27 de ago de 2013

Quatro paradoxos do Espírito

O que Chesterton denominava “paradoxo cristão” era o que Vittorio Messori explicava como “religião do e”.

De fato, o Cristianismo tem essa característica crítica: juntar aparentes opostos de forma surpreendente, de modo a causar admiração nos crentes e irrisão nos descrentes. Assim, Deus é Uno e Trino, Jesus é Deus e Homem, a Igreja reúne santos e pecadores, Maria é Virgem e Mãe, etc.

Ora, um capítulo novo em teologia (novo só por ainda carecer de uma desenvolvida sistematização), o qual Paulo VI considerava o próximo tema a ser aprofundado (cf. Audiência, 6/6/1973), é o da pneumatologia, isto é, o do estudo do Espírito Santo.

Em assunto tão elevado e inexplorado, é evidente que alguns desses paradoxos manifestem-se ainda mais surpreendentes aos nossos ouvidos. Gostaria de comentar quatro deles, resumindo algumas ideias da trilogia de Ives Congar sobre o Espírito Santo.

Penhor e Meta

“Venha teu Espírito sobre nós e nos purifique”, diz uma variante lucana ao pedido do Reino no pai-nosso. Com efeito, o Espírito é nossa “última recompensa”, como dizia São Nicolau de Flue. Ao mesmo tempo que o aguardamos, porém, ele já vive conosco e em nós.

Em paralelo, o mesmo Espírito recebido no batismo deve novamente ser recebido na crisma, semelhantemente a como os apóstolos o receberam em Pentecostes depois de já o ter recebido no dia da ressurreição.

Difícil é para o homem avaliar essas ascensões de plenitude em plenitude.

Carisma e Companheiro

É evidente que o Espírito já operava no Antigo Testamento (cf. 1Cor 10,3s). Ao mesmo tempo, só se fez presente na Igreja com o mistério pascal de Cristo (cf. Jo 7,39). Assim sendo, em que diferiu sua ação?

A tese segundo a qual no Antigo Testamento ele apenas agia nos crentes, enquanto no Novo Testamento o Espírito encheu de graça os fiéis, não foi acolhida pelos Padres Latinos, por São Tomás, nem pelos Romanos Pontífices.

O Aquinate explica que a graça era limitada pelo reato de pena do pecado original. Portanto, podemos concluir que, embora os patriarcas e profetas possuíssem a graça, o Espírito não lhes teria produzido os efeitos de filiação e habitação?

Eis uma questão aparentemente sem resposta!

Templo e Glória

Por metonímia, os targumim chamaram a glória de Deus de Shekinah (Tenda, Habitação). Essa Glória, assim como o Nome divino, residem no Santuário ou Morada de Deus.

Sabemos, contudo, que Deus não reside em casa feita por mão humana (At 17,24). O verdadeiro templo do Espírito, que ele preenche (cf. Lc 4,1), em que ele mora e permanece, é a alma humana.

Não temos, porém, certeza infalível de sua presença (cf. DS 803-805 e 823s). Como então o percebemos como Consolador? Interrega viscera tua: si plena sunt caritate, habes Spiritum Dei — indaga o teu íntimo: se tens caridade, possuis o Espírito de Deus (Santo Agostinho, In Epist. Ioann. Tract. VIII, 12).

Selo e Transcendência

Para explicar em que sentido se apropria ao Espírito Santo a justificação e a santificação dos fiéis, houve teólogos como Scheeben (+1892) que avançaram a ponto de defender uma “encarnação” do Espírito na Igreja.

Sem tal exagero, é preciso confessar, entretanto, que a alma agraciada é assimilada à divindade pela ação trinitária, segundo o exemplar de cada Pessoa divina.

A dificuldade se radica em que o exemplar transcende seu beneficiário, sem compor-se com ele. Para explicá-lo, São Paulo irá apelar à imagem do sinete (2Cor 1,22; Ef 1,13s; 4,30).
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