7 de jul de 2010

As cinco seteiras do bastião

Ontem me envolvi numa discussão com um blogueiro que espero não tenha sido de toda inútil. De minha parte, pelo menos, aprendi na carne que as pessoas, se elas apanham no ar as alusões, captam as mensagens e interpretam as opiniões, fazem-no conforme seu querer e sua forma mentis.

Confesso que fui sutilmente irônico nas réplicas que lhe fiz. Contudo, o interessado pareceu feliz com a última delas, em que afetei humildade. Talvez a tenha lido com ligeireza ou esteja tão obnubilado que mesmo quem o contradiz lhe pareça favorável.

O assunto debatido era a possibilidade de se harmonizar o princípio constitucional de que o poder emana do povo com o princípio teológico de que a autoridade procede de Deus. O tema não me atrai minimamente e não me parece que tenha interesse nessa altura do campeonato. Entretanto, a forma agressiva como ele apresentava a questão levou-me a intervir.

Há alguns meses, eu já discorrera neste blog a respeito dessa atitude beligerante que infelizmente tem se tornado comum entre determinado tipo de pessoas que se consideram bastiões, “católicos oficiais”,  e atuam com mentalidade de partido único.

Completo aquelas observações com cinco aspectos que tenho detectado, característicos desse viés. São como seteiras pelas quais o franco-atiradores só enxergam o que desejam.

Reclamar uma pretensa clareza nos documentos

Com esse critério, a Bíblia deveria ser descartada do debate teológico, assim como Platão do debate filosófico. É muita ingenuidade pensar que tudo seria diferente caso os pingos fossem postos nos ii. Um texto “autoexplicável” seria a própria mente de Deus!

O Magistério eclesiástico publicou muitos documentos nos últimos anos, mas eles são a folharada. Esperemos que a Igreja produza frutos ainda mais abundantes do que as folhas. Do contrário, cumprir-se-ia o velho ditado: a letra mata…

Desejar condenações rotundas

Não é selo de qualidade ser amigo do xerife. Ninguém faz cafuné num buldogue só porque ele tem pedigree. Consegue mais quem conversa mais: mais vale uma dedada de mel do que um barril de fel.

Isso não é direito, bater numa mulher que não é sua, já dizia o saudoso Moreira da Silva. E, certamente, estão querendo bater em mulher que não é deles.

Ter uma visão binária

De fato, os homens se dividem em dois grupos: os que se vão salvar e os que se vão condenar. Mas haverá cada surpresa no dia do Juízo! Porque a salvação é gratuita e só vai se definir na hora da morte.

Dividir o mundo em pensantes-como-eu e discordantes-de-mim é supina obtusidade. Mesmo que estejamos com a razão numa discussão, sempre convirá oferecer uma saída honrosa ao nosso contendor. Isso é humildade e fina caridade.

Criar distinções artificiais

A única forma de criticar a autoridade é distinguir autor de autoria, doutor sem tempo de assessor despreparado.

A única forma de amar sem corrigir é cultuar o ideal e profanar o real.

A única forma de crer sem ceder é escolher os próprios mestres.

Incapacidade de fazer distinções verdadeiras

A par da visão binária das pessoas está a tendência a adotar uma visão binária das coisas. Veem em tudo alternativas mutuamente excludentes. Descartam matizes e gradações: “ou é ortodoxo ou é herege; ou é caridoso ou é hipócrita; ou é coerente ou é simplório”.

*****

À guisa de conclusão, retorno à questão original. Com boa vontade, tudo se harmoniza.

Dentro do nosso sistema político, a autoridade de Deus é participada pelo povo que a delega pelo voto a seus representantes.
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