28 de abr de 2012

Discussão intrauterina

A mídia e o Supremo apresentam ao público e ao povo uma altercação na barriga de Rebeca: Esaú e Jacó discutem quem deve prevalecer: o poder de Esaú ou a consagração de Jacó.

Falando sério, penso que não é preciso ter útero para falar de aborto. A não ser que útero aqui se refira a entranhas, à capacidade de se compadecer.

Não é preciso ser mulher para falar de aborto porque o aborto afeta a vida, o ser humano, a esposa, o outro lado do varão. Sendo assunto humano, é prerrogativa tanto da mulher quanto do varão.

Indo além dessa contestação, entendo que essa forma de colocar a questão — a de que a mulher tem no seu útero um fardo que lhe tolhia a liberdade, mas do qual conseguiu se libertar nos últimos decênios através da revolução sexual — é completamente indevida.

Fazendo uma comparação porca, é como alguém que sofre de obesidade botar a culpa na comida, quando na verdade o problema advém da sua gula ou de uma eventual disfunção digestiva.

Pois basta lembrar que a maioria absoluta das mulheres sente-se orgulhosa de ser um sacrário da vida. A maternidade é um dom. A defesa do aborto, porém, torna-a sepulcro da morte, além de apresenta a gravidez como uma doença.

Uma gravidez indesejada, ou forçada, ou arriscada, ou sofrida, não tira à maternidade aquilo que ela tem de misterioso, de participação no poder criador.

Se há mulheres que recorrem ao aborto, nada posso fazer senão lamentar e tentar ajudar. Mas nunca direi que fazer isso é certo, pois estaria sendo um cúmplice e um mentiroso.

A questão é cientificamente simples: qual é a diferença entre o nascituro e o nascido? Ambos têm 46 cromossomos, como nós. Mas o nascituro foi confiado à mulher. Portanto, que grande responsabilidade!

Voltemos à barriga de Rebeca. Cada vez que vejo um bispo do lado da vida (Jacó) e um jurista ou médico abortista de outro (Esaú), constato que nossa mídia laicista continua sendo extremamente clerical. Ponha-se dois médicos (um a favor e outro contra) ou dois juristas (um a favor e outro contra) para discutir lado a lado, ora bolas! E então veremos quem “ganha”.
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