17 de nov de 2009

O quilombo dos Palmares


Saudades da África
Palmares existiu entre 1597 e 1694. Como que um “país livre” na região dos atuais estados de Alagoas e Pernambuco, era uma área com cerca de 150 km de extensão por 50 de largura — cortada em Pernambuco pelos rios Ipojuca, Serinhaém e Una e, nas Alagoas, pelos rios Paraíba, Mandau, Panema, Camaragibe, Porto Calvo e Jacupe. Possuía uma floresta repleta de árvores frutíferas e outras excelentes para uso industrial, que cresciam em volta das palmeiras pindoba, buriti e catolé e de inúmeros coqueiros de dendê. No meio dessa mata, movimentava‑se uma variada fauna, propícia para a caça e a pesca.

As faldas da Serra da Barriga — pela semelhança dos seus cômoros, colinas, montes, rochedo, flora e fauna — era como que um pedaço de chão transplantado da África para abrigar os que chegaram ao Brasil acorrentados. Desde a região montanhosa que vinha do planalto de Garanhus, no sertão pernambucano, até às serras dos Dois Irmãos e do Bananal no município de Viçosa em Alagoas, passando pelas serras do Cafuchi, Jussara e Pesqueira, Comonati e da Barriga, tudo eram terras virgens e extremamente férteis. Aí foi o valhacouto dos escravos fugitivos e o maior e mais renhido centro de resistência negra em todo o período colonial. Desde os seus 500 m de altura, as nove “cidades” (chamadas “mocambos”), vicejavam livres com sua capital, Cerca do Macaco.

Formação dos quilombos
Desde a entrada dos primeiros negros no Brasil, por volta de 1538, eles vinham traficados da África nos navios “tumbeiros” em troca de aguardente, vendidos por chefes de tribos inimigas ou mesmo seqüestrados pelos portugueses.

Como não era conveniente que se juntasse na mesma capitania um grande número de escravos da mesma nação, o que facilmente terei perniciosas conseqüências, tentou‑se misturar homens de origem diversa para evitar revoltas, posto que às vezes eram a maioria da população. Tudo leva a crer no entanto que tais intuitos se tivessem frustado na pratica, pois na Bahia fortemente se fez sentir a ascendência dos sudaneses ocidentais da costa da Guiné (iorubas e geges), ao passo que no Rio de Janeiro e em Pernambuco prevaleceram os bantos do Congo e de Angola. Eram outrossim identificados não pela etnia, mas pelo porto de onde vinham exportados.

Os que falavam português costumavam ser mais bem tratados e podiam ter algum ofício: eram os chamados “ladinos”; os que não falavam português eram denominados “boçais” e serviam na lavoura com vida útil de 30 anos: esses zâmbis eram os que mais fugiam, desgostosos dos maus tratos, habitando locais de difícil acesso nas matas, os quilombos.

“Quilombo” vem de Kimbundo, povo e língua dos bantos de Angola. Juridicamente, devido a uma consulta feita em 2/12/1749 ao Conselho Ultramarino, foi definido como “toda habitação de negros fugidos que passem de cinco, em parte despovoada, ainda que não tenha rancho levantado nem se achem pilões neles”. Os primeiros quilombos, que a principio foram reduzidos, de poucos negros, muitos dos quais famintos e doentes, só foram possíveis graça a associação que o negro efetuou com o índio na causa da resistência a escravidão.

A razão da formação dos quilombos no Brasil assenta-se na ferocidade do colono nos engenhos e nas fazendas, nos leitos e na mineração, protegido pela brutal legislação negra que incluía castigos, penas e maus tratos. Serem presos com correntes de ferro ao cepo, trabalharem junto das caldeiras nos engenhos, serem chicoteados para trabalhar, terem alimentação e vestuário limitado, entre outros abusos, concorreram para acirrar o ódio entre o negro e o colono. Pela prepotência de seu semelhante, o negro tendeu a sacudir o jugo, fugir da sociedade que o esmagava, procurando expandir sua liberdade, algumas vezes fazendo insurreições. Como último protesto, só restava ao escravo a fuga para as montanhas, os ermos, os antros: para os quilombos.

O movimento palmerino fora iniciado com alguns negros desgarrados que seguiam para o Maranhão marchando dos centos da Bahia. Mas sua paternidade é atribuída a N`gola Bandi, negro pertencente a tribo dos Jagas bantos provenientes de Angola, os quais eram particularmente belicosos, indomáveis e amantes da liberdade, e que vinham sendo distribuídos pelas fazendas de Pernambuco e Alagoas.
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