22 de mar de 2010

História, finalidade, liberdade, destino

Fado ou futuro?

Os hebreus, ao se instalarem numa visão linear do tempo, escaparam ao mito e entregaram‑se ao λόγος, ao racional, descobrindo a historicidade ou o sentido da história: o fatalismo do tempo cedeu lugar à dimensão ética da decisão no tempo, que tem implicações extratemporais.

Assim, o problema do sentido da história se resolve, por um lado, nos termos absolutos transcendentais da história (a criação e a consumação) e, por outro, no embate entre a graça e a liberdade.

Termos absolutos da história

Diversas correntes de pensamento pretenderam identificar a finalidade das liberdades, tomadas quer individual quer conjuntamente. Surgiram, especialmente entre os clássicos gregos, as teses de que o mundo possui um fim dialético (Anaximandro de Mileto, Heráclito de Éfeso, Empédocles de Agrigento), cíclico restaurador ou purificador (Escola Pitagórica, Platão), ou de ordem (Anaxágoras de Clazômenas, Demócrito de Abdera).

Modernamente, as tendências materialista e imanentista propuseram uma esperança de paz terrenal ou um modelo temporal dialético. Inclusive, há visões existencialistas que negam qualquer finalidade.

Porém, segundo a filosofia cristã, tanto o fim quanto o princípio do universo é o Bem por essência, que lhe é extrínseco. O princípio pode ser entendido pela filosofia como criação. Metafisicamente, fica irresolvida a questão quanto a se a criação do mundo foi in tempore (cf. SÃO TOMÁS DE AQUINO, Summa contra gentiles, II, c. 31-38), o que as ciências se afanam em verificar. Quanto ao fim (consumação), a filosofia só é capaz de afirmar a mera possibilidade de um fim absoluto da história pelo aniquilamento das criaturas, sem poder, porém, esperar uma consumação relativa do mundo atual.

Providência e liberdade

Conhecendo a transcendentalidade do princípio e fim do universo, captando a harmonia da criação e a conservação das criaturas, é fácil admitir que a Sabedoria de Deus realiza no transcurso do tempo um desígnio eterno, que está inclusive impresso como tendência profunda em todas as coisas.

Contudo, desde a ótica imanentista, a existência de Deus e da sua providência deve ser “justificada” (daí o termo “teodiceia” de Leibniz, em oposição à “teologia”), porquanto, ao buscar uma emancipação ontológica frente à transcendência divina, toda a realidade é contraída ao ser histórico, no qual haveria uma intenção supraindividual. Cai‑se na contradição de anular a liberdade humana, apesar de querer exaltá‑la em oposição à providência divina.

“O fracasso, ao menos relativo, é lei de toda história, lugar de tantas derrotas e no que inclusive as vitórias, sempre pagas a um preço demasiado alto, são sempre parciais e precárias” (MARROU, Henri‑Irénee, Théologie de l’histoire, I, 12).
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