31 de jan de 2012

Réplica à primeira carta ecumênica

Missiva que recebi em resposta à minha carta de 22 de março de 2010

São Paulo, 27 de março de 2010 

João,

Primeiro, desculpe a enorme demora em responder. Planejei lhe escrever de volta no mesmo dia em que li, mas estive meio enlouquecida de tanta coisa pra fazer, e só parei um pouco agora que uma tosse (gripe? sei lá o que é essa coisa chata que tenho) horrível me pegou. Espero que me perdoe!

Pois bem: eu realmente fiz uma confusão de palavras. Queria mesmo falar de doutrinas, e não de preceitos, como você percebeu. Mas uma das razões de eu ter gostado de ler seus comentários e correções é porque os achei todos muito equilibrados — fiquei pensando esses dias e, cá entre nós, descobri que eu não tenho muito contato com católicos assim como você. De um lado, tenho amigos carismáticos ou só mais “moderninhos”, que não se diferenciam lá tanto assim dos evangélicos. De outro, amigos da FSSPX, a quem admiro em muitas coisas, mas ainda assim não consigo achar sadio o radicalismo briguento em que acabam caindo. Já conversei com alguns sobre essas coisas, mas sempre que via que não ia dar muito certo, mudava de assunto. Eu acho até curioso e engraçado que exista gente nesse mundo que ache que eu estou seguindo uma doutrina satânica, mas chega uma hora que cansa.

Bom, peço que releve o estilo ruinzinho e confuso com o qual estou escrevendo hoje (culpemos a gripe!) e vou comentar seus comentários. Concordando ou não concordando, eu não tenho muita coisa de importante pra dizer, tão bem você definiu as coisas.

Sobre bíblia/tradição: é verdade, todos optam por algum tipo de tradição. Entendi o princípio de palavra transmitida e faz bastante sentido. Eu só não sei até onde concordo com o tipo de tradição pelo qual a igreja católica “optou”. Creio também que a Palavra só se manifesta plenamente em Jesus Cristo, o verbo que se fez carne, e concordo com você quando diz que o cristianismo não é uma religião do livro. A coisa não se resume, de forma alguma, a uma supervalorização da letra, mas à confiança de que a bíblia é o parâmetro maior, pois é por meio dela que temos conhecimento da vontade de Deus — pois foi inspirada, logo, não contém ensinamento falível (como nós humanos). Isso tudo me levou a pensar nos crentes de Bereia, também. Anyway, eu acho que agora consegui entender bem o princípio por trás da doutrina.

O ponto sobre a Comunhão dos Santos é curioso porque eu estava lendo exatamente sobre isso, no volume III da História da Vida Privada. Já devolvi o livro à biblioteca (queria tê-lo aqui agora pra citar decentemente), mas o autor, falando dos processos de individualização que estavam se dando na Renascença, citou a visão protestante, que realmente é mais individual do que a católica. Acho que você está certo mesmo, dizendo que uma grande questão da Reforma está aí. Não acredito que a nossa influência, que a influência do amor fraternal mesmo (porque pelas palavras do Papa me pareceu que esta, a fraternidade, é a base da doutrina), se dê dessa forma. Mas lendo o ponto 48 da Encíclica, consegui entender melhor também essa questão — não é idolatria, ao menos para um católico que sabe as doutrinas e sabe o que está fazendo. Não é como o senso comum diz, e saber disso faz inclusive com que o meu respeito cresça.

A Transubstanciação é um caso especial: logo que li seu comentário fiquei com vontade de dizer imediatamente “eeeei, mas eu também não acredito que é só um símbolo!”. Hahahaha! Sendo um sacramento, eu acredito sim que a Eucaristia é uma forma especial, sobrenatural, que Deus usa para manifestar Sua graça à Igreja. O pastor da minha igreja lá em Suzano sempre faz questão de dizer que não é só um símbolo, não é só pra gente lembrar, e sim que há uma presença excepcional, uma manifestação especial da graça Divina no meio da Igreja naquele momento. A diferença é que pra nós é um ato físico gerando, SIM, uma realidade espiritual, mas não sendo necessariamente modificado (fisicamente) por ela. Ai, que confusa e redundante, mas dá pra entender, né?

Autoridade da Igreja: de novo, pensei nos cristãos de Bereia. Há uma diferença de hierarquia de conceitos, acho, entre os nossos pensamentos, e esse é outro ponto que toca em muito outros também. A Igreja só é coluna enquanto estiver firmada na vontade de Deus, que é expressa por meio da Palavra. Não acredito na Igreja como instituição de importância independente ou anterior à Bíblia, pois é composta de seres humanos, todos falhos e sujeitos a milhares de erros como você e eu. É claro que creio que o Senhor cuida de nós, e que enquanto nele estivermos não será a nossa vontade mas a dele — mas o único jeito de estarmos assim é conhecendo a bíblia, conhecendo e praticando o que lá está expresso. Entende o que eu quero dizer?

Também não acredito na legitimidade de uma interpretação exclusivamente pessoal, sem comunhão com a fé comum. Já vi isso destruir muita coisa — já estive em igrejas onde uma “iluminação pessoal” de um pastor causou divisão e contenda. Tenho horror a isso, sinceramente. Como Reformada, não creio que o intuito de dar a todo cristão a possibilidade de leitura e entendimento individuais da Bíblia seja que cada um isoladamente tenha a sua, única, exclusiva interpretação. É claro que devemos trabalhar em conjunto, com fé comum, senão a igreja perde a razão de ser. Acho justo que todos possamos ler, compreender e contribuir para que a igreja — que somos nós mesmos — se mantenha de acordo com a Bíblia, que é a palavra de Deus expressa. A diferença entre nossos pensamentos é hierárquica, eu acho — vocês colocam a Bíblia ao lado da instituição e tradição, enquanto nós a enfatizamos como revelação principal da vontade Divina.

Sobre a declaração conjunta… Uau! Adorei saber disso. Eu não sei como os Calvinistas ficam nessa história, porque confesso que não sei dizer exatamente até onde nosso pensamento é igual ao Luterano. Preciso estudar mais, bem mais. Mas confesso que não me importo tanto em ficar achando diferença, porque achei incrível a iniciativa de juntar as coisas em comum. É isso que deveríamos fazer, bem mais vezes, especialmente “não oficialmente” — como indivíduos, no dia-a-dia.

Ufs, acho que escrevi demais também. Guardei o link com material dos Padres da Igreja Primitiva (obrigada!) e vou ler, com certeza, pois gosto mesmo desse tipo de coisa. Acho que foi C.S. Lewis quem disse que algumas pessoas cresciam lendo devocionais e refletindo, mas que pra ele mesmo não tinha coisa melhor do que um cachimbo aceso e um livro de teologia. Eu sou, com certeza, desse segundo tipo: não sei quase nada ainda, mas o estudo teológico (doutrinário, histórico, etc.) por mais teórico e intrincado que pareça, é o que me fascina — e não só intelectualmente, porque não há coisa mais incrível e libertadora do que contemplar, meio abismado, que tudo isso que você está lendo trata só e simplesmente da verdade — da verdade mais fundamental que há, para todo o universo —, e que há ainda muito mais coisas fantásticas que a sua mente humana simplesmente não apreende, mas o Criador de todas elas é (pasmem!) seu Pai e Senhor. Ufs! Talvez eu esteja sendo meio poética/filosófica demais, mas é bem por aí, pra mim.

E bolas, você resumiu tudo perfeitamente: rezar muito, ter muitos amigos e estudar muito. That's it. There we go! Obrigada de novo, gostei muito de conversar com você.
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