15 de out de 2009

Exílio e morte de Dante Alighieri


Charles de Valois e seu exército cercou Florença em novembro de 1301. Dante foi a Roma numa missão diplomática de emergência, tentando dissuadir o papa de apoiar os franceses. Bonifácio VIII o reteve na Cidade Eterna deliberadamente, de modo que os guelfos brancos ficaram privados de uma voz forte. Em janeiro de 1302, Florença caiu nas mãos de Charles de Valois, que reabilitou Corso Donati, para desgraça dos guelfos brancos.
Ao tomar conhecimento da calamidade, Dante retorna, mas, aconselhado a aguardar em Siena, recebe a 27 de janeiro a notícia de que o tinham condenado a dois anos de prisão e a pagar uma multa de 5.000 florins, além de interdição perpétua dos ofícios públicos, sob acusação de corrupção e sedição. Se não satisfizesse em três dias a pena pecuniária, estaria sujeito ao confisco de todos os seus bens.
Deixou‑se ficar em Siena mais algum tempo, indignado com a vil sentença e a impossibilidade de reunir tamanha soma em tão pouco tempo. A 10 de março, outra sentença se expedia: condenação à fogueira, caso fosse detido pela comuna, por não ter pagado a multa nem comparecido para responder ao processo; e seus bens foram arrolados para efeito do confisco.
Antes de se afastar definitivamente de seus companheiros, assumindo o exílio definitivo, Dante ainda prestou ajuda, contra seu parecer, a uma tentativa de resistência dos guelfos brancos foragidos em Arezzo, facilmente desbaratada pelas tropas florentinas e francesas. A frustração da esperança de retorno suscitou revolta entre os refugiados contra seus líderes. O poeta já não suportaria a mesquinhez dos sentimentos, a inconstância da opinião e a teimosa cegueira de seus conterrâneos.
O “mal de França” (Purgatorio, VII, 79), Filipe o Belo, passou a mostrar‑se cada vez mais exigente e ambicioso a Bonifácio VIII, querendo interferir diretamente nos interesses da Santa Sé. Como o papa oferecesse resistência, Filipe enviou‑lhe o general Guillaume Nogaret com uma ordem de prisão. O Pontífice octogenário, que estava recolhido em Alagna, sua residência particular, foi agredido por um comandante, caiu enfermo e faleceu em Roma pouco depois. Dante não pôde deixar de protestar contra o ominoso atentado à dignidade de Igreja (Purgatorio, XX):


85 E para os outros crimes lhe atenuar,
vejo invadir Alagna o lis dourado,
e em seu vigário Cristo aprisionar,

88 por novamente ser vilipendiado,
e provar outra vez vinagre e fel,
e entre os ladrões, ser novamente alçado.



Bento XI, o novo papa eleito, que também se opôs à política francesa, morreria menos de um ano depois, supostamente envenenado por ordem de Filipe. Enfim foi eleito Bertrand de Sout, arcebispo de Bordéus, sob o nome de Clemente V o Gascão, ao que parece patrocinado pelo rei francês, sob condição de fazer‑lhe todas as vontades, como de fato aconteceu: entre outras coisas, a extinção da Ordem dos Templários, a cessão, por cinco anos das rendas locais do clero à coroa da França e a surpreendente transferência da Santa Sé ao território gaulês.
Embora os guelfos brancos exilados tenham se unido aos gibelinos pela força das circunstâncias, Dante, que lutara contra eles em Campaldino, não admitiu tal solução de compromisso, mas esteve em diversas cidades toscanas simpatizantes à sua causa política, valendo‑se de seus talentos retóricos e diplomáticos. As provações do exílio e todas as vilezas, cobiças e maldades dos que o levaram ao infortúnio proporcionaram a Dante a motivação final para dar corpo à Commedia.
Dante ainda haveria de ver suas últimas esperanças desfeitas: a empresa mal sucedida de Henrique VII na Itália, tentando fazer jus ao seu domínio sobre a península; a morte prematura de Cangrande della Scalla, senhor de Verona, que se exaurira em infecundas guerras contra Pádua procurando modificar a situação italiana.
Como Dante favorecesse a Uguiccione della Faggiola, capitão de Lucca, que tinha pretensões sobre a Toscana, as autoridades florentinas expediram sua condenação à decapitação, extensiva a seus filhos que combateram contra a cidade, caso caíssem em seu poder. Em Lucca, o poeta viveu uma derradeira paixão por uma jovem chamada Gentucca.
A repentina destituição de Uguiccione, repercutiu tão positivamente em Florença que se concedeu anistia a todos os exilados, mediante admissão formal de culpa e indenização. As saudades de Dante foram porém superadas pelo seu estrito sentido de justiça e de honra, e permaneceu no exílio com seus três filhos, morando em Ravena. A serviço de Guido Novello, senhor de Ravena, Dante ainda realizou uma última missão diplomática em Veneza, cujos ares paludosos combaliram sua saúde, pelo que veio a morrer em 13 de setembro de 1321.
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