18 de nov de 2009

A origem de Zumbi

O período holandês
No final do século XVI, as terras da Capitania de Pernambuco eram as mais prósperas das colônias portuguesas. Seus 66 grandes engenhos e a estrutura de suporte litorâneo para o escoamento dos produtos tornavam‑na politicamente relevante. A invasão holandesa de Pernambuco, em 1630, por parte da Companhia Privilegiada das Índias Ocidentais, determinando o abandono de muitos engenhos por seus legítimos proprietários, facilitou ainda mais a afluência de fugitivos ao quilombo. Com efeito, o vice‑almirante da primeira invasão holandesa na Bahia em 1624, Pieter Pieterszoon Heyn, não tendo se rendido quando da resistência bahiana, retornara ao Brasil com mais de 50 navios e 7000 marinheiros e soldados.

Em Palmares havia também indígenas e brancos pobres, influenciando‑se mutuamente numa amálgama cultural bastante heterogênea: viviam um sincretismo religioso, praticavam a metalurgia africana, plantavam milho, fumo, batata e mandioca, comercializando a produção com os vizinhos para adquirir armas, sal, tecidos e ferramentas. Os primeiros contatos dos negros com os índios — provavelmente os kariris, tapuias, que habitavam as serras nordestinas — deve ter sido problemático, devido à pouca resistência desses às doenças trazidas da senzala e aos raptos de mulheres. De fato, há registro de poliandria em Palmares: além de que as negras raramente fugiam, há abundantes achados arqueológicos de cacos de vasos indígenas, cuja fabricação era prerrogativa das mulheres.

As vicissitudes das lutas contra os invasores batavos impediram que maior atenção fosse dada aos aquilombados. Somente no final do governo de Maurício de Nassau, quando foi restaurada a monarquia lusitana em 1640 e se celebrou um armistício entre portugueses e holandeses, enviaram‑se expedições: em 1644 Bartolomeu Lins foi como espião e Rodolfo Baro para destruir o quilombo; no ano seguinte, outra sob a chefia de João Blaer e Jurgens. Tiveram precários resultados, especialmente devido à multiplicação dos mocambos. Por esta época estimava‑se um total de 6000 habitantes, divididos em duas povoações; mais tarde, os portugueses relatariam a cifra de 20000.

Por esse tempo, Ganga Zumba e Gana Zona, filhos de uma princesa africana chamada Aqualtune, eram os chefes dos mais importantes mocambos de Palmares. Outra filha de Aqualtune gerou dois meninos, os futuros possíveis herdeiros, segundo o costume sucessório africano que passa o comando aos sobrinhos, um deles chamado Andalaquituche; o primogênito recebera o nome de Zumbi, deus da guerra.

Período pernambucano
A Insurreição Pernambucana adiou novamente a solução do problema do quilombo até que os holandeses fossem expulsos definitivamente. Após 1654, os governadores enviaram várias pequenas expedições, todas porém insuficientes. A tática dos quilombolas era fugir para a mata quando da aproximação dos brancos, fustigá‑los com emboscadas e voltar ou mudar sua localização quando estes se retiravam. As entradas eram difíceis, impedindo manobras de cavalaria e transporte de canhões. Os que “derrotaram o orgulho da Holanda” não venciam “a fome do sertão, o inacessível dos montes, o impenetrável dos bosques e os brutos que os habitam”.

Em 1655, a expedição de Brás da Rocha Cardoso trouxe capturado um menino de Palmares, Zumbi, o qual foi entregue aos cuidados do p.e Antônio Melo. O inteligente garoto, batizado com o nome de Francisco, aprendeu a ler português e latim e tornou‑se coroinha. Contudo, Zumbi fugiria de volta para Palmares, onde se tornaria chefe de um mocambo, assim como seu irmão Andalaquituche. Seu tio, Ganga Zumba, era o rei, governando a capital, Cerca do Macaco.

Em 1668 os fazendeiros de Alagoas e Porto Calvo assinaram um tratado de União Perpétua tentando organizar uma tropa a fim de restituir os escravos a seus donos por 12000 réis ou 6000, no caso de entrega voluntária. No ano seguinte Serinhaém aderiria à União. Nesse mesmo ano, contudo, o governador de Pernambuco, Bernardo de Miranda Henriques determinou que todos os escravos recapturados deveriam ser vendidos a outras capitanias.

No quilombo dos Palmares, cada chefe de mocambo elegia o rei, que ou se defendia dos ataques dos colonizadores ou promovia expedições guerreiras para libertar escravos. É elucidativa a frase dita pelo governador de Pernambuco Fernão de Sousa Coutinho, em 1671: os negros “formaram povoações numerosas pela terra dentro entre os palmares e matos, cujas asperezas e faltas de caminhos os têm mais fortificados por natureza do que pudera ser por arte, e crescendo cada dia em número se adiantam tanto no atrevimento, com que contínuos roubos e assaltos fazem despejar muita parte dos moradores dessa Capitania mais vizinhos aos seus mocambos, cujo exemplo e conservação vai convidando cada dia aos mais que fogem por se livrar do rigoroso cativeiro que padecem”. Nesse ano, o governador enviou uma nova expedição armada a Palmares, prendendo 200 dos seus habitantes. Por esse feito, o tenente Antônio Jacomé Bezerra passou a coronel. Voltando a carga em 1972 com uma tropa de 600 homens muito bem armada com munição para seis meses, destruiu vários mocambos e incendiou lavouras, mas teve dizimada num contra‑ataque grande parte dos seus homens, tendo de voltar antes do previsto, também pelas inúmeras deserções.

Os palmarinos vingaram‑se meses depois, incendiando os canaviais de Porto Calvo. O alcaide‑mor da vila, Capitão Cristóvão Lins, respondeu arrasando um mocambo de 600 choupanas. Agora a guerra era declarada.
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