentes.

Amor acrisolado na dor

O realismo de d'Avenia fica por conta da sublimação da pulsão sexual adolescente pelas exigências sacrificantes do amor, numa solução diametralmente oposta à de John Green. D'Avenia pode não esconder a intimidade dos personagens, a ponto de ser um tanto desbocado, mas não finge uma “normalidade” desinteressada.

Seus personagens têm a consistência da covardia, dos azares, do pranto. E genialidade suficiente para descobrir a ambivalência desses momentos: “O pó da minha sombra é poeira de estrelas”, chega a afirmar o protagonista.


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