19 de nov de 2010

Vida de mosquito carioca

Atrás de sangue. Alta taxa de natalidade contrabalança a enorme mortalidade. Mosquitos cariocas são mais espertos. Reparou que é mais difícil de pegá-los? Parecem ases da Primeira Grande Guerra.

— Você é do Rio? — perguntam-me com certa frequência. Embora tal indagação fosse normal em tempos da Belacap, quando a antiga Capital albergava mais elementos de fora do que originários da Cidade Maravilhosa, hoje teima em vir me interpelar assiduamente na boca de qualquer recém-conhecido.

Será que meus anos em São Paulo esmaeceram tanto assim meu sotaque? Ou terão os estudos clássicos esfoliado minha criação com banho de mar em Copacabana?

Sou carioca da “clara”, pois meu pai não era do Rio, só minha mãe. Talvez por isso eu não possua em estado puro as três características dos naturais da Guanabara, apontadas por alguns analistas pretensiosos: desconfiança, desejo de levar vantagem e informalidade.

Vejo esses traços como doenças, não peculiaridades. Afinal, desconfiança é trauma. Se todos querem levar vantagem, em quem confiaremos? Mas será mesmo verdade que todos são mal intencionados?

Segundo, ansiar por avantajar-se é fruto da desilusão, do sentimento de derrota por ter sido preterido, da abdicação forçada, do destronamento inesperado.

Terceiro, informalidade é imitar o excluído como forma de dizer-lhe: “somos semelhantes!” A diferença social não mais se estabelece pela fortuna, antes pelo viés identitário dado pelo estilo de vida. Quando o morro conquista o asfalto, conquista-o tornando-se seu modelo.

Diria que o verdadeiro carioca é, pois, experimentado, empreendedor e transparente. Cabe resgatar essas virtudes invertendo aqueles vícios. Como consegui-lo?

Queria ser um mosquito carioca: receonhecido pelo arrojo nas decoladas, ousadia das picadas e espalhafato do voo. Então, não mais contestaria minhas origens e eu não temeria nem riscos, rivais, reveses.
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