23 de nov de 2009

Gêngis Khan: a mística origem do chefe borgigin


Xamanismo
O xamanismo é uma das práticas religiosas mais impressionantes e difundidas, associada especialmente aos povos nativos da Ásia setentrional e central (especialmente entre os siberianos e os uralo-altaicos). Xamã (do tungue saman: “esconjurador, exorcista”) é o indivíduo escolhido pela comunidade para a função sacerdotal, freqüentemente em decorrência de comportamentos incomuns ou propensão a transes místicos, e ao qual se atribui o dom de invocar, controlar ou incorporar espíritos, que favoreceriam os seus poderes de exorcismo, adivinhação, cura ou magia. Por extensão de sentido, tambémxamãs nas sociedades que apresentam formas de ritualismo mágico-religioso, como em algumas tribos das Américas.

Os xamãs, geralmente homens, pretendem, mediante estados extáticos e invocações ritualísticas, controlar os espíritos no próprio corpo e abandonar os estados cotidianos da existência a fim de viajar, ou voar, para o que é tido como outros mundos. O tambor é uma peça de vital importância para sua atividade: utilizado para chamar os espíritos que irão ajudá‑lo em sua empreitada, é o cavalo ou rena que servirá de montaria em sua jornada cósmica para outros mundos. O tambor também pode ser usado como um escudo protetor contra as flechas dos espíritos do mundo inferior. O xamã pode ingerir substâncias alucinógenas para atingir estados alterados de consciência, entrando em contato com entidades do mundo dos espíritos. As ruins terão de ser controladas ou combatidas; as boas terão de ser convencidas a ajudar.

Ao retornar ao mundo comum, os xamãs que atingiram seu intento são vistos como tendo prestado serviços essenciais à comunidade. Usando os poderes e a sabedoria obtidos em seus encontros com outras realidades, pretendem curar através de canções, massagem, ervas ou mágicas, predizer o futuro, controlar as disputas, combater desastres naturais e atacar inimigos.

Depois que a mãe viúva do chefe borgigin se casou com um xamã respeitado como confidente dos deuses, a crença na sua origem divina foi se afirmando. Espalhou‑se rapidamente pelas estepes as notícias de seus feitos heróicos, sua habilidade para tratar com clemência os vencidos.

O longo e trabalhoso percurso do estandarte do Falcão
Seus primeiros vinte anos de governo são uma árdua luta pela hegemonia de um espaço relativamente reduzido. Várias vezes seu cavalo ou ele próprio são atingidos pelas flechas inimigas, vendo‑se a um passo da morte.

Em 1189, Temugin é reconhecido como por uma parte das tribos da Mongólia oriental. Quando houve a guerra entre os kin e os tártaros, Temugin colocou‑se do lado dos chineses e keraítas, recebendo armas, dinheiro e o título de capitão. Contudo, outro líder fiel aos keraítas, Giamuca, preferiu unir‑se aos taitchutas, descendentes de Kabul. No combate entre os dois, Temugin foi flechado no pescoço, sufocando‑se. Um dos seus guerreiros atravessou a noite sugando‑lhe a ferida para estancar o sangue e, no dia seguinte, Temugin retornou à batalha desbaratando completamente seus inimigos. Dentre os prisioneiros estava o jovem causador do ferimento, que se apresentou dizendo: “Se me matares, sujarás um palmo de terra; mas se me tomares a teu serviço, terás um arqueiro que conquistará a terra, até onde sua flechaque bem conheces – puder chegar”. Temugin tomou Geba, “a Flecha”, a seu serviço.

Para evitar qualquer ameaça de leste, atacaram novamente aos tártaros. Temugin disse a seus generais: “Se a vitória for nossa, que ninguém se ponha a saquear nem reúna butim, pois este será dividido em partes iguais. O combatente que tiver de recuar, volte assim que possível a seu posto. Aquele que não voltar será decapitado”. No fim do dia, os poucos tártaros sobreviventes tornaram‑se escravos dos clãs aliados.

Ao fim do século XII, os keraítas e seus vassalos borgigin conseguem unir grande parte dos nômades da Mongólia. Contudo, Temugin passou a desejar uma aliança em de igualdade. Em 1203, enviou um mensageiro a Togril , pedindo a mão da princesa keraíta para seu filho Gutsci, mas Togril recusou o pedido.

Na corte de Togril estava Giamuca, que indispôs o príncipe herdeiro keraíta, o qual por sua vez convenceu o pai da necessidade de atacar “o ambicioso vassaloum golpe apenas e as tribos deixá‑lo‑ão sozinho; a surpresa nos dará a vitória”. Mas Temugin surpreendeu antes aos keraítas, atacando‑os e retirando‑se imediatamente, dada a superioridade numérica do adversário, ao mesmo tempo que enviando emissários para lembrar a antiga aliança e propondo a paz.

Contudo, o estratagema amedrontou muitas tribos fiéis, que decidiram abandoná‑lo. Inclusive alguns de seus parentes voltam‑se contra ele. Temugin seguiu então para o norte, próximo à fronteira manchu, onde passou o verão preparando as armas e firmando alianças, até julgar‑se forte o suficiente para atacar abertamente os keraítas.

Caíram sobre os inimigos durante um banquete e o sangrento ataque durou três dias, quando enfim se renderam os keraítas. Togril, que buscara refúgio entre os vizinhos naimanos, foi decapitado e sua cabeça entregue a Temugin. Este ordenou que de seu crânio fosse feita uma taça engastada em prata.

As garras dos quatro Cães
Os naimanos eram culturalmente herdeiros dos turcos e uigures. Os turcos ou turcomanos são um povo asiático, originário da Sibéria oriental, que desde o início do segundo milênio d.C. se espalhou em sucessivas ondas migratórias pela Ásia, no sentido do ocidente, e chegou até a Anatólia, cujos habitantes atuais são seus descendentes, bem como os antigos búlgaros, azerbaidjanos, turcomenos, tártaros, uzbeques, iacutos e diversos outros povos. Por sua vez, os uigures são um povo turcomano que construiu um próspero reino no Turquestão oriental que durou de 840 d.C. ao século XIV.

Foi junto à corte do dos naimanos, chamado Grande Rei pelos chineses, onde encontraram abrigo os inimigos do novo chefe de todo o leste mongol. Mais uma vez soaram os tambores da guerra e os homens temerosos e os cavalos exaustos de Temugin preparam‑se para enfrentar um exército de 80.000 homens.

Os naimanos se surpreenderam ao ver homens magros e doentes sobre cavalos semimortos. Atacaram‑nos confusamente, dizendo: “reuniremos todos e os conduziremos ao matadouro como carneiros e ovelhas, e deles restarão apenas os chifres e os cascos”. Era o que Temugin pretendia: ao cair da noite, atacou com o grosso do exército o inimigo, cuja ordem de combate fora desfeita e que se entregava à matança das tropas enviadas como isca.

O rei dos naimanos perguntou a Giamuca: “quem são aqueles que nos perseguem como lobos?”, ao que lhe respondeu: “são os quatro cães de Temugin”. E acrescentou: “Nutrem‑se de carne humana e ficam presos a uma cadeia de ferro. Agora estão soltos, sua baba escorre, estão cheios de alegria. Chamam‑se Gebe, Kublai, Gelmé, Subotai — os grandes generais de Temugin”.

Os cavaleiros naimanos foram batidos e seu rei morto. Giamuca ainda fugira mais uma vez, para logo depois foi aprisionado e morto.
Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...