14 de out de 2009

A vida política de Dante Alighieri


Se faltam referências seguras de um estágio de Dante em Paris, é certo que passou vários meses em Bolonha dedicado aos cursos de ciências naturais, escolástica e filosofia clássica. Ao voltar para Florença em 1293, tornara‑se um homem sensivelmente mudado, acerbo, áspero e inquieto, confuso das convicções morais, sociais, religiosas e filosóficas em que até então se apoiara.
Passou a freqüentar mais assiduamente a roda de seus amigos, especialmente Forese Donati, Giotto e o músico e compositor Casella. Os hábitos inconseqüentes e desregrados do grupo fizeram‑nos alvo de comentários maliciosos na cidade, a ponto de Boccacio ter escrito: “in questo mirifico poeta trovò amplissimo luogo la lussuria”. Eram discussões pelas tavernas da cidade, equívocas conquistas amorosas… Até de vandalismo sacrílego foi Dante caluniado, porquanto rompeu a murada do batistério de São João, padroeiro de Florença, para salvar uma criança que resvalara ao poço (Inferno, XIX):

19 Recordo a um deles ter danificado,
para a alguém resgatar, que se afogava:
e fique o mal, assim, desenganado.

Para lançar‑se Dante ainda mais à meditação da fugacidade da vida, recebeu a dolorosa notícia da morte de seu mestre Brunetto Latini e de seu condiscípulo Capócchio, levado à fogueira sob a acusação de prática de alquimia e falsificação de metais preciosos.
Como Carlos Martel, rei da Hungria, estava em Nápoles em 1294, visitando seu pai, Carlos II, Dante foi até lá dar‑lhe os cumprimentos. O poeta teve então a oportunidade de falar pela última vez com Carlos Martel, que morreria no ano seguinte, mas também de conhecer o novo papa, São Celestino V, cujo pontificado de apenas cinco meses terminaria de forma dramática. Com efeito, o papa renunciou perante o Consistório, ao que parece por causa de uma astuta campanha do cardeal Gaetani, destinado a sucedê‑lo com o nome de Bonifácio VIII.
São Celestino foi desterrado e mantido praticamente prisioneiro em condições desumanas, vindo a morrer dois anos depois. Comentava‑se que, à véspera da eleição, Gaetani recorrera a Carlos II para que lhe obtivesse o voto de alguns cardeais a ele ligados, sob a promessa de apoiá‑lo nas questões políticas.
Dante, cada vez mais projetado como poeta — compôs nessa época a canção Amor che ne la mente mi ragiona, musicada por Casella —, lançou‑se à vida política em 1295. Tendo‑se inscrito na corporação dos médicos e boticários, foi admitido ao Conselho dos Cem, que controlava as finanças. Com relação à sua vida familiar, casou‑se com Gemma Donati, de quem haveria de ter três filhos: Jacobo, Pedro e Antonia.
De há muito, a distinção entre guelfos e gibelinos deixara de caracterizar posições políticas definidas, porquanto os sucessores de Frederico II da Sicília malograram como herdeiros. Uma nova segmentação agora se estabelecia no seio dos guelfos florentinos, cuja raiz histórica provinha da vizinha Pistóia, onde a numerosa família Cancellieri se dividira entre os partidários dos filhos de Bianca Cancellieri e os demais, numa luta de ódio e vingança.
Adventícios pistoianos em busca de refúgio em Florença envolver‑se‑iam no crescente dissídio entre os antigos e prestigiosos Donatis e os populares mas abastados Cercchis, transferindo‑lhes a denominação de “negros” ou “brancos”. Os guelfos negros eram constituídos por uma parte considerável dos antigos guelfos, sob a liderança de Corso Donati; aos brancos, chefiados por Vieri de Cercchi, afiliaram‑se alguns guelfos mais moderados e os remanescentes e marginalizados gibelinos.
Como os entrechoques recrudesciam, os priores resolveram enviar Dante Alighieri à corte papal, a fim de pedir a Bonifácio VIII que interviesse para compor as divergências. Era o ano de 1300, escolhido pelo Pontífice para a celebração do Ano Centésimo de Indulgência, o primeiro jubileu da história da Igreja.
A bula de convocação, Antiquorum habet digna fide relatio, determinava seu início a 22 de fevereiro, festa da Cátedra de São Pedro, e sua conclusão para o Natal do mesmo ano, indulgenciando a visita às basílicas de São Pedro e São Paulo. Para Dante, cuja embaixada coincidiu com a peregrinação de centenas de outros florentinos.
A Cidade Eterna regurgitava numa intensa e incomparável demonstração de fé. Essa experiência forneceu ao poeta um imenso patrimônio de emoção e beleza, de maravilhamento perante o caráter viandante da vida, certamente impactante para a inspiração da Commedia.

(Inferno, XVIII)
25 No fundo estavam nus os pecadores:
ia um grupo, o outro vinha, em direção
inversa, como atletas corredores
28 — tal se observava em Roma a multidão,
no ano do Jubileu, a afluir à ponte,
que, para transitar sem confusão,
31 iam por uma parte os que o horizonte
buscavam de São Pedro, à sua frente,
e da outra os que seguiam para o monte.

O Pontífice prometeu tomar providências, mas o embaixador parece não ter nutrido grande simpatia por Bonifácio VIII, talvez já prevenido pelos rumores maliciosos, quiçá pela excessiva preocupação do papa com o superado conflito entre guelfos e gibelinos.
A perspectiva de tão prestigiosa mediação na realidade viera porém incutir aos Negros novas esperanças de predomínio. Depois de longa demora, chegou a Florença o cardeal Mateus d’Acquasparta, na qualidade de representante pessoal do papa. Naquele ínterim coubera a Dante o momentaneamente ingrato e conturbado cargo de prior, ao ser eleito pelo Conselho dos Cem. O priorado era o órgão supremo do executivo, desempenhado por um grupo de seis priores durante o exíguo tempo de dois meses.
A proposta assaz conciliadora do cardeal não agradou aos litigantes contumazes e os Brancos não quiseram admitir dividir o governo com os que se submetiam à chefia atrabiliária de Corso Donati. O cardeal, a princípio cumulado de gentilezas, recebia então duras críticas. Murmurava‑se que viera a serviço das pretensões reais de Bonifácio VIII, que temia um possível ressurgimento dos gibelinos na Toscana. Como guelfos exaltados repudiassem violentamente as propostas diante do palácio episcopal onde Acquasparta estava hospedado, lançando pedras e inclusive algumas setas, o cardeal deixou Florença indignado com o ultraje, apesar das escusas e promessas de correção dos culpados.
As duas facções acusavam‑se mutuamente pela violência contra o purpurado. Com medo à guerra civil e para livrar a cidade de uma dissensão, os priores que sucederam a Dante a 15 de agosto de 1300 pediram‑lhe seu conselho. Dante sugeriu o banimento dos líderes mais contenciosos das duas facções dos guelfos, o que foi levado à prática de forma pouco política.
Isso lhe valeu a fama de culpado, tanto aos olhos de seu colega e melhor amigo Guido Cavalcanti, que estava entre os Brancos e morreria de febre no exílio, quanto a Corso Donati e aos demais Negros. Corso assaltara publicamente Guido Cavalcanti, o qual, em troca, tentara matá‑lo. Além disso, os priores afastaram não só os mentores, mas várias dezenas de elementos, preservando o inexplicavelmente Vieri de Cercchi. E, para cúmulo, suspenderam ao cabo de algumas semanas a sentença de exílio que pesava sobre os líderes Brancos. Os Negros declararam‑se traídos e concentraram seu ódio em Dante.
Tendo conseguido evadir‑se do castelo de Pieve em que estavam confinados, os guelfos negros procuram articular‑se politicamente. Corso Donati procurou Bonifácio VIII, o qual sensibilizou‑se por sua causa. O papa que poria na tiara uma segunda coroa, a do poder real, talvez tivesse então divisado a possibilidade de consolidar seu poder naquela área. Decidiu intervir, solicitando a Filipe o Belo, rei da França, que enviasse seu irmão, Charles de Valois, que se encontrava em Nápoles, a Florença, a fim de estabelecer a paz e a ordem ali.
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