19 de nov de 2009

A resistência de Zumbi dos Palmares



Zumbi rei e o mouro Saifudin
Em 1675, o soldado Manuel Lopes conseguiu, após 25 dias de marcha, tomar um mocambo com mais de 2000 casas, após duas horas e meia de resistência, até que lhe pôs fogo. Tendo ficado lá cinco meses acampado, encontrou os restos de uma capela com imagens; todavia, não atacou as outras aldeias, ainda que tenha perseguido os fugitivos numa violenta batalha na qual Zumbi, já grande guerreiro, levou dois tiros. Por falta de víveres, Manuel Lopes teve de retornar. O governador dom Pedro de Almeida, que patrocinara tal investida e assim conseguiu que os negros fossem se estabelecer pouco mais adiante, renovou a guerra em 1677, encarregando a Fernão Carrilho, pioneiro de Sergipe no combate a quilombos e indígenas, a fundação de um arraial nos Palmares de onde irradiassem as futuras expedições bélicas. Houve um triunfo provisório, primeiro sobre o mocambo da velha Aqualtune, prendendo‑se e matando‑se a muitos. Depois de encontrar queimado pelos próprios quilombolas o mocambo de Gana Zona, Subupira, estabeleceu‑se aí para atacar Amaro, onde trucidou centenas de negros, entre os quais Toculo, filho de uma das três mulheres de Ganga Zumba. Também levou aprisionados outros filhos do rei, Zambi e Acalene, além do seu próprio irmão. Tendo fundado em pleno coração do quilombo o arraial de Bom Jesus e a Cruz, Carrilho voltou a Porto Calvo entre brados de aclamação.

Como dom Pedro de Almeida demonstrasse interesse em integrar os mocambos à colônia e em tratar benignamente os que restaram no quilombo, Ganga Zumba enviou em 1678, com o emissário do governador uma embaixada a Recife, constituída por três de seus filhos e mais doze principais de Palmares, para firmar pazes, Palmares ganhou então a condição de vila e Ganga Zumba tornou‑se mestre‑de‑campo, mudando‑se para Cacaú, perto de Serinhaém.

O trato beneficiava com a liberdade os nascidos nos mocambos, mas contra a prudência de Ganga Zumba levanta‑se a ousadia de Zumbi, que se prepara para resistir com seu irmão Andalaquituche, apesar dos rogos de Gana Zona, agora libertado pelo governador para parlamentar com ele. Dos mocambos pacifistas partiam muitos jovens para aderir a Zumbi, que se dedicou à guerra e aos assaltos às fazendas e engenhos. Já em 1679 haveria necessidade de uma nova arremetida do governo. No ano seguinte morria Ganga Zumba, misteriosamente envenenado… Zumbi tornava‑se o rei de Palmares.

As novas expedições tiveram êxito reduzido, aprisionando a uns poucos e destruindo pequenas fortalezas. O fracasso da política portuguesa cresceu com a prisão do próprio Fernão Carrilho, que não obedeceu às severas ordens do governador de levar os negros a ferro e fogo. Os governadores seguintes, pelo contrário, prolongaram as negociações de paz, até que o Conselho Ultramarino as considerou inconvenientes.

Então, em janeiro de 1686, Carrilho, ainda preso, foi designado para nova expedição, a qual não teve mais sucesso que a transitória dispersão dos negros.

Enquanto isso, no Magreb, ocidente do mundo islâmico, havia um capitão mouro, Karim Ibn Ali Saifudin, que partiu do Saara marroquino em peregrinação a Meca. Tendo naufragado na costa africana, foi salvo por um judeu, Bem Suleiman, que iniciava uma viagem ao Brasil. Fizeram juntos a atravessia do Atlântico e, uma vez em Pernambuco, adotou o nome português Inocêncio de Toledo. Após constatar a situação dos africanos escravizados e a existência dos “fujões”, foi levado pelo amigo judeu a Palmares. O que viu o envolveu no movimento palmarino e a ajuda de Saifudin na fortificação do quilombo seria conhecida pelo governador de Pernambuco, Caetano de Melo e Castro, que depois o referiria ao rei de Portugal.

Período vicentino
Tendo consultado o Conselho Ultramarino, o governador Soto Maior, conforme já tinham feito contra os indígenas alguns governadores‑gerais, recorreu ao auxílio de bandeirantes vicentinos. Eles eram fundamentalmente desbravadores e conquistadores cuja fama ultrapassava as fronteiras da região. Em todo o país se dizia que os paulistas eram homens valentes e grandes lutadores e os cronistas escreviam que eles eram “criados entre as brenhas, como feras”.

O temível Domingos Jorge Velho foi convidado para a missão em troca de munição, abastecimento, a quinta parte das presas, direito de prender os coiteiros, resgate de escravos recuperados, concessão de sesmarias nas terras conquistadas, quatro hábitos nas três Ordens Militares do Reino para os seus principais capitães etc. Seus homens (800 índios, 200 mamelucos e brancos) que estavam “empregados” matando índios para colonos e fazendeiros no Piauí, demoraram um ano e meio em marcha para Alagoas, assaltando fazendas e roubando gado. Dom Francisco de Lima, bispo de Pernambuco, descreveu o bandeirante numa carta: “Esse homem é um dos maiores selvagens com quem tenho topado. Quando se avistou comigo trouxe consigo intérprete, pois nem falar sabe. Não se diferencia do mais barato tapuia. Assistem‑lhe sete índias concubinas e sua vida, até o presente, foi andar metido pelos matos à caça de índios e índias”. O então governador Caetano de Melo e Castro alertaria o rei: “É gente bárbara, que vive do que rouba”.

Antes porém, os vicentinos foram designados para a Guerra dos Bárbaros, no Rio Grande do Norte, contra os indígenas revoltosos, atrasando para 1690 o início da decisiva campanha contra Palmares. O governador de Pernambuco, Marques de Montebelo, que só acertaria o contrato em 1691, conseguiu do rei Dom Pedro II, em 1693, os hábitos e o quinto dos escravos.

Em janeiro de 1694 concentraram‑se em Porto Calvo, nas Alagoas, civis recrutados, soldados regulares pernambucanos, presidiários soltos, reforços do latifundiário pernambucano Bernardo Vieira de Melo, do sargento‑mor Sebastião Dias e o Terço dos Henriques (regimento criado por Henrique Dias, negro herói da resistência aos holandeses). Juntou‑se‑lhes os bandeirantes paulistas. Foi uma das maiores batalhas ocorridas até então, variando as estimativas entre 3000 e 9000 homens.

Zumbi tinha porém uma surpresa: guarnecera Macaco com um sofisticado sistema de paliçadas (“com flancos, redutos, redentes, faces e guaritas”) e fossos com paus pontiagudos, obra sem dúvida de Saifudin. Querer resistir seria contudo a sua condenação.

A expedição começou em 12 de janeiro e durou 22 dias. Entre as duas investidas infrutíferas de 23/1 e 29/1, com o trajeto reduzido a um par de jornadas graças às trilhas abertas a facão e percorridas pelos soldados, Jorge Velho pedira ao governador alguns canhões. Em 3/2 chegaram seis em carretas puxadas por bois: cifra grandiosa para a época e arma invencível. A tática de aproximação de Jorge Velho foi engenhosa: construiu à noite uma cerca oblíqua que partia do seu acampamento até alcançar a dos negros, cobrindo o seu avanço sem que o pudessem conter. Às duas manhã do dia 5, Zumbi viu que teria necessariamente que contratacar por falta de munição e mantimentos, além de estar quase completamente fechado por esta nova linha: arremeteu com seus homens contra a cerca para ganhar o mato, mas foram rechaçados, caindo 200 negros encurralados num precipício, sendo outros tantos alvejados ou presos. O historiador Sebastião da Rocha Pita, em sua História da América Portuguesa, de 1730 em Lisboa, criou a lenda do suicídio de Zumbi nessas fráguas. Macaco cairia no dia seguinte, arrasada por canhões. 500 homens acabariam presos e ao cabo de poucos meses todos os mocambos estariam destruídos.
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